Aos 38 anos, sendo 13 deles vividos ao relento, Juracir Nunes da Silva é minoria inclusive entre os moradores de rua por ser mulher. Mas de cabelo raspado, por várias vezes, se misturou com a “molecada” para “batalhar” uma casa abandonada para passar a noite.
“Dá rolo. A polícia não deixa ficar. Tira a gente de lá. Na rua, roubam tudo enquanto a gente dorme. Agora aluguei um quarto”, diz em tom pouco convincente. O comandante interino do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior-4 (4.º BPMI), major Pedro Batista Lamoso, confirma o interesse deles por imóveis desta natureza, principalmente os situados no Centro e na zona sul.
“Lá eles se abrigam do frio, usam banheiro, mesmo sem água. Quando tem (água), tomam ou se banham. Vão para lá durante a madrugada”, comenta. Durante o dia, circulam por outros pontos da cidade. Pela manhã, procuram lojas para pedir roupa. À tarde, permanecem próximo aos restaurantes. À noite, em locais de festa e cruzamento, explica o major.
De acordo com ele, a PM está concluindo levantamento que apontará os cerca de 30 endereços mais recorridos. O trabalho foi solicitado pelas secretaria municipal do Planejamento (Seplan) e Bem-Estar Social (Sebes). “O jurídico (da prefeitura) deve estudar os casos com base no Estatuto das Cidades. Vão tomar providências para que o proprietário cuide do imóvel”, informa Lomoso.
O comandante ressalta que a situação é preocupante porque esbarra na questão de saúde pública. “Eles deixam resto de comida e até defecam pela casa ocupada”, comenta. A informação foi confirmada pelo vendedor Elizeu Corrêa, vizinho de um imóvel abandonado na quadra 11 da rua Rubens Arruda. “Já chamamos a polícia e a prefeitura. O pessoal da higiene vem, mas não toma providências”, diz.
Confirma a informação Carlos Iunes, outro morador da mesma rua. “Além disso, sai muita briga. Juntava uns 20, 30 homens. Eles consumiam entorpecentes. A situação melhorou faz uns dois meses. A polícia faz o que pode, mas os herdeiros têm de tomar algumas medidas”, afirma.
O responsável pelo imóvel, Nestor dos Santos, começou na última sexta-feira a demolir a residência onde passou parte da infância. Garante que nunca abandonou a casa, invadida e furtada. “Fiz tudo o que pude e só ficou o esqueleto”, lamenta.