10 de julho de 2026
Geral

Espécies silvestres buscam meio urbano

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 3 min

A algazarra começa cedo e chega a perturbar o sono daqueles que gostam de ficar mais um tempinho na cama. As maritacas e outras aves migratórias têm encontrado nos forros de residências o local ideal para a reprodução, longe dos predadores naturais, que atacam os ninhos em ocos de árvores. Mas não são apenas aves como maritacas, andorinhas, gaviões, urubus e corujas que estão se habituando à cidade, até alguns mamíferos, como gambás, capivaras, sagüis e tamanduás-mirins cada vez mais se aproximam do ambiente urbano em busca de alimento e locais para procriação.

O escritório regional do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em Bauru detectou um aumento de 80% nas ocorrências desses animais. A engenheira agrônoma e chefe do escritório regional do Ibama Lélia Lourenço Pinto comenta que o período marcado pela primavera eleva para 40 ligações mensais, o que normalmente seria entre 20 e 22.

“São pessoas que buscam orientação sobre o que fazer com esses animais. A maioria é de gambás, em busca de alimento, e maritacas, que fazem o ninho nos forros. É comum, por falta de informação, as pessoas acharem que os filhotes estão abandonados e aí retiram e trazem para cá”, lamenta.

Portar animais sivestres é crime ambiental, e por este motivo, muitas pessoas ficam apreensivas ao se deparar com uma maritaca ou gambá em sua casa. “Esta semana recebi um beija-flor com a asa quebrada, estamos cuidando, mas é uma espécie que terá dificuldade em sobreviver.” O escritório do Ibama se transformou em um minizôo, com maritacas, gavião-quiri-quiri e até um sagüi-de-tufo-preto. Quando os animais recuperam a saúde, eles são reintroduzidos na natureza.

Convivência pacífica

O profissional da área de informática Ademir Zago, há menos de um mês foi surpreendido durante o trabalho pela queda da conexão da Internet. “Na mesma hora chamei a empresa de telefonia e já estava preparado para reclamar. Quando o técnico chegou e subiu no forro, tivemos a informação que as maritacas tinham cortado o fio para fazer o ninho”, recorda.

Restabelecida a linha, Zago não se importou com a permanência das aves em sua casa. “Eu até gosto, elas não atrapalham nada e só percebo a presença pela manhã e à tardinha.” Em suas observações, Zago vê o casal de aves saindo em busca de alimentos e às vezes em algumas árvores da rua. Mesmo com a movimentação constante, as aves permanecem. “Eu tenho uma amiga que coloca frutas e elas descem para comer, mas eu prefiro não alimentar. Quero manter nossa relação de harmonia”, brinca.

Um dos problemas dos animais na cidade é a aproximação com os seres humanos. “Eles nascem convivendo com as pessoas e vão perdendo o medo. Fica mais difícil a reintroduzi-la na natureza e os animais ficam mais vulneráveis a caçadores”, explica Lélia.

O zootecnista Luiz Pires, diretor do Zoológico Municipal de Bauru, aproveita para fazer uma defesa das aves migratórias, em especial as andorinhas. “Elas se alimentam de insetos e chegam a comer mais de 400 deles em um único dia.” Já as corujas são famosas como exímias caçadoras de ratos e baratas. Quando estão com os filhotes em tocas, é comum assistir cenas de ataques a pessoas e cães. Os gaviões também têm comportamento semelhante.