08 de julho de 2026
Ser

Alimentando a felicidade

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

“Sou um baiano que vive pregando o bem-estar e a felicidade.” É de forma simples que Orlando Joaquim Baianinho de Oliveira, o Baianinho, 37 anos, descreve sua trajetória de vida. Professor de capoeira há quase duas décadas, ele tornou-se uma figura conhecida em Bauru e região não apenas pela sua dedicação à arte marcial brasileira, mas também pela alegria e humildade em aprender e trocar conhecimentos com as pessoas.

Nascido na pequena cidade de Caturama, Bahia, Baianinho conta que um de seus grandes sonhos era ter contato com os paulistas, os quais eram tidos como sábios por ele e sua família. “Meu pai chamava de sábio quem sabia ler e escrever”, conta, sem perceber que sua trajetória de vida também é baseada em muita sabedoria.

A começar pelo fato de saber tirar proveito de todas as experiências, boas ou ruins, e encontrar soluções nas situações difíceis. Entre elas, encontrar alternativas para driblar o preconceito regional e escapar da seca nordestina e sobreviver em São Paulo, Estado no qual nasceu sua filha Luana, 13 anos.

Atualmente trabalhando como professor de capoeira em escolas de ensino infantil e fundamental da cidade, Baianinho, que já realizou diversos cursos e trabalhos voluntários, evita falar de si mesmo.

Modéstia à parte, a história desse nordestino - que se assemelha à história de muitos outros migrantes - é exemplo de garra e dedicação.

Jornal da Cidade - Por que decidiu se mudar para São Paulo?

Baianinho - Eu saí devido à sequidão, como falamos no Nordeste. Quando saí, a seca judiava muito das pessoas. Por mais que se veja o problema transcrito nos jornais ou em revistas, a história vivida é muito diferente do que a contada. Na verdade eu não saí, fui arrancado de casa pela sequidão. Ela propôs um deserto entre a força da natureza e a qualidade de vida.

JC - O que é qualidade de vida para você?

Baianinho - Qualidade de vida não se resume em só comer bem ou ter uma boa educação. É não ser chamado apenas pelo nome e sobrenome; é não ter que perguntar ao um amigo se ele é realmente seu amigo; é não precisar brigar contra o relógio. Ela vai além da alimentação.

JC - Por quê?

Baianinho - A alimentação está ligada à fome. Quem come mal diz que passa fome, mas eu não vejo assim. Comer mal é uma coisa e passar fome é outra. A pessoa que passa fome é o sujeito esqueleto: seu organismo se acostuma a comer apenas de dois em dois dias ou mais. Além disso, há outros problemas, como a questão da água: a mesma água que se usa para lavar o rosto é usada para lavar roupa, por exemplo.

JC - Você viveu tudo isso?

Baianinho - Eu nasci no prejuízo. Quando mais precisei, meu município e meu Estado não estavam presentes e o governo não tinha olhos para aquelas bandas, como dizemos no Nordeste. A história do nordestino é parecida: ele nasce como um filho de codorna, já sai do ovo andando (risos). É a história do “se vire”. Mas tudo isso eu conto fazendo referência à minha época. Falo sobre fatos, mostrando a realidade e a verdade. Às vezes as pessoas podem vomitar de nojo ou por preconceito regional, que é o mais detonante na vida de um indivíduo. Eu não discuto preconceito racial, mas o preconceito regional não deixa de questionar e julgar sobre quem a pessoa é, de onde ela veio e o que ela faz.

JC - Esse preconceito, infelizmente, ainda faz parte da história da migração nordestina?

Baianinho - Me incomoda um pouco generalizar porque até hoje não conheci um nordestino que veio do Interior, a maioria veio das grandes cidades, como Salvador. Graças a Deus, eu nasci uma pessoa consciente. Aos 7 anos, quando vi a decadência da minha cidade, pensava: “Alguém tem que sair daqui para pelo menos contar a história.”. É impossível acabar tudo ali. A pessoa não pode nascer e ter uma vida como aquela. A maioria dos meus amigos saíram do Nordeste e nunca mais voltaram. Não sei se eles estão vivos ou mortos. É como sair do Brasil para trabalhar no Iraque. Assim eu descrevo a história da minha comunidade e de outras comunidades nordestinas.

JC - De onde vem tanta humildade para falar sobre sua trajetória?

Baianinho - Acho que vem da minha qualidade de vida. Às vezes as pessoas me perguntam porque eu conto minha história sorrindo. Eu nasci chorando e vou ficar chorando até quando? Choradeira não é comigo devido à minha educação. Meu pai é deficiente físico. Ele não tinha uma mão e criou dez filhos, juntamente com minha mãe. É uma história muito linda. Quando eu fazia alguma coisa errada, meu pai dizia: “Quando eu estiver falando com você, olhe para mim. Olhando em mim, terá duas chances: uma é escutar o tom da palavra e a outra é a leitura do olhar. Se você não entender de um jeito, entende de outro”. E a criança quase não dá ouvidos para palavras técnicas; por isso descobri que é preciso ser mais prático. Através da minha educação, aprendi que as pessoas têm uma leitura muito grande no olhar. Além disso, quando meu pai dava bronca ou algumas palmadas, dizia que não era para chorar. Ele me corrigia e explicava porquê eu estava apanhando. E eu cresci querendo saber o porquê e para que das coisas.

JC - Você é detalhista?

Baianinho - Sim, sou detalhista e sistemático, a exemplo do meu pai. Mas não deixo isso aparecer.

JC – É uma forma de auto-defesa?

Baianinho – Hoje não choro para falar da minha vida porque ela é muito legal. Não reclamo do meu pai mandando eu engolir o choro quando eu levava bronca. Ele dizia para transformar o choro em solução, afirmava que eu não podia me desculpar toda hora dos erros que cometi. Meu pai era muito sistemático. Tive uma educação caseira, de excelente nível, fui alfabetizado pelo meu pai e pela minha mãe, que também me ensinaram a praticar cidadania e respeitar o próximo.

JC - Essas características o ajudaram a enfrentar uma nova vida em São Paulo?

Baianinho – Sim. Eu resolvi sair para a batalha em outro Estado. Estava preparado para ter contato com outras pessoas.

JC – Por que escolheu Bauru para morar?

Baianinho - Eu morei em várias cidades, todas no Interior. Fiquei em São Paulo e não gostei. Não queria aquela multidão perto de mim porque sentia que faltava espaço em metro quadrado. Tenho como base o ditado folclórico: “ter o pé no chão”, e na Capital sentia que não havia chão para eu pisar, lá era tudo construído e reconstruído. Senti que não haveria espaço para mim porque vim para construir. Aí me mudei para o Interior.

JC - O que você buscava construir?

Baianinho - A princípio, como é do ego humano, queria conseguir carro, casa, amigos, pele bem cuidada, enfim, tudo o que o paulista pudesse desfrutar. Era coisa de adolescente, porque eu tinha 15 anos. Mas também vim louco para conhecer aquela sabedoria que nós tanto admiramos nos paulistas. Hoje eu tenho o maior prazer de participar de palestras e eventos porque os paulistas reproduzem os conhecimentos com de forma muita clara e ligeira. Eu e minha família sempre tivemos uma grande admiração pelo paulista e pelos sábios, como meu pai chamava quem sabia ler e escrever. E eu tinha uma grande vontade de estudar e conhecer as escolas paulistas. Aí pedi para um amigo me levar para conhecer uma sala de aula.

JC - Como foi essa experiência?

Baianinho – O maior arrependimento da minha vida foi pronunciar meu nome dentro da sala de aula. Na época, o turismo não era muito divulgado e quando a professora perguntou meu nome, eu disse que me chamava Orlando. A classe inteira riu, inclusive a professora. Eu não entendia o que estava acontecendo. Hoje eu entendo, mas naquele dia fui embora andando com passos curtos e lentos para não chegar logo em casa. Eu morava sozinho e não queria ficar pensando no que aconteceu. Resolvi prolongar a volta para casa para encontrar alternativas. E aí transformei esse lado de desavença em conhecimento. Sei que os azares que tive na minha vida são importantes e hoje conto dando risada porque já passei. Agora o teste fica por quem vai passar e se também vão continuar caminhando.

JC - Como a capoeira surgiu na sua vida?

Baianinho - Procurei alguma coisa que pudesse aprender com facilidade, não interessava o quê. Como já tinha uma ligação com a capoeira, resolvi treinar. Entrei na academia de capoeira e comecei a treinar sem parar, incessantemente. E minhas idéias sempre foram essas: às vezes algumas pessoas questionam, falam que eu sou chato e detalhista, mas aprendi, desenvolvi a capoeira e fui direto dar aula.

JC – Foi fácil encontrar espaço no mercado de trabalho?

Baianinho - Começei a dar aulas numa pequena academia, depois alguns alunos viram e acharam a atividade interessante. A partir daí fui para as faculdades ensinar capoeira, porque desde pequeno eu já estava de olho na questão do ensino. Me senti muito feliz dentro da universidade. Quando passei do portão me senti junto com os sábios, mas depois percebi que os alunos não tinham conhecimento do trabalho que eu fazia.

JC – É uma troca de experiências. Como você avalia isso?

Baianinho - É um contraste de idéias, jeitos e conhecimentos. Lembro que em algumas faculdades onde eu ia dar cursos de capoeira, alguns alunos diziam que eu era um educador. E fico muito feliz porque depois que eles se formavam e pegavam o diploma, sabia que tinha tido participação na formação de uma pessoa. Com o passar do tempo, porém, descobri que aqueles universitários já tinham formação, eles só estavam se completando. A partir daí resolvi trabalhar com as crianças, voluntariamente.

JC - Você se tornou uma figura conhecida em Bauru. Como lida com a popularidade?

Baianinho - Evito falar da minha vida. Ajo somente com a fé e ela traz a verdade. A verdade vai da fé que estou depositando na minha palavra. Não sou capaz de descrever o que já realizei porque tudo o que fiz com fé nas pessoas. Dou aulas em algumas escolas e quando alguns diretores dizem que sou educador, digo que só sei dar pernadas (risos). Não tenho essa formação, sou um baiano que vive pregando o bem-estar e a felicidade.

JC - A alegria é sua marca registrada?

Baianinho - Dou palestras de vivência prática e as pessoas me acham engraçado. Mas prometo e juro que não sou engraçado. Apenas acredito que a felicidade mora onde ela tem que morar. Não é preciso buscar, criar e alimentá-la.