08 de julho de 2026
Articulistas

O boimate


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A maior “barriga” já cometida por um órgão da grande imprensa brasileira aconteceu em 1983, com a revista Veja. Antes de continuar explico que “barriga”, na gíria jornalística, é o mesmo que gafe, fora, mancada. Originou-se em uma pequena nota publicada pela revista que repercutiu no país inteiro. Tratava-se da descoberta do “boimate”, uma fusão de células animais e vegetais. Cientistas teriam fundido células de boi com as de tomate, segundo a revista inglesa New Science.

O fenômeno era assim explicado: “A experiência de pesquisadores alemães permite sonhar com um tomate no qual já se colha algo parecido com um filé ao molho de tomate. E abre uma nova fronteira científica”. Cartas e telefonemas choveram na redação. Provinham de criacionistas indignados que diziam que o que Deus criou o homem não deve se atrever a modificar e de evolucionistas darwinianos festivos que acreditam na formação de novas espécies por um processo de seleção natural.

Um leitor escreveu no Jornal da Tarde uma carta de protesto contra a violação do que foi criado por Deus: “Do alto dos meus 76 anos, não posso ficar calado ante tal afronta das leis divinas. Boi nasceu para pastar, para puxar os saudosos carros do interior e para nos oferecer a sua saborosa carne. E tomate, além das notórias qualidades que se lhe imputam na cozinha, serve também para ser arremessado à cabeça de quem perpetua tal monstruosidade e, também, nos que dão guarida e incentivam tais descobertas”.

No número seguinte a revista New Science, uma das mais prestigiadas do mundo científico, desmentiu a informação e esclareceu que se tratava de uma brincadeira de primeiro de abril. O editor de Internacional da Veja não notou que a data da publicação de revista inglesa anunciava o “1º de abril, Dia Mundial da Mentira”. Outra dica: o nome do cientista chefe da equipe descobridora do boimate era Muffy Pumpins, o “Pimpão”, famoso personagem de história em quadrinhos que tinha um apetite voraz por hambúrgueres. Coitado do jornalista, perdeu o emprego por essa falta de perspicácia e a Veja foi alvo de gozações da mídia do Brasil inteiro e também do exterior. Editores aproveitaram o fora, no qual qualquer um teria caído, para se vingar do sucesso da publicação semanal, hoje com 1 milhão e 100 mil exemplares de tiragem. É a maior do mundo em número de assinantes.

Por ironia, Veja foi profética. Acertou sem querer, embora com muita antecedência. A palavra “transgênico” tinha acabado de ser criada em 1982, e pertencia ao jargão somente de uma minoria de iniciados. Entretanto, a primeira planta transgênica só foi nascer um ano depois da publicação da notícia do boimate. A transgênese é uma biotecnologia aplicável em animais e vegetais que consiste em adicionar um gen, de origem animal ou vegetal, ao genoma que se quer modificar. Denomina-se transgene o gen adicional. O transgene passa a integrar o genoma hospedeiro e o novo caráter dado por ele é transmitido à descendência.

Agora, é comum falar em soja transgênica embora pouca gente saiba o que quer dizer. Talvez a notícia do boimate, se republicada hoje, deixasse de estimular as mesmas farfalhantes gargalhadas nos coleguinhas de imprensa e nos leitores. Claro que riram só depois que souberam tratar-se de um “1º de Abril”. O boimate hoje seria possível, pelo menos teoricamente. Os cientistas já fizeram nascer dente e orelhas humanas nos costados de ratos. É possível, por outro lado, que a natureza cobre o seu preço. A doença da vaca louca começou depois que criadores ingleses começaram a ministrar rações ao gado onde se misturavam farelos vegetais com restos triturados de carcaças de ovelhas. Esqueceram que o boi e a vaca são vegetarianos. A praga que dizima os rebanhos na Europa e países de outros continentes teria nascido desse pecado.

Num futuro não muito distante é possível que nasçam dependurados filés ao molho de tomates. Só queria ver a cara do Tilo Mondelli quando isso acontecer.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.