Um certo dia do mês demaio de 1966 , eu e meu pai (já já falecido), fomos até a casa de minha irmã Maria e meu cunhado Manoel Gimenez fazer uma visita.
Nessa época, estava por ali, passando umas férias, seu primo Ismar, um sujeito muito alegre e bacana. Iniciamos então um animado bate-papo e não levou dez minutos e o assunto era pescaria.
Combinamos então que no outro dia, bem cedo, iríamos fazer uma pescaria de lambari no ribeirão Água Parada.
Deixamos tudo pronto: varas, linhas, anzóis, farelos, quirela e o famoso macarrãozinho.
No outro dia bem cedo, após um gostoso café, feito pela minha saudosa mãe (já falecida), saimos de casa na velha Kombi azul ano 1959, passando pela casa do cunhado que já estava a nossa espera.
Passamos em um posto de gasolina, colocamos “petróleo” e lá fomos nós, rodando pela rodovia Bauru-Iacanga.
Rodamos mais ou menos uns 20km e, saindo da rodovia, entramos em uma fazenda, na época o nome era Fazenda Macaúba.
Fomos descendo por uma estradinha de terra, entre cafezais e envernadas, até chegarmos ao ribeirão.
Para quem não conhece, esse ribeirão tem sua nascente nas proximidades de Bauru, percorre uns 50km e despeja suas águas limpas e claras no nosso “velho” e conhecido rio Batalha.
Todos estavam animados preparando as “traias”, e o mais entusiasmado era o Ismar, que dizia: “Oba, vou pegar uma misturinha de graça”. Retruca o Manoel e diz: “De graça uma ova. Você vai ver quando lhe mostrar a nota fiscal da gasolina”(risos ).
Começamos então a pescaria: o Manoel, o mais habilidoso, ia fisgando os lambaris, aqueles prateados de calda vermelha, coisa linda, e colocando em um samburá, dentro da água, preso em uma cordinha, amarrado no capim.
Estava uns 20 metros dele pescando tranqüilo, quando ouvi um grito abafado por gemido. Olhei e vi meu cunhado que jogando tudo para o alto. Subiu o barranco praticamente de costas, numa rapidez incrível. Joguei meu “bambuzinho” sobre o capim e corri para junto dele para ver o que tinha acontecido. Lá estava o Manoel, todo ofegante, olhos arregalados e somente dizia: “Cuidado com a cobra”. Olhei para todos os lados e não vi cobra alguma. Em instantes, já mais calmo me contou: “Fisguei mais uns dos bixinhos e quando puxei o samburá fora da água e fui colocá-lo dentro, ufa que susto, uma enorme jaracussu, lá estava, já com parte do seu corpo dentro do samburá, querendo engolir os lambaris que se batiam indefesos.
Meu pai ria pra valer e dizia: “Essa cobra é mansa, não ataca e não pica ninguem, ela só queria fazer sua refeição mais cedo hoje”.
Mas para meu cunhado, a pescaria acabou naquela hora, e não voltou mais a pescar.
Hoje já faz 39 anos, somos todos aponsentados, eu ainda vou com os amigos toda semana pescar lambari, mas o Manoel nunca mais quis saber de pescaria.
Nós até o convidamos, mas a resposta é sempre a mesma: “não vou não, lá tem cobras...”
Valdir Ribeiro é pescador e contador de história