10 de julho de 2026
Articulistas

Administração pública reativa


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O juiz da Vara de Execuções Criminais de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, mandou soltar 16 presos, já condenados, que cumpriam pena em uma cadeia de péssimas condições. Não satisfeito, desobedeceu determinação da Justiça de Minas e soltou mais sete, todos bandidos perigosos. Embora ele diga que não foi uma atitude de protesto, esse fato não tem como ser isolado das rebeliões de presos, tanto em cadeias como em penitenciárias e unidades da Febem, devido às condições degradantes em que se encontra a maioria dos presídios.

Caminhoneiros bloqueiam estradas intransitáveis; produtores rurais enchem seus caminhões com galinhas, feijão, tomate, leite etc. e vêm distribuir em praça pública, em protesto contra a falta de incentivos; familiares de pessoas doentes chamam a polícia e a imprensa para reclamar da falta ou do mau atendimento nos hospitais e postos de saúde; população ateia fogo em pneus para protestar contra o abandono de ruas importantes para seus bairros. Essas têm sido as formas de acionar a administração pública. Aquilo que deveria ser atividade normal do serviço público, no ciclo lógico de planejamento, execução e controle, fica resumido às execuções de emergência depois que os jornais e a televisão exibem e comentam os protestos.

Foi preciso que um ‘apagão’ deixasse o Brasil às escuras para o governo se dar conta de que o setor de energia elétrica estava ficando para trás do crescimento do país. Foi preciso o embargo da carne pelos países importadores para o governo tomar consciência das carências da Vigilância Sanitária. Está sendo preciso as enchentes levarem as pontes de rodovias vitais, com grandes transtornos para a população e para a economia, para o governo verificar que a maioria está em condições de risco pela falta de manutenção. Está sendo preciso chegarem as chuvas de janeiro, com as inundações e desmoronamentos, para o governo decretar estado de emergência para fazer o que deveria ter feito durante o ano. Será preciso chegar o início das aulas para o governo tomar conhecimento da falta de vagas. E assim a administração pública vai reagindo aos fatos em vez de se antecipar a eles. É reativa, quando deveria ser pró-ativa.

No Estado de São Paulo tivemos somente um governo que trabalhou com planejamento, que foi o de Carvalho Pinto (1959-1962). Ao tomar posse e recebendo uma administração saneada por Jânio Quadros, Carvalho Pinto nomeou um grupo de trabalho, coordenado por Plínio de Arruda Sampaio e formado por nomes ilustres, entre os quais Delfim Neto, que iniciava a sua carreira na USP como professor assistente no Departamento de Economia. Esse grupo elaborou o Plano de Ação para o governo paulista.

A maior parte da malha rodoviária, com as radiais e transversais que cortam o Estado de Leste a Oeste e de Norte a Sul; a rede de armazéns e silos, entre eles o entreposto da Ceasa, na Capital; a ampliação e modernização da rede escolar e de saúde pública enfim, dezesseis setores, agrupados em três grandes áreas – Melhoria das Condições do Homem, Infra-estrutura e Expansão Agrícola e Industrial – foram devidamente planejados e executados. Na esfera federal tivemos um período de administração planejada no início do governo militar, com a participação de Roberto Campos, Mário Henrique Simonsen e Octávio Gouveia de Bulhões. Fora isso, continuamos com as administrações apagadoras de incêndio.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru