09 de julho de 2026
Política

Garotinho prega autocrítica no PMDB

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

O ex-governador do Rio do Janeiro e pré-candidato a presidente da República em 2006 Anthony Garotinho comentou ontem, em Bauru, que o PMDB está passando por um processo de autocrítica em relação à sua participação nos governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para, agora, se posicionar como alternativa exatamente dessas forças políticas no país.

Garotinho visitou parentes em Agudos e, acompanhado de correligionários do prefeito da cidade vizinha, Carlos Octaviani (PMDB), cumpriu em Bauru mais uma etapa da agenda de encontros pelo Interior paulista com o objetivo de defender a candidatura própria peemedebista à Presidência da República e buscar apoio a seu nome em uma eventual convenção.

O ex-governador desembarcou no aeroporto local em jato particular e, de lá, participou de encontro político na Câmara Municipal de Agudos. Em seu discurso, ele convidou os simpatizantes, boa parte evangélicos, a refletir sobre três questões.

Na primeira, argumentou que o PMDB ganha espaço político com candidatura própria, elegendo mais vereadores e prefeitos. No segundo ponto da reflexão, Garotinho pontuou que o PMDB errou ao apoiar Lula e FHC, mas é alternativa de poder no País. Por fim, Garotinho defendeu seu próprio nome, elencando que reúne “capacidade de vencer a eleição para comandar o País e governabilidade”.

Em contraponto ao fato de já ter sido governador, ele discursou em Agudos que “Lula não sabe governar” e disparou que os tucanos foram os “gafanhotos devoradores” do País. Para não perder o espírito messiânico em seus discursos, Garotinho citou passagem do livro bíblico de Eclesiastes para parafrasear que teria chegado sua vez de dirigir os destinos do País: “Há tempo determinado para todas as coisas”. Leia os principais pontos da entrevista:

Jornal da Cidade - O presidente Lula disse ontem na TV Cultura que não acredita em mensalão e antes havia dito que não sabia de nada. Como o senhor recebeu esta declaração?

Anthony Garotinho - Olha, acho que esta frase reflete um pouco da crise. Eu tenho dito que esta crise brasileira é a da falta da sinceridade. O presidente disse que não sabia, inicialmente, que seu filho tinha recebido R$ 5 milhões para se tornar um empresário. Depois o presidente Lula disse que também não sabia que o amigo José Genoíno assinou todos aqueles contratos milionários de empréstimos sem ler. O presidente disse que também não sabia das travessuras do ministro José Dirceu no gabinete ao lado do seu. Bom. Eu acho que o presidente precisava respeitar mais o povo brasileiro e tratar esse assunto com seriedade. Assumir as responsabilidades que são suas como presidente da nação e pedir a punição dos responsáveis. Acho que está cansando essa história de dizer que não sabia e o povo brasileiro não é bobo.

Imprensa - Qual seria a saída política para a crise?

Garotinho - Acho que isso que eu falei. O presidente assumir as coisas, as responsabilidades, os erros que podem ocorrer na administração, afastar quem tem que afastar e seguir em frente. Porque hoje não há governo, o país está paralisado. Vocês vejam que não se aprova nada. Para a aprovação da MP do Bem foi uma dificuldade. Os ministérios não conseguem ganhar nem o dinheiro que tem e o Brasil voltou a ter febre aftosa, um escândalo. O presidente precisa parar de fazer o povo de bobo, chegar diante das câmeras e admitir que houve erros e que eles precisam ser corrigidos.

JC - Mas não faltou posição firme do partido do senhor, o PMDB, contra esse quadro e para o país voltar a andar? O presidente do Senado, Renan Calheiros, é do PMDB.

Garotinho - Não, veja bem. O PMDB é outra história. O PMDB ele decidiu na convenção nacional do dia 12 de dezembro de 2004 que terá candidato próprio a presidente da República. Decidiu também, até por indicação minha, que esse candidato vai ser escolhido em prévias, que foram marcadas para o dia 5 de março de 2006, onde vão votar todos os vereadores do PMDB do Brasil, vão votar os prefeitos do PMDB, vice, presidentes de diretórios municipais, delegados, deputados. Portanto, o que eu estou fazendo neste momento é percorrer o Brasil para mostrar que a candidatura própria é importante. Ontem estive em Rio Preto, Araraquara, Araçatuba. Estamos conversando com o PMDB mostrando a importância do PMDB ter candidato a presidente da República. Ter candidato próprio pelo PMDB dá ao País a opção de sair dessa disputa entre PT e PSDB, disputa dos iguais, da mesma política econômica, que defendem os banqueiros, política de juros altos. Estou inscrito na prévia como candidato a presidente da República e outros podem se inscrever no PMDB até 12 de fevereiro do próximo ano. Ao invés do PT e PSDB, o brasileiro pode votar na bandeira do desenvolvimento, do progresso e da justiça social para o País.

JC - O senhor não vê dificuldade do PMDB abraçar essa bandeira, pela tradição governista dos últimos anos, por ter apostado no modelo atual, por ter se aproximado dos tucanos e do PT e por contar com caciques tradicionais como Orestes Quércia, Renan Calheiros e Michel Temer?

Garotinho - O Orestes Quércia hoje é o maior defensor da candidatura própria do partido. Ele encaminhou a votação a favor da candidatura própria do partido e o deputado Michel Temer também. Bom, eu não vejo problema do PMDB fazer uma autocrítica. As pessoas também erram, os partidos também erram. O PMDB, na história do Brasil, tem um legado inquestionável, de ser o partido que devolveu a democracia aos brasileiros, o partido do voto direto e da anistia. Num determinado momento, após a promulgação da Constituição Cidadã, por Ulisses Guimarães, o PMDB caiu no conto do Fernando (Henrique Cardoso) e aí se encaminhou por uma política neoliberal que não é a história nacionalista do PMDB. Mas acho que agora o PMDB amadureceu, está fazendo uma auto crítica do apoio que deu ao Fernando Henrique, e ao conto do Lula também, e vai marchar com candidato próprio.