“Sereno, aguardarei no meu jazigo a justiça de Deus na voz da História”. Palavras de D. Pedro II, imperador do Brasil por quase 50 anos, contra quem, nem o juízo tendencioso dos sediciosos conseguiu lançar leve nódoa, emparedados que estavam pela colossal força moral do personagem. Daqui saiu, como diz a gíria: “com mão na frente, outra atrás”, e deixou derradeira lição de honestidade - mal assimilada - ao rejeitar dotação que lhe concedia o arrependido Deodoro: o equivalente a 4,5 toneladas de ouro para que vivesse sem dificuldades financeiras seus dias de exílio. Recusou-se a aceitar a oferta afirmando que aqueles recursos eram da nação. Levou um travesseiro com terra para apoiar a imperial cabeça no derradeiro dia. Morreu dois anos depois em um modesto quarto de hotel, em Paris.
Que diferença! Que exemplo para os nossos jovens. Nos dias que correm qualquer mequetrefe com dois anos de mandato consegue meter a mão em muito mais. Manda às favas as formalidades, e o butim em algum paraíso fiscal. Sempre que surge ocasião eu gosto de contar essa passagem, talvez por emulação, para espantar qualquer complexo de inferioridade atávica.
Como bem disse o embaixador Meira Pena: “Na época do império, De Gaulle não teria tido o topete de usar a nosso respeito a expressão que notabilizou. Éramos um país sério.”
-Nosso povo não tem tradição, - afirmam alguns.
-Eu aceito a monarquia contanto que o rei seja eu, - debocham outros.
Para estes, e pelo bem do país, eu recomendo que se conservem republicanos.
Quanto à falta de tradição, argumento que foi a própria República quem se encarregou de inocular no caráter do nosso povo essa “tão nojenta feição”, como dizia Lima Barreto: “esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual, com toda a independência de espírito, nasceu-lhe depois da República”. O mesmo Lima Barreto, carioca, mulato, escritor talentoso nos deixou o roteiro das transformações que arruinaram o país: “Proclamada que foi a república, ali no campo de Sant’Ana, por três batalhões, o Brasil perdeu a vergonha e seus filhos ficaram capachos para sugar os cofres públicos, desta ou daquela forma. Uma rematada tolice que foi a tal República.”
O que dizer dos massacrados de Canudos, dos humildes camponeses do Contestado, que enfrentaram as forças da República com espadas de pau, os civis e militares assassinados na ilha de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, por ordem de Floriano Peixoto, os negros maranhenses e cariocas, como nos conta Gilberto Freire, “abatidos por tiros um tanto covardes da parte dos republicanos. Negros e ex-escravos espontâneos na dedicação ao Trono. Causa pela qual vários deles, perderam a vida de modo exemplar.”
Rui Barbosa, republicano de última hora, cedo se arrependeu : “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto. “Essa foi a obra da República nos últimos anos”. No outro regime (a Monarquia), o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre, as carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante (o imperador), de cuja severidade todos se temiam e que, acessa no alto, guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade geral”.
Mais de cem anos depois, a República ainda não conseguiu calar estas vozes. Mais de cem anos depois, a República ainda não conseguiu mostrar a que veio. Dizem alguns crédulos que em certas noites sem lua, de vez em quando se ouve lá pelas bandas do Vaza Barris, onde o rio margeava o antigo Arraial de Canudos, esta triste ladainha:
“Saiu D.Pedro II
Para o reino de Lisboa
Acabou-se a monarquia
O Brasil ficou à-toa.” (Quadra entoada no Arraial do Conselheiro pelo povo de Canudos. Do livro Os Sertões, Euclides da Cunha, ed. Francisco Alves & Cia, 6.ª edição, pág. 206.
O autor, Ciro d’Avino, é presidente do Círculo Monárquico da Região Noroeste Paulista