Maus-tratos e violência doméstica são as principais causas do desaparecimento de crianças e adolescentes. Esta é a conclusão de uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) através do projeto Caminho de Volta.
A pesquisa, intitulada “Estudo causal sobre o desaparecimento infanto-juvenil”, comparou o ambiente de 170 famílias que tiveram crianças e adolescentes desaparecidos com 200 famílias que não vivenciaram episódios de desaparecimento, mas moravam na mesma rua e possuíam filhos na mesma faixa etária dos desaparecidos.
De acordo com a coordenadora do Caminho de Volta, professora doutora Gilka Jorge Fígaro Gattás, para o projeto era importante compreender quais os motivos que levam crianças e adolescentes a desaparecer. “Muitos alegam que as causas para o desaparecimento são as condições socioeconômicas, por isso era preciso verificar famílias com construção familiar semelhante, com filhos na mesma idade, mas em que uma criança desaparece e outra não. Agora temos parâmetros para analisar a fundo as causas”, explica.
A pesquisa concluiu que em 53% dos casos de desaparecimento a criança vivia com sua família “nuclear” (pai e mãe que moram juntos), enquanto nas famílias sem desaparecidos, o índice de pais que residem sob o mesmo teto é de 72%. Ou seja, há menos desaparecimentos nas famílias que não se desintegram.
“O desaparecimento infanto-juvenil é o sintoma de uma doença que tem como pano de fundo a organização familiar”, afirma o professor doutor da Faculdade de Medicina da USP, Eduardo Massad.
Outra conclusão que aponta possíveis causas para o desaparecimento de crianças e adolescentes é o índice de maus-tratos sofridos no ambiente familiar. No caso das famílias com desaparecidos, 39% das crianças já haviam se queixado de violência antes de sumirem. Já nas famílias sem desaparecimentos, esse índice cai para 7,5%.
“A criança muitas vezes verbaliza seu problema para um amigo ou parente em quem confia. Ela pede por socorro. Mas se não é atendida, é provável que ela encontre na fuga uma forma de escape”, explica Adriana Selix Providello, psicóloga do Centro Regional de Registro e Atenção aos Maus-tratos à Infância (Crami).
Apesar de muitos desaparecidos pedirem por socorro, a maioria deles demonstra claramente em suas atitudes a violência a que estão sendo submetidos. É o que aponta outro aspecto da pesquisa. Em 39% das famílias com desaparecidos, a criança já apresentava distúrbio de conduta. Nas famílias sem desaparecimento, o índice é de apenas 4,5%. “Se uma criança bate em outra, ela está muitas vezes reproduzindo o comportamento e a atitude que os pais têm em relação a ela”, ressalta a psicóloga do Crami.
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Caminho de volta
O caso do menino Josiel Dias Cardoso, desaparecido no dia 23 de fevereiro de 2003, está sendo analisado pelo projeto Caminho de Volta. A criança estava com 2 anos na época do incidente. Ele foi visto pela última vez por volta das 13h no distrito de Brasília Paulista, município de Piratininga. Josiel morava em Bauru, mas estava com os pais, a passeio, na casa do avô paterno.
Ele desapareceu logo após o almoço e nunca mais foi encontrado. O mais intrigante da história é que o fato aconteceu num curto espaço de tempo e ninguém viu absolutamente nada. A polícia investigou várias frentes, inclusive com a ajuda de bombeiros e pessoal do Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Bauru e não encontrou nem vestígios do menino.
No dia do desaparecimento, no distrito de Brasília Paulista havia um torneio de futebol que reuniu 15 equipes de diferentes localidades da região, o que aumentou a pequena população estimada em 150 habitantes.