Enquanto José Dirceu recorre insistentemente ao Supremo para não dizer a verdade, Anderson Adauto, prefeito de Uberaba e ex-ministro dos Transportes, abriu o bico como filhote de passarinho e soltou toda a verdade sobre o ‘caixa 2’. Corre o risco de ser cassado, como aconteceu com o Roberto Jefferson, que denunciou o ‘mensalão’, também verdade que todo mundo aceita e que os implicados fazem de tudo para esconder. Embora os dois não tenham um passado político recomendável, ambos falaram a verdade que os outros relutam em dizer para não seguirem o mesmo caminho.
O que é o ‘caixa 2’ ou ‘por fora’? É sonegação. E quem não sonega? Na realidade, somente aqueles que não ganham o suficiente para serem enquadrados nas leis fiscais. Quanto aos outros, com as possíveis exceções, todos fazem de tudo para se livrar das garras do fisco. Uns sonegam por egoísmo, esquecendo-se de que o que usam - escolas, estradas etc. - são feitos com a contribuição de todos, mas a maioria sonega porque os impostos são muito altos e o dinheiro público, quando não é mal aplicado, é rapinado. Fato interessante é que todos pagamos impostos, até mesmo os mendigos, quando aplicam os seus trocados para comprar a pinguinha que lhe aquece o corpo maltrapilho. É o imposto indireto que todos pagam quando compram alguma coisa. E pagamos até aquele imposto que foi incluído no preço e depois sonegado.
Num grande número de situações, se o contribuinte pagar conforme a lei, fatalmente não sobreviverá. Essa situação coloca consultores e contabilistas num dilema. Sua responsabilidade ética impede que recomendem a seus clientes, procedimentos fora da lei. Por outro lado, a realidade que eles constatam mostra que se a lei for cumprida seu cliente fecha ou vai à falência. Se depois de estudar todas as possibilidades legais de redução dos impostos a pagar a situação ainda se mostrar difícil, o jeito é esclarecer bem o cliente e deixar que ele mesmo escolha o que fazer. O consultor não pode se responsabilizar por prática ilegal e nem pelo fechamento da empresa. O profissionalismo atual não dá mais lugar à figura folclórica do contador que, ao encerrar o balanço, perguntava ao patrão: quanto que o senhor quer que dê de lucro?
O outro fato que estimula a sonegação ou deixa o contribuinte revoltado é a malversação do dinheiro público. Hospitais com os prédios deteriorados e aparelhos de extrema necessidade quebrados, escolas também em péssimas condições, estradas intransitáveis, ações preventivas, como a da vacinação contra a aftosa, relegadas a segundo plano, segurança e justiça em dificuldade por falta de recursos, enquanto o dinheiro público é desviado para sustentar campanhas políticas, aplicado desnecessariamente em propaganda do governo, ou apropriado criminosamente por seus agentes.
Esse problema não é novo e nem vai ser solucionado. É como o pecado de Madalena que ninguém pode atirar a primeira pedra. Apenas esperamos que com essa exposição toda que as CPIs estão produzindo e com pelo menos algumas punições, seja reduzido a níveis mais toleráveis.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru