10 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: O erudito e o pensador

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Havia certa vez um rei que queria, de qualquer forma, ver Deus. Assim, o monarca pressionou seus ministros e todos os sacerdotes do reino com um terrível castigo, caso eles não conseguissem lhe mostrar Deus. Quando todos já estavam quase desesperados, um sábio apareceu na corte dizendo que poderia resolver a questão. Este conduziu o rei em pleno meio-dia a uma praça pública e pediu a ele que olhasse diretamente para o sol. O rei depois de alguns segundos não agüentou e disse ao sábio: “Por acaso você quer me cegar?” O sábio, então, respondeu: “Mas... majestade o sol é somente uma criatura de Deus. Como o senhor vai poder agüentar ver Deus de frente? Em vez de ver Deus, não seria melhor descobrir qual a relação de Deus com a nossa vida e o nosso universo?”

Existe uma grande diferença entre ser um erudito e ser um pensador. A pessoa erudita possui um conhecimento vasto, um enorme acúmulo de informações adquiridas sobretudo através da leitura. O pensador é simplesmente aquele que pensa, aquele que reflete. Ser erudito não significa necessariamente ser um pensador e, muitas vezes, o pensador não possui a necessidade de ter erudição. O ideal é que a erudição seja um instrumental para aquele que pensa, mas nem sempre isso acontece.

Em contrapartida, o conhecimento, muitas vezes, torna-se simplesmente um fator decorativo, ou seja, o erudito não sabe o que fazer com o conhecimento acumulado. A erudição vem simplesmente da curiosidade de “ver” e reter na memória determinado fato, coisa ou informação. O ato de pensar surge quando nos perguntamos: o que eu faço com este conhecimento adquirido? Qual a relação destas informações com a minha própria vida?

Justamente a simples erudição, o chamado “conhecimento ornamental” é objeto de crítica para o filósofo Demétrius. A fundamental diferença entre a simples erudição e o saber do pensador é que a primeira não possui o poder de modificar a vida e o universo do sujeito. O saber que interessa a Demetrius é o “saber relacional” e este é o típico saber do pensador. O filósofo esclarece que o ser humano deve saber de tudo: Deus, tempo, plantas, animais, relações humanas, política. Não importa se estes conhecimentos não dizem respeito diretamente ao indivíduo. Demétrius não nos pede para reduzirmos o olhar para o mundo individual, ou seja, reduzir o conhecimento a uma psicologia. É necessário conhecer todo o universo.

Apenas é preciso ter destas coisas e áreas um saber diferente. Não importa se a informação diz respeito a minha pessoa ou não, diante de qualquer conhecimento teremos sempre dois modos de saber: um, o saber frio que se torna uma coisa simplesmente possuída pelo meu intelecto; o outro, um modo de saber relacional que é digerido por todo o meu ser e transforma a minha vida. Através do primeiro tipo de saber posso me tornar um “dicionário ambulante”, mas dificilmente encontrarei um sentido para o conhecimento. Através do saber relacional fazemos de nós mesmos o ponto central e constante de todas estas relações, ponto este através do qual conduzimos nosso olhar para as coisas do mundo, para os deuses e para os homens. “A mente do homem estendida para absorver uma nova idéia nunca volta às suas dimensões originais” (Oliver Wendell Holmes).

É neste campo de relação entre todas as coisas e nós mesmos que o saber poderá e deverá desenvolver-se como fruto do ato de pensar. O que é necessário conhecer são as relações: relações do sujeito com tudo o que o cerca. Desta forma, o conhecimento deixa de ser algo simplesmente adquirido, um dado guardado na memória, mas se transforma em um produto do próprio indivíduo. O que há de conhecer, ou melhor, a maneira como se há de conhecer, é tal que o que é descoberto como verdade, de saída e imediatamente, estabelece-se como preceito. É o conhecimento que, à medida que o elaboramos, provoca uma mudança de hábito e atitude.

O ornamento da cultura consiste precisamente em alguma coisa que pode perfeitamente ser verdadeira, mas em nada modifica o modo de ser do sujeito. Aqui não está uma distinção entre os conhecimentos teóricos e os conhecimentos práticos, mas a distinção está no modo do saber e na maneira como aquilo que conhecemos sobre qualquer coisa possa gerar um êthos. Os gregos utilizavam um verbo interessante que é “ethopoiein” que significa fazer o êthos, produzir o êthos, modificar a mentalidade e com ela a maneira de ser do indivíduo. Um “ethopoiós” consiste em um acontecimento que tem a qualidade de transformar o modo de ser de toda uma coletividade. O saber do indivíduo que verdadeiramente pensa possui um caráter “etopoético”, ou seja, a capacidade de modificar a maneira de ser dos outros indivíduos. “Se queremos buscar a Deus, devemos buscá-lo dentro de nós mesmos, pois fora de nós jamais o encontraremos” (Paracelso).