11 de julho de 2026
Política

Políticas públicas barrariam os atuais conflitos na França

Da Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Nem mesmo os conflitos que assolam o Sul da França nas últimas semanas conseguiram frear o projeto de viagem da bauruense Camila Manfrinato, 24 anos, estudante do curso de educação artística da Unesp (Universidade Estadual de São Saulo). Ela conhece bem a região afetada e embarcará na próxima semana em mais um período por aquelas terras, para visitar o namorado francês. Na opinião de pessoas que dividem sua história de vida entre Bauru e a França, faltam políticas públicas para integrar os imigrantes legais ao cotidiano do país, o que gerou o conflito.

O governo francês aprovou ontem um projeto de lei para prorrogar o estado de emergência, em vigor no país desde a semana passada, por mais três meses. O objetivo é frear a onda de violência urbana que teve início no dia 27 de outubro. A previsão é que a medida, que ainda depende de aprovação da Assembléia Nacional, entre em vigor a partir do dia 21 deste mês. Desde o início do tumulto já foram detidas 2.700 pessoas, queimados 8 mil veículos e um total de 38 cidades estão com toque de recolher (leia mais na página 21).

Camila conhece de perto um desses ambientes de conflito. A bauruense se hospedou em um bairro da periferia de maioria árabe e acompanhou de perto o dia-a-dia daquela população. “Pude perceber uma certa tensão entre eles. Eles se sentem perturbados com o fato de serem legítimos franceses e serem tratados como meros imigrantes”, conta a estudante.

Camila não está preocupada em viajar para a França no momento em que o país vive essa crise. “Já que eles defendem o lema ‘Igualdade, Liberdade e Fraternidade’, acho que temos o direito de ir e vir dentro daquele território. Só pelo fato daquelas pessoas não serem do país, não significa que elas devam ser punidas”, pondera.

Mas quem está diretamente em contato com a realidade dos subúrbios franceses também tem uma posição de que falta vontade política por parte do governo e um certo exagero na cobertura da mídia. “Moro a três quilômetros de onde tudo começou e nada me aconteceu”, afirma a empresária Joely Audouy, 50 anos, quatros dos quais vividos em Bauru, de 1979 a 1982, e que hoje mora e trabalha em Toulose.

Na opinião da francesa, o problema tem causa enraizada na má administração das políticas públicas do governo do país. Ela acredita que uma política de reintegração social é a melhor saída para quem mora nas áreas mais afastadas. “É como uma revolução na favela brasileira, porém, aqui na França, as pessoas tem um senso político muito bem resolvido. Tenho amigas que moram na área de conflito e estou sempre por lá. Nunca passei nenhum momento ruim desde que aconteceu o vandalismo naquela região”, explica.

Para o deputado estadual Pedro Tobias, descendente de libaneses, que mora em Bauru e formou-se médico no Sul da França, os conflitos são frutos de um racismo econômico e social. “Alguns programas de inclusão a curto e médio prazo específicos para a sociedade francesa, poderiam resolver a questão dos menos favorecidos”, diz Tobias. O deputado acredita que população mundial tenha se voltado contra a raça muçulmana, principal alvo dos recentes conflitos franceses, após os acontecimentos entre Oriente Médio e EUA.

O conflito, que já dura 19 dias, começou quando dois adolescentes, moradores da região de Clichy-sous-Bois, a noroeste de Paris, morreram eletrocutados ao se esconder dentro de um transformador de energia. Eles teriam, supostamente, sido perseguidos por policiais. Desde então, os moradores do local e dos distritos próximos começaram uma séria de manifestações contra a “perseguição” aos imigrantes, já que há predominância de comunidades árabes e africanas instaladas nos subúrbios.