Vovô contando história para sua netinha Augusta.
- Um gambá procurava seu alimento numa pastagem de gado. De repente, aparece ali um boi e, vendo o pequenino animalzinho, perguntou: o que faz por aqui, fedorento? O gambá, vendo aquele boizão, não se amedrontou e respondeu: eu estou aqui porque sou livre e posso ir para onde eu quiser, não tenho divisas para respeitar, não sou como você, que está aqui preso por uma cerca de arame para não fugir.
O boi viu que o gambá tinha razão, mas começou contar as vantagens que ele recebia. Eu tenho bom médico, sou vacinado e não fico revirando lixo para me alimentar. E você, bicho feio fedorento? Ah! Aí o gambá arrasou, eu sou livre, moro no mato, não como capim, como ovos, carne, arroz, maionese e até churrasco que o bicho-homem faz com você e ninguém se interessa por mim porque sou feio e fedorento, a não ser alguma pessoa e algum cão mal-informado que me atacam pelo prazer de fazer mal aos animais. Você, boi, está aí bem tratado para ir para o matadouro, sabe para quê? Para virar churrasco, bife, lingüiça, mortadela, sapato, e com isso aumentar o saldo no banco, do seu dono.
O boi ficou triste, baixou a cabeça e pediu desculpa ao gambá pelo preconceito e continuou: um dia eu quero ser um gambá fedorento livre daqueles caminhões apertados e se eu ficar cansado ainda me dão choque para que eu levante. O gambá, com ironia, disse ao boi: como você é tão útil ao ser humano, quando você morrer vai ser santo, são Zebu, são Nelore e eu se quiser ir para o céu só se o urubu me levar. Augusta, vendo a triste sina do boi, disse para o vovô: eu não vou comer carne, só vou comer lingüiça. O vovô, vendo a inocência da criança, parou por aí dizendo: não devemos maltratar os animais.
Francisco A. Torrecilha - RG 9.585.407