Ano a ano, a grave questão do trauma se agrava no Brasil em decorrência de problemas como acidentes de trânsito, violência, entre outros. Nos hospitais, prontos-socorros e unidades básicas de saúde, as urgências e emergências crescem assustadoramente e a estrutura de atendimento não responde adequadamente às necessidades dos cidadãos. É verdade que o trauma e a violência são desafios mundiais, conforme percebemos diariamente na mídia, com exemplos tristes como os acontecimentos da França e da Jordânia. No entanto, é verdade também que em países desenvolvidos e até nos vizinhos da América do Sul os investimentos são muitos maiores do que os nossos.
O saldo, por aqui, é o pior possível. Anualmente cerca de R$ 9 bilhões são destinados ao atendimento ao trauma, quase um terço de tudo que é investido em saúde pública no País. Só para ter uma idéia da distorção que a falta de uma política competente de prevenção e assistência ao trauma representa, estudos indicam que uma vítima grave de acidente automobilístico custa ao sistema cerca de R$ 100 mil, enquanto que a destinação per capita de recursos à saúde gira em torno de R$ 300.
Todos os números nessa área são impressionantes. Dados da Unesco atestam que o Brasil é o recordista em homicídios por arma de fogo no mundo. Um cidadão é morto a cada 12 minutos. Temos 3% da população mundial e ostentamos 13% dos homicídios registrados no planeta. É um quadro inadmissível.
Nessa autêntica guerra urbana, outro inimigo mata indiscriminadamente: o álcool. Ele está presente em 60% dos acidentes de trânsito e em 70% dos laudos cadavéricos de mortes violentas.
Enfim, o trauma e a violência são atualmente vilões de uma sociedade que precisa reagir para não ser derrotada inapelavelmente. Médicos e profissionais de saúde detectam o problema na linha de frente do atendimento e lutam contra todo o tipo de obstáculos para derrotá-lo. Porém, essa é uma guerra que só será vencida com a união de todos. Algumas questões certamente devem ser resolvidas, como a valorização dos recursos humanos em área tão insalubre, e o enfrentamento à falta de treinamento específico e à falta de recursos pré-hospitalares, hospitalares e de reabilitação.
Entidades médicas de diferentes especialidades passaram longo tempo estudando o problema e cruzando dados sobre sua abrangência. Formaram o Comitê Nacional do Trauma com a participação da Associação Médica Brasileira, Associação Paulista de Medicina, Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, Sociedade Brasileira de Pediatria, Sociedade Brasileira de Medicina Intensiva, Colégio Brasileiro de Cirurgiões, Sociedade Brasileira de Anestesiologia, Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado, entre outras.
As representações médicas formataram o projeto “Sistema de Atenção ao Trauma†e o entregaram recentemente ao ministro da Saúde, Saraiva Felipe, solicitando que o governo encare a questão de frente e tome as providências necessárias o mais breve possível. A idéia é integrar sociedade, autoridades, médicos e demais agentes da saúde num amplo debate sobre como prevenir e combater esse mal.
Uma rede de assistência ágil e bem equipada, com profissionais de múltiplas especialidades devidamente treinados e estimulados é uma necessidade imperiosa. A valorização da segurança pública e uma política educacional permanente de formação e prevenção para a comunidade são outras importantes estratégias nessa contenda.
Porém, mais importante é a consciência e a união de todos. Temos de cobrar das esferas públicas ação imediata no enfrentamento a um problema em que a vontade política é essencial para que saíamos vitoriosos. (O autor, Jorge Carlos Machado Curi, é presidente da Associação Paulista de Medicina)