Nos meados da década de 40, aproximadamente em 1945, surgiu em Bauru, proveniente de Duartina, um jovem negro, que andava constantemente descalço, trajando sempre calça tipo “pula-brejo”, e, devido a uma anomalia em seu aparelho locomotor, andava desengonçado, com os joelhos unidos e os pés curvados para fora. Era uma figura muito popular, pacato, não pedia esmolas e vivia do que lhe davam espontaneamente. Dormia nas varandas das casas, com a permissão de seus donos. Devido àquele andar desengonçado, a molecada não perdeu tempo e deram-lhe logo o apelido de Calango. O Calango interpretava algumas cantigas, quiça de sua autoria, pois nunca ouvi outras pessoas interpretá-las. Quando cantava, fazia a marcação do ritmo com os dois dedos indicadores batendo no peito.
Uma de suas cantigas era assim: Oh! Amélia, Oh! Amélia, quanto mais o povo fala, mais amor eu tenho nela; no meu pandeiro novo, que veio de Santa Rita, pra bater nesse pandeiro, só se for moça bonita.
Outra cantiga que me lembro parcialmente era assim: Bate o vento, bate o vento e a noite cai, e a sombra da noite até parece a sombra do meu pai. O Calango foi uma tábua de salvação para as mamães que tinham aqueles filhinhos que relutavam a ingerir a papinha. As mamães apelavam: Ah, você não quer comer? Então eu vou chamar o Calango. Daí os filhinhos “limpavam o prato”.
No Jardim Bela Vista tinha o Toninho, de baixa estatura, sofria de algum distúrbio mental, e por motivo desconhecido não suportava ouvir falar a palavra Calango. A molecada sabendo disso chegava junto ao Toninho e dizia: Toninho, hoje eu vi o Calango, e ele mandou dizer que irá dar uma surra em você. O Toninho sacava então um respeitável canivete e dizia: Aqui oh, pro Calango.
Na mesma época existia o Cala a Boca. Essa figura trajava-se razoavelmente e gostava de andar pelas ruas centrais e ao passar por alguém dizia: Cala a boca. Consta que certa vez dois cidadãos estavam parados, conversando, na rua Batista, e repentinamente surgiu a figura expressando o seu “cala a boca”. Os dois cidadãos não conheciam a figura e aplicaram-lhe uma reprimenda.
Argemiro Trindade - OAB/SP 83.059