10 de julho de 2026
Política

Para deputado, CPI perdeu o foco

Por Adilson Camargo | Colaborou Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

O deputado federal Vicente Paulo da Silva (PT) acha que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura uso de dinheiro do jogo do bicho para campanha petista está desvirtuada e poderá ser considerada inconstitucional.

“Qual foi o dono de bingo que já foi lá (na CPI) até hoje?”, questiona. “Foi discutido o caso Celso Daniel, o caso Toninho, mas nada de bingo. Isso é muito questionável. Uma coisa não tem nada a ver com a outra”, afirma o parlamentar em referência às discussões sobre as mortes dos prefeitos Celso Daniel, de Santo André, em janeiro de 2002, e de Antônio Costa dos Santos, o Toninho do PT, de Campinas, em setembro de 2001.

“Logo, logo, podemos entrar com uma ação no Supremo (Supremo Tribunal Federal) para suspender a CPI”, revela Vicentinho, como o parlamentar é mais conhecido.

Segundo ele, se os deputados querem debater a morte dos prefeitos petistas, que se instaure então outras CPIs para esse fim. “Ela (CPI) tem de ter um tema definido”, declara.

As declarações foram feitas pelo deputado anteontem ao JC, às vésperas de sua visita a Bauru, onde iria se encontrar com petistas locais no Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil e com o prefeito Tuga Angerami (PDT). Hoje, está previsto um encontro de Vicentinho com um grupo de sem-terra no Horto Florestal de Aimorés. O deputado deverá almoçar no local.

Na avaliação do parlamentar, está havendo um abuso no trabalho das CPIs. Além da que investiga o dinheiro dos bingos em campanhas, tem também a dos Correios e a do Mensalão.

Ele falou mais especificamente da votação, na última semana, para cassar o mandato do deputado Sandro Mabel (PL), suspeito de ter sido um dos beneficiados com dinheiro do mensalão. “O Sandro Mabel não teve provas contra ele. Mesmo assim, mais de 100 deputados votaram pela cassação”, criticou Vicentinho.

Na última quarta-feira, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou por 340 votos a favor e 108 contrários o parecer do Conselho de Ética da Casa que pediu o arquivamento do pedido de cassação de Mabel por falta de provas.

“Precisa haver um equilíbrio na Câmara. Não pode perdurar a insanidade.” O deputado disse que defende a tese de que os culpados, “seja lá quem for”, têm de ser punidos. “Agora, se tiver inocente tem de inocentar.”

Folclore

Sobre a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, feita na última segunda-feira no programa Roda Viva, da TV Cultura, de que a denúncia de mensalão é apenas um folclore, Vicentinho discordou.

“Esse negócio de caixa dois (para pagar parlamentares) é lamentável, mas é verdade. Isso não significa que nós (do PT) concordamos.” De acordo com o deputado, essa prática não ocorre apenas no meio político, mas existe também “no comércio, na indústria”. “É rara uma empresa que não usa caixa dois, a não ser que seja uma empresa muito grande que sempre está sendo fiscalizada”, acredita.

Vicentinho acha que Lula não conseguiu se fazer entender tanto na entrevista concedida à TV Cultura quanto em Paris, onde disse que a prática do caixa dois fazia parte dos costumes políticos. “Quando ele deu aquela declaração na França, ele apenas disse que isso ocorre. Mas muita gente pensou que ele estava concordando”, tenta explicar o deputado petista. Na opinião de Vicentinho, a prática do caixa dois só vai acabar nas eleições quando for proibida a utilização de “dinheiro privado” nas campanhas.

O deputado fez críticas também à quantidade de emendas que cada parlamentar tem direito a apresentar no Orçamento. Mesmo após o aumento no valor da verba que cada deputado tem direito, Vicentinho acha que 20 emendas é muito pouco. “Eu, que tive votos em 531 municípios, imagina deixar 511 sem ser atendidos”, argumenta.