09 de julho de 2026
Nacional

Buratti diz que Palocci sabia de tudo

Por Silvio Navarro e Luciana Constantino | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Brasília - Em seu quarto depoimento no Congresso, o advogado Rogério Buratti reafirmou ontem à CPI dos Bingos ter sido consultado sobre “mecanismos” para trazer US$ 3 milhões de Cuba ao Brasil a pedido do ministro da Fazenda Antônio Palocci. Segundo o advogado, o dinheiro seria usado para pagamento da campanha que elegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Ele disse também que o ministro tinha conhecimento da doação de R$ 1 milhão que donos de casa de bingo teria feito para a campanha do PT à Presidência. Afirmou, entretanto, não saber se o dinheiro “foi por fora ou por dentro”, fazendo referência a caixa dois.

Antes de ouvir o advogado, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) chegou a sugerir a retirada de um requerimento de convocação de Palocci, mas os senadores da CPI decidiram esperar a ida do ministro à Comissão de Assuntos Econômicos, no dia 22, para depois votar ou não o pedido. Para o senador José Jorge (PFL-PE), o ministro deve explicações. “Tentamos sempre preservar o ministro Palocci para que a crise política não afetasse a economia, mas as acusações estão se acumulando. O que tínhamos de preservar, já preservamos.”

No depoimento, Buratti disse não ter sido uma “testemunha ocular” do suposto envio dos dólares cubanos, mas relatou ter sido consultado por Ralf Barquete, ex-secretário de Palocci durante sua gestão na Prefeitura de Ribeirão Preto (SP), sobre “mecanismos para trazer recursos do Exterior para o Brasil”. Barquete morreu de câncer em 2004. “Fui consultado, em 2002, pelo Ralf Barquete, dizendo ser a pedido do então prefeito Palocci, se eu conhecia algum mecanismo, alguma forma de trazer recursos do exterior para o Brasil. Esses recursos, pelo que me foi informado na época, seriam advindos de Cuba”, disse. “Textualmente, fui consultado pelo senhor Ralf Barquete, dizendo ser a pedido do ministro”, completou.

Buratti disse ter respondido à “consulta” de Barquete com duas alternativas: ou ele internava o dinheiro por meio do Banco Central ou por meio de doleiros. A consulta, conforme relato de Buratti, teria ocorrido em maio ou junho de 2002. Na seqüência, ele disse “ter tido contato novamente com o assunto” em setembro do mesmo ano, quando Barquete teria contado a ele, sem detalhar a operação, “que aqueles recursos tinham chegado”. “Eu entendi, pela informação que o Ralf me passou, que o desfecho teria sido o aporte dos recursos no Brasil, na campanha do presidente Lula. Agora de que forma teria sido e qual o montante preciso não tive essa informação”, afirmou.

O depoimento de Buratti, que foi secretário de Governo de Palocci em sua primeira gestão em Ribeirão Preto, marcou a entrada da CPI dos Bingos no “caso Cuba”, revelado pela revista “Veja”. Segundo a revista, Buratti e Vladimir Poleto, outro ex-assessor de Palocci ouvido ontem pela comissão, teriam relatado a operação do transporte do dinheiro de Brasília a Campinas (SP) em caixas de bebida. Buratti - que foi chamado ironicamente de “deputado” e sub-relator adjunto” pelos seguidos depoimentos prestados na CPI -também voltou a envolver Palocci em um suposto caixa dois do PT com dinheiro oriundo de casas de bingo.

Ele afirmou que o o dinheiro acabou nas mãos do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e, além de Palocci, sugeriu que o deputado José Dirceu (PT-SP) e o presidente Lula também sabiam do esquema. “Acredito que sim (que Lula e Dirceu sabiam), em virtude do montante”, disse. Durante o depoimento, o senador Romeu Tuma (PFL-SP) fez uma intervenção questionando Buratti se ele sabia de um esquema inverso, ou seja, do envio de dinheiro “para ser guardado” por Cuba.

Segundo o pefelista, um grupo de senadores recebeu informações que o PT teria armazenado dinheiro arrecadado de propina em prefeituras em Cuba para ser devolvido ao Brasil às vésperas de campanhas. Ainda sobre o “caso Cuba”, Buratti afirmou ter revelado informações para rebater um questionamento da reportagem sobre sua participação “efetiva” na suposta “operacionalização” do dinheiro. Ele disse também ter ouvido a história de Poleto, mas que o colega não confirmou se tratar de dinheiro o conteúdo das caixas de bebida. “Ouvi do Vladimir (a história), muito tempo depois. Aquele conjunto de detalhes relatado por ele não conhecia antes de ler a revista. Sabia apenas da viagem e das caixas, e ele nunca me disse que havia dinheiro nas caixas”, afirmou.