Muitas pessoas, em especial as mulheres, buscam ter a maturidade dos 40 ou 50 anos com o corpinho dos 20. Só é possível ser feliz assim? Para a médica-cirurgiã Carla Góes Sallet, 38 anos, todas as idades têm sua beleza. Saber vivenciá-las é sinal de auto-estima e sabedoria.
“Quando encontramos a tranqüilidade interna e nos cobramos menos, somos mais felizes e belas”, aponta Sallet. É baseado nesse pensamento que Carla Sallet escreveu o livro “Belíssima aos 40, 50, 60, 70...”, lançado na última segunda-feira, em São Paulo.
Em 245 páginas, a autora aborda os principais temas do universo feminino, entre eles família, carreira, saúde, gravidez, relacionamentos e também dicas de cabelo, cremes, exercícios faciais e dietas, itens que alimentam a vaidade feminina sem correr o risco de se transformarem num culto exagerado ao corpo.
Nascida em Salvador, Bahia, e mãe de dois filhos, Sallet, é um exemplo da mulher contemporânea retratada em “Belíssima...”, terceira obra de sua carreira. Especializada em medicina estética, ela divide seu tempo entre os atendimentos em sua clínica, palestras, consultorias para revistas femininas, família e administração da casa – sem esquecer, é claro, de reservar um tempo para cuidar do corpo e da mente.
A busca pela beleza e melhor qualidade de vida foram um dos principais temas abordados no livro e pautaram o bate-papo com a escritora. Compartilhe os principais trechos.
Jornal da Cidade - Por que a idéia de se escrever o livro?
Carla Goés Sallet - Tenho o desejo de que as pessoas e, principalmente, as mulheres tenham uma auto-estima elevada e possam cultivar com pequenos hábitos diários, beleza e bem-estar, buscando a sua essência.
JC - O que busca a mulher contemporânea?
Sallet - Equilíbrio, companheirismo, carinho e respeito. A mulher quer ser reconhecida, ter equilíbrio e não precisar ficar mostrando que ela é mais forte do que o homem ou trabalhar cinco vezes mais que ele para ser reconhecida. Com a mulher acontece uma coisa incrível: quando ela ganha mais do que o marido, ele se sente deprimido e a relação pode ficar comprometida; se ela ganha muito menos, se sente na obrigação de fazer muito mais dentro de casa. É uma situação muito delicada, porque a mulher buscou tanto poder trabalhar fora, só que de certa forma não deixa de ser “Amélia”.
JC - Qual é a receita para lidar com essa situação?
Sallet - Muito diálogo. É preciso chegar, conversar e dizer o que está acontecendo. É importante buscar isso desde o início porque a mulher busca muito agradar o homem no início do relacionamento. Preparar um jantar especial para ele, por exemplo, é uma delícia, mas é fundamental existir uma parceria desde o início. É preciso buscar companheirismo e afinidade e não deixar para “chutar o balde” quando não agüentar mais. Nossas regras internas precisam ser mostradas desde o início do jogo.
JC – A senhora se inspirou em experiências pessoais para escrever o livro?
Sallet – A coisa mais importante da minha vida é não desistir nunca. Nunca desisto, tenho muita fé e tudo que eu determinar acontece. Tenho uma certa inocência e confiança das crianças e, até que me provem o contrário, estou sempre confiante nas pessoas, procurando o que é melhor para mim e para os outros. É claro que com isso posso me decepcionar um pouco, mas também chego mais à frente porque não olho com o ar desconfiado e, no geral, atraio pessoas parecidas comigo.
JC – Grande parte das mulheres quer ter 40 anos mantendo um corpo de 20 anos. Muitas, inclusive, acreditam que esse é um caminho para a felicidade. Como a senhora analisa esse cenário?
Sallet - No livro mostro muito claramente a importância da beleza interior, da luz que nunca devemos deixar que se apague, sendo o caminho mais tranqüilo e seguro para que as pessoas sintam em harmonia e sejam felizes. É preciso viver com sabedoria, acompanhando a evolução natural do tempo; os anos devem passar deixando uma bela mulher como testemunha. Isso é maravilhoso. Cada idade traz a sua beleza e são esses pequenos rituais que fazem os dias serem vividos com tranqüilidade.
JC - De uns anos para cá, as indústrias e lojas de confecção estão diminuindo a numeração de suas roupas; em algumas lojas só se vendem tamanhos “p” e “m”. Isso contribui para estimular o modelo da magreza e o corpo de manequim imposto pela sociedade?
Sallet - Com certeza. Isso é um absurdo. As pessoas ficam confusas, se acham acima do peso e começam a ter neuroses. Na clínica recebo constantemente meninas lindas que desejam usar determinadas marcas de calças. Elas afirmam que não podem sair do manequim 38 e precisam perder no mínimo alguns quilos.
JC - Esse padrão pode causar transtornos, como bulimia e anorexia. Como mudá-lo?
Sallet - Com certeza. Procurando saber qual é o peso ideal, principalmente em relação a estrutura corporal de cada um, visando melhorar a saúde e manter um bonito visual harmônico, fugindo de padrões ditados pelo modismo. Existem mulheres lindas e que fogem dos padrões.
JC - Aumentou a procura por plásticas ou tratamentos estéticos? Isso é sinal de insatisfação das pessoas com o próprio corpo?
Sallet - Acho que a cirurgia plástica contribui muito, mas tem que ser cuidadosamente indicada. O maior estímulo para isso é a criação de padrões de beleza. Ser modelo é sinônimo de sucesso e as pessoas logo pensam: “eu posso ser tão magra, ter aquele perfil ou aqueles lábios... dessa forma serei mais feliz, serei aceita”. Aceita por quem, afinal?
JC - Além das mulheres, os homens estão cada vez mais preocupados com o corpo e a beleza. Para isso, recorrem à depilação, manicure, plásticas, tratamento facial e capilar, entre outros itens comuns ao universo feminino. A que a senhora atribui essas mudanças?
Sallet - As mulheres estão muito exigentes, pois são tão cobradas e vivem fazendo dietas, seguem padrões de beleza e não gostam de ver um companheiro descuidado. Eles, por sua vez, estão ficando curiosos em ver como as mulheres que se cuidam estão chegando bem às várias idades e por isso querem também serem admirados e exercer o poder de conquista de antes.
JC - Como driblar as influências externas, da sociedade e da mídia, que exigem um corpo esbelto e perfeito?
Sallet - Entendo que é difícil, pois é passado a idéia de que se a mulher é alta, magra etc... terá mais amigos, será melhor aceita em determinado grupo da sociedade e por aí vai. As pessoas podem correr o risco de ‘ficar na superfície’ e não cultivar o seu ‘eu’. Os valores internos são muito mais importantes, o bom humor, por exemplo, traz um ar bonito e saudável, além de ser um excelente elixir para a saúde.
JC – De que forma as pessoas podem tirar proveito das mudanças físicas e psicológicas da maturidade?
Sallet - Com o passar dos anos, realmente as transformações vão surgindo, mas para quem mantém uma vida equilibrada e saudável, com a alimentação balanceada e o corpo e a mente conectados, as mudanças ocorrem de maneira gradativa e podem vir associadas a um amadurecimento de idéias e valores, usando a sabedoria que as experiências trouxeram. Muitas mulheres afirmam que deixaram de ser verdadeiras escravas de padrões que seguiam quando mais jovens e passaram a valorizar o fato de terem alcançado a maturidade com menos regras e uma beleza harmônica. Por exemplo, aos 58 anos não é divulgado que as mulheres devem ter 1,70 metro de altura, corpos magérrimos e pernas perfeitas. Os valores vão mudando e quando encontramos a tranqüilidade interna e nos cobramos menos, somos mais belas e felizes.
JC - Quais as dicas para compensar os desgastes sofridos pela “máquina do tempo” e ficar bem com o próprio corpo?
Sallet –As pessoas sempre acham que poderiam ser mais bonitas de um jeito ou de um outro: mais magras, mais musculosas, com a pele mais lisinha ou sem manchas. É verdade que a medicina evoluiu muito e hoje os consultórios médicos podem ajudar na busca pelo bem estar físico. Peelings, laser, vitaminas, acupuntura e cirurgias podem beneficiar e elevar a auto-estima, mas é importante antes de tudo isso, manter o corpo e a mente saudáveis. É importante começar avaliando a rotina, alimentação, colocando saúde na mesa, procurando conversar, expor suas idéias, fazer o que realmente traga gratificação emocional. O ideal é manter uma alimentação saudável, praticar atividades físicas, ter boas noites de sono, dedicar um tempo para relaxar – nesse sentido a yoga ajuda muito - parar de fumar e principalmente amar-se.
JC – No livro a senhora aborda a importância de se manter a beleza para a manutenção da qualidade de vida. Em que sentido?
Sallet – As pessoas devem procurar a beleza dentro delas, a beleza existe com certeza. Além disso, é preciso de se cuidar, manter a satisfação em relação ao espelho. Cuidar do cabelo, da pele, usar filtro solar e cremes. Esses rituais diários mantém a pessoa em contato com a sua sensualidade e ajudam a evitar o envelhecimento precoce. Não é preciso ser perfeito, mas deve manter o que tem com carinho e procurando sempre ficar melhor e mais feliz consigo mesmo.
JC - A senhora é autora de dois livros sobre grávidas, “Grávida e Bela” e “Mãe, e Agora?”. Como manter a beleza durante e depois o período gestacional?
Sallet - O universo feminino é fantástico e muito peculiar. Na gestação ele é mais especial ainda e existem inúmeras alterações. As visitas ao obstetra são muito importantes para uma gravidez saudável, que pode ser mantida com uma rotina de caminhadas e exercícios físicos orientados por profissionais. Isso é fundamental para o controle do peso, fortalecimento da musculatura das costas e braços e para controlar o estresse. Alimentação em todas as fases da vida é muito importante e na gravidez também, período no qual é preciso manter um cuidado diário com o peso. Além disso, uma hidratação adequada da pele com hidratantes específicos, principalmente no abdome e mamas, ajuda. Após o parto, amamentar é muito importante para o bebê e para a mãe, pois a ocitocina, hormônio produzido durante o ato de amamentar, estimula a contração uterina e ajuda na redução do tamanho do útero, ajudando-o a voltar ao normal. Os cuidados com o tratamento da pele e uso de cremes hidratantes firmadores ajudam na recuperação da pele do corpo. As drenagens auxiliam na perda de peso e a eletroestimulação corporal contribui para definir a musculatura, ajudando no retorno das atividades físicas.
JC – A senhora tem planos de lançar outro livro?
Sallet - Livro é uma coisa muito engraçada, porque quando depois do primeiro, vem o segundo. E o “Belíssima” é um projeto tão querido quanto os dois primeiros, porque tem o objetivo de querer mostrar para as mulheres que existem dificuldades, soluções, ladeiras que precisamos subir e vitórias. Mas aí as pessoas começam a falar: “agora você vai escrever sobre todas as questões emocionais e como fazer para ser mais equilibrado”. Um assunto vai puxando o outro e se Deus quiser vou escrever outro livro sim. Como a criança que está sempre na frente, brincando com um brinquedo e já olhando outro, meu sonho é continuar escrevendo. O universo feminino é uma coisa que me interessa muito porque é através dele que são formados os lares, onde as crianças vão crescendo e se formando, e por isso ele merece muito carinho e atenção.