08 de julho de 2026
Ser

Lendo o mundo

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 10 min

Amanhã, o País comemora o Dia Nacional da Alfabetização. Embora seja preciso subir alguns degraus para alcançar o modelo ideal de ensino, dezenas de municípios brasileiros têm motivos de sobra para se orgulhar da data. É o caso de Bauru, que conta com um programa para atrair jovens e adultos de volta aos bancos escolares.

Desenvolvido pelo Centro Educacional de Jovens e Adultos (Ceja), órgão vinculado à Secretaria Municipal de Educação e supervisionado pela Direção Regional de Ensino, a iniciativa visa alfabetizar pessoas acima de 13 anos.

Atualmente, o projeto engloba 57 classes em 48 bairros, mas a expectativa é que esse número aumente a cada semestre, diz a professora e coordenadora do Ceja, Adriana Regina Antunes Tavares, 39 anos, casada e mãe de dois filhos, de 4 e 12 anos.

Formada em pedagogia e educação artística, Tavares acumula 20 anos de experiência na área, tempo suficiente para “continuar sempre aprendendo”, como diz em entrevista ao Jornal da Cidade.

“O ser humano é inacabado e o conhecimento está sempre sendo produzido. Enquanto nós estivermos vivos, estamos trabalhando e aprendendo”, afirma a professora. Segundo ela, mais do que ensinar a ler e a escrever, o docente deve ouvir e questionar a realidade na qual o adulto está inserido, estimulando o diálogo.

“É preciso trabalhar com elementos que vão ao encontro de seus interesse. Por isso trabalhamos com aquilo que é necessário e faz parte da vida dos adultos”, diz Adriana Tavares.

E a realidade da maioria dos estudantes do Ceja é formada por muitas dificuldades financeiras, problemas de saúde e desemprego, fatos que não diminuem sua dedicação aos estudos. Durante a conversa, Tavares se emocionou ao falar sobre a força de vontade dos alunos, uma das principais fontes de motivação e aprendizado.

Jornal da Cidade - Qual é o perfil dos adultos que estão se alfabetizando?

Adriana Regina Antunes Tavares - Aceitamos alunos a partir dos 13 anos. No início do projeto tínhamos mais idosos. Hoje temos mais jovens e adultos. O número de homens e mulheres é equilibrado. Em geral, os alunos ganham de um a três salários mínimos e alguns estão desempregados. Muitos não têm nem o que comer e estão na escola. Nós vemos as dificuldades do dia-a-dia e também a grande perseverança deles. Nossa população é essa.

JC - Como é o processo de alfabetização desenvolvido pelo Ceja?

Adriana - Na educação de jovens e adultos o mais é complicado é que cada adulto chega para a escola trazendo uma experiência de casa. Por exemplo, uns sabem ler e não sabem escrever. O processo de aprendizagem ocorre normalmente, só que os alunos vêm com a estima muito baixa. Dessa forma, antes do trabalho de alfabetização, precisamos motivar esses estudantes, que vêm carregados de um sentimento de fracasso porque ou foram expulsos do sistema escolar regular ou não tiveram oportunidade de estudar. Além disso, o adulto vem para a escola com os problemas da vida diária, como aluguel, doença e desemprego. Precisamos estimulá-los a se sentirem capaz de aprender, porque eles acham que somente as crianças aprendem. Tem uma mulher, por exemplo, que veio para escola com a mentalidade baseada numa frase que o marido dizia para ela: “burro velho não pega marcha”. Quando ela estava começando a ler, lembrou e disse a frase “burro velho não pega marcha”; no mesmo instante ela parou. Por isso, o professor tem que incentivar. No caso dessa aluna, ao final do curso, ela mostrou para o marido que “burro velho pega marcha, sim”.

JC - Quais são as principais dificuldades daqueles que não sabem ler nem escrever?

Adriana - A questão da leitura e compreensão de textos é a parte mais difícil porque para escrever alguns acabam copiando, embora não saibam o que estão escrevendo.

JC - Ensinar para adultos exige técnicas diferenciadas?

Adriana :- Seguimos as idéias de Paulo Freire, no qual diálogo é fundamental: ouvir e questionar a realidade é um processo que vai além dos conteúdos básicos de ensinar a ler e a calcular. Nós queremos que os alunos leiam o mundo e a realidade em que estão inseridos. O diálogo é a base de tudo. A valorização que o aluno traz e a troca de experiências são baseadas no método Paulo Freire porque para adultos não funcionaria outra forma de ensino. É preciso trabalhar com elementos que vão ao encontro de seus interesses. Não dá para falarmos de alguma coisa que é totalmente desvinculada de suas realidades. Por isso trabalhamos aquilo que é necessário, interessa e faz parte da vida dos adultos.

JC - Além de contextualizar o universo com o aprendizado do adulto, existem outras formas de ensino utilizadas em sala de aula?

Adriana - Nosso método é eclético. Para alfabetizar os professores precisamos utilizar aquilo que é bom de cada método, porque, às vezes, se uma técnica não funciona, o docente deve tentar outra. Os professores têm que diversificar as atividades porque pode ser que elas dêem resultado com um aluno e com outro não. As técnicas variam conforme as necessidades do estudante, mas a linha básica é seguir as idéias de Paulo Freire. Segundo ele, a realidade não é neutra e precisamos saber da questão das lutas de classes, dos interesses antagônicos, valorizar o diálogo e a experiência que o aluno traz, porque o professor não apenas ensina, ele também aprende. É uma troca de saberes: na sala de aula estão todos aprendendo. Além disso, temos um conteúdo curricular mínimo, que é baseado nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que é o básico de primeira a quarta série.

JC - Quantas classes do Ceja existem? A procura é grande?

Adriana - Temos 57 salas em 48 bairros de Bauru. As matrículas estão abertas até o início de dezembro. A procura varia conforme a necessidade do mercado de trabalho. Quando a empresa começa a pressionar, dizendo que vai haver demissão se não houver escolaridade, aí eles nos procuram. Algumas empresas ou instituições nos procuram dizendo que existe um grupo de adultos, por exemplo, e que eles precisam montar uma classe. Fora isso, a procura não é muito grande, os professores vão de casa em casa em diversos bairros da cidade para fazer matrículas. Mas ainda é difícil por conta do preconceito que os adultos têm de achar que não conseguem aprender.

JC - Além de ganhar qualificação no mercado de trabalho, quais são os outros benefícios que a alfabetização proporciona a esse público?

Adriana - Acho que o maior benefício é a realização do sonho de cada um. Há alunos que são evangélicos e vêm com o objetivo de ler a Bíblia, outros porque sonharam a vida inteira em saber ler e escrever. Além de realizar seus sonhos, a grande conquista do adulto é provar sua capacidade; o fato de ele não saber ler e escrever foi por falta de oportunidade e não por incompetência dele. Há um exemplo de uma senhora que estudou no Ceja e agora está na universidade. Ela era uma pessoa que passou a vida inteira sem estudar e de repente conseguiu, em uma certa altura da vida, provar que é capaz. Por conta da idade, profissionalmente o diploma pode não servir para nada, mas a realização pessoal é o que mais importa para ela. E como essa senhora, há vários alunos. Me recordo de uma aluna que foi bem classificada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e veio nos contar. A realização deles enquanto cidadãos é a maior conquista.

JC - De que forma a senhora avalia o cenário educacional da cidade e região?

Adriana - Nós temos participado de vários cursos e programas de formação continuada para professores. Isso tem melhorado a qualificação dos professores e resulta em sala de aula. Até o momento, nós fazemos o que é possível, mas estamos buscando novos caminhos porque sabemos que o conhecimento não pára de evoluir. Ele é dinâmico, e por esse motivo não perdemos a oportunidade de trazer novos cursos para os professores. Aprimoramos constantemente o trabalho para melhorar a aprendizagem.

JC - Existe evasão escolar entre jovens e adultos?

Adriana - Sim. Há evasão por conta das próprias dificuldades dos alunos. Tem alguns que acabam desistindo porque estão internados devido a problemas de saúde; outros mudam o turno do serviço e precisam parar de freqüentar as aulas; há casos em que o marido adoece e a aluna deixa de ir à escola para cuidar dele; e alguns mudam para outras cidades em busca de emprego.

JC - Como combatê-la?

Adriana - É complicado. Na questão da aprendizagem tentamos trabalhar a formação continuada de professores, mas em se tratando da questão social, o assunto é complicado. É uma luta desigual entre sobreviver e ir para a escola. Criamos alternativas, como o sorteio de cestas básicas para quem não faltou o mês inteiro, porque muitos têm dificuldades financeiras. Sorteamos as cestas por setor de coordenação. Em visita às salas nesse período, eu, particularmente, vi fatos que me chocaram: para estar concorrendo à cesta, mesmo doente, um aluno não faltava e outro, que tinha levado uma facada nas costas, estava na escola. É uma realidade muito difícil.

JC - Em 20 anos de trabalho com adultos, que histórias ocorridas em sala de aula a senhora destaca como marcantes?

Tavares – Existem várias. Teve uma professora que estava trabalhando história das cidades e quando ela falou sobre a região nordeste, descobriu uma aluna que havia sido cangaceira na época de Lampião. A troca de experiências que eles trazem numa classe mista, em especial quando os professores trabalham o tema regiões, é uma das coisas mais ricas, porque existem pessoas de todos os Estados e elas acabam trocando costumes, alimentação e culturas diferentes. Não é somente o que o livro traz, mas a troca de experiência da realidade vivida é muito interessante. Há ainda outro fato marcante: temos muitos adultos com sérios problemas oftalmológicos. Um dia eu cheguei para fazer supervisão numa classe na qual estudava um aluno que usava óculos com lentes muito grossas, acredito que ele tinha miopia em estágio avançado. Quando eu o vi, ele estava sem o óculos, com o caderno grudado nos olhos. Ao chegar perto, ele tirou do bolso os caquinhos do óculos que havia quebrado e me mostrou. Mesmo não enxergando, ele não perdia um dia de aula.

JC - Como é sua relação e convivência com os alunos?

Adriana - No Ceja eu e a Marilene da Costa revezamos setores de coordenação e toda semana fazemos supervisão nos bairros. Nós passamos no mínimo uma ou duas vezes por classe. A educação de adultos é diferente porque eles querem estar lá, não é como a criança, que às vezes é obrigada pelos pais a ir para a escola. Então nós nos tornamos uma grande família e cada vez que vamos fazer supervisão é uma festa. Quando, por algum problema administrativo eu não vou, os alunos reclamam que eu sumi. Eles cobram minha presença porque querem mostrar o que fizeram e o que estão conseguindo fazer. Isso é muito gratificante, porque acompanho o esforço dos estudantes. O resultado alcançado incentiva meu trabalho.

JC - Durante a entrevista, a senhora se emocionou ao falar sobre a perseverança dos alunos em freqüentar às aulas. Lecionar sempre foi sua paixão?

Adriana - Não sei, mas acho que ao lecionar estamos fazendo alguma coisa por alguém, não estamos fazendo em benefício próprio. Trabalhando com adultos aprendemos a valorizar as coisas da vida porque a perseverança, o esforço e as dificuldades que eles enfrentan são muitas. Vendo tudo que eles passam acabamos aprendemos muito, tanto com o exemplo de vida quanto pelo amor que eles têm pelos professores e por tudo que diz respeito ao Ceja. No desfile de 7 de Setembro eles vão, participam e desfilam, é um momento de honra. O dia-a-dia é muito difícil e eles quase não têm lazer. Na escola, além de aprender, se relacionam com os outros. E eles gostam da escola e de conviver com os amigos e professores. Somos uma grande família.