09 de julho de 2026
Bairros

16 pessoas são despejadas de barracão

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 3 min

Parecia um cortiço: oito pessoas – uma família e seus conhecidos – morando em um barracão de alvenaria que, improvisado, foi transformado em casa. Sem-teto, eles chegaram aos poucos e foram se acomodando no imóvel no Jardim Contorno. Mas ontem, depois de dois anos no local, o grupo que vivia de reciclagem foi retirado do imóvel pela Polícia Militar, que cumpriu mandado de despejo coercitivo obtido na Justiça pelo proprietário do imóvel, Luiz Fernando Selmo Palhares.

Os policiais chegaram por volta das 8h30, quando a maioria dos moradores estava tomando café no asilo da Vila Vicentina. “Como muitos deles apresentam histórico policial, iniciamos a operação neste horário para fazer uma varredura atrás de armas e evitar confronto com os moradores”, explica o capitão Nélson Garcia Filho, que comandou a operação. Ao todo, 24 policiais participaram do despejo, que não teve incidentes.

Os dois moradores que estavam no galpão concordaram em desocupar o imóvel. Os demais, quando chegaram, entenderam que não tinham base legal para permanecer no local e começaram a reunir os pertences, inclusive os animais (leia mais abaixo). Mas a líder do grupo, Lucimara de Almeida, 42 anos, ficou exaltada e criticou o fato de a desocupação ter começado sem que todos os moradores estivesses presentes.

Ela reclamava que tinha acabado de adquirir um fogão para a casa e que não teria onde deixar os pertences e se recusava a ser encaminhada ao albergue. “Não gosto de albergue, conheço desde criança e não gosto”, resistia. Toda a operação foi acompanhada por assistentes sociais da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes). Segundo Cláudia Patrícia Clérigo, diretora da secretaria, os moradores do barracão já haviam sido visitados pelo serviço social da prefeitura diversas vezes, mas se negavam a deixar o local ou participar de algum programa assistencial.

“Não podemos obrigá-los a aceitar. Eles são adultos e possuem capacidade para decidir se querem ou não a ajuda, mas estamos aqui para oferecer, novamente, condições para eles retomarem a vida”, esclarece a diretora. Todos os moradores foram ouvidos pelas assistentes sociais e encaminhados ao plantão social.

No final da tarde, Perla Samantha Celli, assistente social que acompanhou o grupo, informou que a família de Almeida havia aceitado a proposta de alugar uma das casas da Sociedade Beneficente Cristã (Paiva). Os outros sem-teto retornaram para as suas famílias. “Eles preferiram voltar para as famílias e decidiram participar dos programas da prefeitura”, esclarece. O primeiro aluguel da casa também foi pago pelo proprietário do prédio desocupado, conforme explica Clérigo. “Isso é previsto judicialmente e foi prontamente atendido por ele”, conta.

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Vida em família

Moravam no barracão do Jardim Contorno desocupado ontem pela Polícia Militar oito pessoas: cinco homens e três mulheres - duas delas grávidas. O prédio foi dividido em dois ambientes para melhor acomodar o grupo. A família de Lucimara Almeida, líder do grupo, ocupava o fundo do imóvel com o companheiro, mais o filho e a nora.

De acordo com a Polícia Militar, Lucimara tem um filho na Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem) e dois presos. Uma outra filha morreu no início do ano, atropelada ao atravessar a rodovia Marechal Rondon, que fica ao lado do prédio.

O barracão era escuro e mal cuidado. Panelas com restos de comida, se empilhavam no quintal, onde havia um tanque improvisado e restos de sucata, material que, segundo Lucimara contou, era recolhido para vender.

Circulavam pelos cômodos os gatos e cachorros de estimação dos moradores. E para complementar a renda e a refeição do grupo, galinhas eram criadas no quintal. “Criei com tanto custo e agora não quero deixá-las para trás”, lamentava-se a moradora. O grupo levou todos os animais de estimação.