08 de julho de 2026
Geral

‘Interior é o que vai gerar empregos’

Alceu Castilho*
| Tempo de leitura: 11 min

O deputado federal Walter Barelli (PSDB), professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ficou conhecido nos anos 80 e 90 como diretor do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) - em ato proposto com o deputado Vicentinho (PT), na Câmara, ele homenageou este mês os 50 anos da instituição. Depois, foi secretário do Trabalho durante o governo Mário Covas e ministro do Trabalho na gestão Fernando Henrique Cardoso. Durante o 3.º Seminário Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizado entre os dias 16 e 18 desse mês, em Brasília, ele foi um dos escolhidos para falar de geração de emprego e renda. Diante de uma platéia formada por cientistas, disse que a solução mais rápida para o problema é a reforma agrária e o desenvolvimento do Interior do Estado, que tem sido o grande responsável pela criação de novos postos de trabalho. A seguir, trechos da entrevista:

JC - Por que a reforma agrária é a solução para o emprego?

Walter Barelli - Ela é a única que faz emprego de imediato. Falo isso desde quando era ministro. Falei aqui, no seminário de Ciência e Tecnologia, porque pouca gente está falando em reforma agrária. É um público na maioria da base do governo. Falei para mostrar: “Olha, essa tese não é de vocês, é de mais gente”. O governo do Estado de São Paulo, do PSDB, assentou muita gente no Pontal do Paranapanema. E continua. Tem todo um processo, com regras, um Instituto de Terras que acompanha o assentado, que depois ensina as tecnologias que ele precisa, prepara para a comercialização e ajuda na comercialização. Isso é uma idéia paulista. Os assentamentos começaram a ser feitos pelo Franco Montoro. Em várias regiões do Estado temos assentamentos: Araraquara, Itapeva, Pontal. Joguei um tema para o debate e esperava uma pergunta, mas não quiseram discutir.

JC - E por que se fala pouco hoje de reforma agrária?

Barelli - As metas deste governo não são cumpridas. O Fernando Henrique assentou muita gente. E este governo não chegou ainda ao número que ele tinha assentado. É uma frustração. Não se fala porque todos esses que falam de reforma agrária não vêem o seu governo, ou o governo do seu partido, da sua base, promover efetivamente a reforma agrária.

JC - Em sua apresentação o senhor falou do problema histórico de não se dar atenção à reforma agrária como se deveria. Mas o governo Fernando Henrique também não fez reforma agrária na escala necessária, não é?

Barelli - O exemplo da reforma agrária, que eu dou, é para dizer: eu posso acordar e dormir, e no outro dia ter o País dividido e as propriedades entregues às pessoas. Essa é a reforma agrária que foi feita em muitos países. Porque quando você anuncia reforma agrária, não consegue fazer de imediato, porque vai chegar a pessoa dizendo que a propriedade é dela e que vai discutir na Justiça. E aí ela é um processo demorado. Quando dou exemplo de que ela resolve de imediato, é nessa idéia. Você pega o território todo, divide em lotes e atribui. Aconteceu em vários modelos de reforma agrária. No Brasil, primeiro precisa arrecadar as terras. Estão lá, mas teoricamente têm dono. Aí se faz um grande acordo, participa a Justiça e tudo mais. Mas o governo não pode chegar lá e pegar. A mesma coisa acontece na reforma que o Fernando Henrique fez, o Sarney Fez e o Lula está fazendo.

JC - Quais as dificuldades em São Paulo?

Barelli - Em São Paulo vai ter muito pouco espaço para a reforma agrária. Foram encontrados alguns bolsões. Quando falo em dividir, em tese, para resolver o problema do emprego, trata-se de um modelo antigo de reforma agrária. Um Estado como São Paulo já não tem onde colocar todas as pessoas. E muita gente não quer ir para Rondônia ou Roraima. As pessoas querem terra, mas não estão disponíveis para ir a qualquer lugar do País. Querem perto de Campinas, Ribeirão Preto. Esse tipo de terra não é mais devoluta e a Constituição garante o direito de propriedade.

JC - Aí a gente cai em outra questão: em quais setores é necessário se fazer investimentos para reduzir o problema em São Paulo?

Barelli - Fui secretário do Emprego. Fiz muitos desses programas: investi em qualificação, o Banco do Povo, que é microcrédito, 1% ao mês, com inadimplência baixíssima e, em algumas cidades, zero. Desenvolvemos cooperativas populares, para as pessoas terem uma fonte de renda. Fizemos as frentes de trabalho, na Grande São Paulo, para a pessoa que estivesse há muito tempo desempregada voltasse a ter uma oportunidade. Porque o desemprego prolongado cria na pessoa a idéia de que ela não serve, não tem qualidades. E muita gente trata assim o desempregado. Só que se vive numa sociedade que tem menos empregos que o necessário. E fiz os programas de emprego para jovens, tanto para pessoal em idade de serviço militar como para o pessoal do ensino médio: Jovem Cidadão, Meu Primeiro Trabalho. Agora, todos esses com três zeros a menos, à direita do número de pessoas atingidas.

JC - Os programas do governo Lula carecem desses três zeros?

Barelli - O único programa massivo que ele tem é o Bolsa-Família. Mas com contornos muito indefinidos. Porque juntou Bolsa-Escola com Bolsa-Alimentação com vale-gás. Essas obrigações que as pessoas tinham ficaram difíceis de ser verificadas: se a criança está indo à escola, se a mãe está dando vacinas, se está tendo alimentação dela e do filho como necessário. Em benefício da massificação, você perdeu controle. Agora, é um programa mais de dar do que promover a pessoa. Se ele tiver associado a uma geração de emprego, aí a coisa funciona.

JC - No Estado de São Paulo, o aumento dos três zeros passa por onde? Setor de serviços, microempresa?

Barelli - Esses programas de renda são complementares em São Paulo. Você tem o Bolsa-Família em todos os municípios do Estado. Tem a Renda Cidadã, que é um programa estadual. Na Prefeitura de São Paulo, o Renda Mínima. Na medida em que se unificaram os cadastros, a pessoa recebe de uma das fontes. Com isso se pode ampliar o número de pessoas que têm esse mecanismo de renda.

JC - Mas aí não vira uma briga política por fatias do eleitorado?

Barelli - Da maneira como foi feito, não. Porque foi unificado. Vamos ver nas eleições. A idéia é que se tem um cadastro das pessoas com renda até meio salário mínimo, e se vai classificando as pessoas para receber. Independente de ser do governo federal, estadual ou municipal.

JC - Mas isso não resolve o problema do emprego em São Paulo. Como resolver?

Barelli - São Paulo não tem condição de resolver sozinho. Porque depende muito da possibilidade de investimento. O governo estadual tem há vários anos, porque equilibrou o orçamento no segundo ano do governo Mário Covas, dinheiro para investimento. Investimento é o que gera emprego. Custeio é manter quem já tem. Geraria muito mais emprego se a política econômica favorecesse a questão do emprego.

JC - O governo estadual está há 11 anos no poder. Por que o desemprego cresceu?

Barelli - Se você verificar, o Mário Covas e eu sempre criticamos a taxa de juros do governo federal, no tempo do Fernando Henrique. Essa política econômica é contra o emprego. Na medida que você libera, vai ter muito emprego para as pessoas. Vai crescer a produção, distribuir mais renda, passa a ser um círculo virtuoso.

JC - Entre os pré-candidatos tucanos, quais dariam continuidade a essa política?

Barelli - Nenhum daria continuidade ao que o Palocci está fazendo. Este seguiu a chamada política do Malan. Não era o que o Serra pregava como candidato a presidente. Na medida em que você chegou a um determinado patamar, conseguiu controlar a inflação, não precisa disso. O que este governo fez? Como precisava de credibilidade internacional, o Fundo Monetário queria 3,5% de superávit primário. Fez 4,8%, agora 6,1%. É mais realista que o rei. Você subtrai esse dinheiro da circulação, não faz investimento. A ministra Dilma Rousseff tem razão.

JC - Quando se fala na chamada esquerda do PSDB dá para imaginar uma política mais desenvolvimentista. Mas o governador Alckmin não pode ser definido como esquerda do PSDB, pode?

Barelli - Ele tem finanças equilibradas, está investindo mais do que qualquer outro governo, porque consegue fazer isso. E está fazendo uma coisa que esse governo não faz: reduzindo imposto. O mínimo que você pode esperar do Geraldo presidente é: menos imposto, mais investimento.

JC - Que regiões do Estado têm o maior potencial de atrair empregos?

Barelli - O Interior já há alguns anos é o que gera mais empregos. Uma das coisas que aconteceram na área metropolitana de São Paulo foi o congestionamento. Na tecnologia moderna você precisa do chamado just in time, da entrega na hora, para produzir. Se o caminhão fica preso numa marginal, acabou. Com isso, o Interior de São Paulo desenvolveu muitas áreas, empresas. Há uma disseminação industrial em várias regiões. Começaram pelas rodovias, e aí cada vez mais adensando. No Vale do Paraíba você tinha Jacareí, São José, mas passou a ser Caçapava, Taubaté, Pindamonhanga, Cruzeiro, tudo passou a ser região industrial. Na Anhangüera você tinha Osasco, São Paulo, aí passa a ter Jundiaí, Campo Limpo Paulista, Campinas, Indaiatuba, Limeira. O progresso segue as artérias do desenvolvimento, que são as estradas. E São Paulo é o Estado melhor preparado para o investimento.

JC - Quando se fala de desenvolvimento do Interior, há quem diga que isso só se refere aos municípios que mais exportam, num raio de 100 km da Capital: Campinas, São José dos Campos, Sorocaba e assim por diante. Pode-se falar em alguma tendência de esse raio ir aumentando aos poucos?

Barelli - Se você olha para a região de Araçatuba, tem Birigüi como grande pólo calçadista. Já tem uma parte da indústria de confecção indo para Três Lagoas, que já é Mato Grosso do Sul. Como o norte do Paraná foi uma continuidade do desenvolvimento do sudoeste paulista.

JC - Esse efeito de onda gera o que nesses locais? Microempresas?

Barelli - Hoje o que se trabalha muito é a questão dos arranjos produtivos locais, que é a maneira de dar chance para as cidades menores. Em cidades menores, como Clementina, na região de Araçatuba, ali tem uma grande cooperativa. É por ali que você desenvolve as micro e pequenas empresas. Nas grandes cidades, também as pequenas empresas. Porque acabou o tempo deVolta Redonda, onde a cidade era a empresa. Hoje as siderúrgicas são grandes empresas, mas Cubatão não é só a Cosipa, é petroquímica e pequenas empresas também.

JC - Os dados da CNI mostram que a renda dos trabalhadores em cidades como Franca e Birigüi é muito baixa. Por quê?

Barelli - Eles pagam menos do que se paga no centro de São Paulo, mas mais do que no sul de Minas, na Bahia, no Nordeste. Não dá para comparar com centros como São Bernardo, Campinas, São José dos Campos, com indústrias químicas, metalúrgicas, que têm outro padrão de remuneração. Mas, tanto Birigüi como Franca pagam mais que outros setores calçadistas, do Ceará, da Bahia e certamente de Novo Hamburgo.

JC - O ministro Luiz Marinho divulgou, na quinta-feira, dados sobre emprego formal e informal. O senhor tem afirmado que o ministério está mentindo com as estatísticas. Como é isso?

Barelli - Em 2002, já no governo Fernando Henrique, mudaram a metodologia de cálculo. Quando fazem comparação com o governo dele, que só foram criados 8 mil empregos por mês, e neste governo mais de 100 mil por mês, estão fazendo um erro estatístico. As séries não são comparáveis. Digo que isso é mentira. Sei que não gostaram nada do meu artigo (no jornal “O Estado de S. Paulo”). A Paula Montagner, que é do Observatório do Trabalho, do Ministério, não entrou na dividida, ficou meio assim. Ela sabe que estão errados, porque ela era da Fundação Seade.

JC - E os 10 milhões de empregos do Lula? O governo vai chegar lá?

Barelli - Da forma como estão fazendo não separam o trabalhador que antes era informal. Ele estava empregado, só não tinha os direitos, e passou a ser formalizado. Nesse período houve duas coisas: primeiro, o Simples, criação do governo Fernando Henrique. Outra é que, pelo menos em São Paulo, a DRT aumentou violentamente a fiscalização contra empresas informais. Não posso dizer que aumentou o emprego se ele já era empregado.

JC - O senhor acha que esse vai ser o principal tema das eleições do ano que vem? Ou será a corrupção?

Barelli - Talvez o não cumprimento das promessas pelo governo Lula. Não são só os 10 milhões de empregos. Este governo não tem muita coisa para mostrar. A única coisa é o tal biodiesel. Mas qual a escala? Quantos caminhões fazem uso? Não é como o Pró-Álcool, quando se podia comprar carro a álcool. Você não tem a dimensão do programa. Tirando isso, qual o grande programa? O Bolsa-Família, que é a grande coisa, é um conjunto de programas que já existiam. Ele ampliou violentamente, sem dúvida, vai ser a grande propaganda dele.

*Correspondente do JC em Brasília