08 de julho de 2026
Ser

Pequenas perversidades infantis

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 5 min

“Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu...”. Clássico infantil, a música retrata algumas pequenas crueldades típicas das crianças, como apertar a orelha do cachorro, puxar o rabo do gato, matar e colecionar insetos, bater no irmão menor, entre outros comportamentos considerados típicos da infância. Nem por isso, essas atitudes devem ser toleradas pelos pais, destaca a psicóloga Isabel Cristina Dalco.

“Amor, raiva, ódio e contrariedade fazem parte do desenvolvimento humano. O que vai diferenciar a expressão desse sentimentos são as restrições, limites ou permissões”, diz Dalco. â€œÉ normal a criança ter ciúmes ou sentir raiva a ponto de expressá-la, mas deve ser ensinada a não machucar o outro, moral ou fisicamente por isso”, aponta a psicóloga clínica e escolar Cláudia Regina da Costa Chaves.

Segundo ela, quando pequenas, as crianças são mais livres e menos cobradas. Dessa forma, em alguns casos, podem encontrar pessoas que acham o comportamento “bonitinho”.

Dalco acrescenta que diferentemente dos adultos, os pequenos não têm noção exata da crueldade. Por isso, buscam apenas prazer e curiosidade ao cometerem “perversidades”.

“Crianças com 7 anos ou mais podem matar insetos somente pelo prazer de colecionar”, detalha. Em alguns casos, os pequenos chegam a bater e brigar com irmãos mais novos por sentirem ciúmes ou para exigir mais carinho e dedicação dos pais. Essa situação é comum com a chegada de um bebê no lar, exemplifica Dalco.

Paulo*, 7 anos, confessa que “dá uns tapinhas” e puxa o cabelo da irmã de 2 anos para chamar a atenção da família. “Mas ela já fez isso e também me mordeu”, justifica.

Em geral, os meninos têm mais liberdade para praticar pequenas maldades do que as garotas, observa Chaves. “Espera-se que eles sejam mais arteiros. Construímos socialmente que as meninas devem ser mais comportadas. Eles chutam, quebram e falam palavrões. Elas escondem, conversam demais e inventam mil histórias, mas é difícil medir quem faz mais ‘arte’”, diz.

Ana*, 7 anos, conta que seu irmão Luiz*, 1 ano, puxa seu cabelo e belisca seu braço quando a pequena está dormindo ou assistindo televisão. “Eu brigo com ele. Dou uns tapinhas no seu bumbum porque o bebê está com fralda e não deve doer muito. Mas aí ele grita: mamãaaae!”, revela a pequena, que tem mania de colecionar joaninhas e formigas.

Para evitar que os bichinhos morram, Ana os guarda numa caixa com furos para entrar ar. “Mas às vezes não dá certo e tenho dó deles”, diz.

Animais de estimação

Uma das “artes” mais comuns praticadas na infância é judiar do gato, cachorro, papagaio ou outro animal de estimação, aponta Dalco. “Puxar o rabo do gato ou do cachorro pode traduzir curiosidade ou ainda ser uma forma de carinho, uma vez que algumas crianças pequenas não sabem como transmiti-lo de outro jeito.

É o caso de Renato*, 4 anos. “Às vezes o cãozinho está dormindo e meu filho vai mexer com ele. Aí o animal acaba chorando”, conta a mãe, a professora Patrícia*.

Gustavo*, 8 anos, também adora brincar com seu poodle. Ele costuma “rolar no chão” com o animal, brincadeira vigiada pela mãe, a professora Lilian*. “O cachorro gosta muito de pular e correr. Desde que meu filho não esteja machucando o animal, ou vice-versa, eu deixo. Mas quando ele passa dos limites, leva bronca”, conta.

Segundo Lilian, Gustavo se torna ainda mais arteiro quando se une com os outros irmãos: Mariana*, 6 anos, e Diego*, 10 anos. “A menina é agitada: se está vendo a televisão, sobe em cima do sofá, depois pula na cama para dançar. Além isso, ela quer pegar os brinquedos do Gustavo, que fica bravo”, diz.

“Quando estão os três irmãos juntos, brigam mais”, conta Lilian, que constantemente está observando o comportamento dos filhos, buscando orientá-los e corrigi-los quando necessário.

A atitude também é adotada na casa de Patricia. “Meu filho já quebrou brinquedos de propósito e, na escola, empurrou outra criança”, diz. Algumas vezes, Renato amarra os dois cadarços do tênis do pai ou puxa seu cabelo. “Por isso, quando é preciso, eu o repreendo e dou bronca”, afirma.

Chaves aponta que a educação é essencial para o processo de formação da criança. Acolher os sentimentos vivenciados pelos pequenos e orientar sobre quais atitudes devem ser tomadas é uma forma de lidar com as pequenas maldades infantis, diz.

â€œÉ importante considerar que os sentimentos são espontâneos. É diferente dizer a uma pessoa que ela errou do que colocar que sua atitude não foi adequada. Os adultos também precisam rever como estão lidando com esses aspectos para serem mais livres e firmes na hora em que precisam corrigir uma postura inadequada da criança”, ressalta Chaves.

Nesse cenário, pontua Dalco, atitudes como gritar ou bater nos filhos devem ser evitadas. â€œÉ preciso orientar sobre o fato, com carinho, atenção e firmeza. A criança necessita formar suas opiniões sabendo dos limites existentes”, observa.

Além da família, a escola desempenha um papel importante na educação das crianças. Isso porque os professores e diretores podem auxiliar a reconhecer posturas inadequadas, impedindo que a agressividade entre as crianças extrapole os limites da convivência, explica Chaves.

Segundo ela, os docentes podem avisar os pais sobre as atitudes dos filhos e, se for o caso, orientá-los. “A escola ajuda a educar, mas quem de fato pode assumir o papel são os pais. O primeiro limite vem deles”, enfatiza. “Mas quando a família soma suas ações à dos professores, normalmente a dinâmica se resolve mais rapidamente”, acrescenta.