08 de julho de 2026
Geral

Sem emprego e fragilizado, vendedor vai para abrigo e depende de entidade

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 2 min

Há seis anos longe da família, que ficou na sua cidade natal, o vendedor Carlos (nome fictício), ainda não contou aos pais que é soropositivo. Morando na casa da Sociedade de Apoio à Pessoa com Aids de Bauru (Sapab) há uma semana, após uma tentativa de reintegração em Londrina, ele conta que a falta de uma fonte de renda é o seu principal problema. “Deixo de fazer coisas que eu gosto muito, como sair com amigos, bater papo, ir ao cinema”, conta.

Na casa, que abriga seis adultos e seis crianças, Carlos divide o quarto com outros moradores e ajuda nas atividades do dia a dia. “Assim me sinto útil”, conta. Antes dessa estadia, já havia morado na entidade por seis meses. Hoje, está fazendo um trabalho psicológico para conseguir contar a verdade para sua família. “Ligo uma vez por mês para contar onde estou, o que estou fazendo. Se eles perguntam sobre minha saúde, digo que estou ótimo”, confessa.

Antes de descobrir que era portador do vírus da aids, Carlos trabalhava como vendedor de livros. E foi na semana seguinte ao seu 20.º aniversário que recebeu o resultado do exame, que fez apenas para acompanhar um amigo. “Fiquei paralisado olhando para médico”, lembra. Junto, teve diagnosticados sífilis e hepatite B. “Um belo pacote de presente de aniversário”, ironiza.

Efeito colateral

Carlos conta que devido aos efeitos colaterais do coquetel não conseguiu mais se manter no emprego. “As pessoas queriam saber o que eu tomava e eu mentia dizendo que eram vitaminas”, lembra. Atualmente, Carlos não possui nenhuma fonte de renda, nem mesmo vinda do governo. “Os programas que eles possuem abrangem apenas aqueles que estão com duas doenças oportunistas. Nesse estágio, a pessoa já está morrendo”, critica.

Como os médicos recomendam atividades, ele aprendeu artesanato e pensa em comercializar os cachecóis e blusas que faz no tear.

O passatempo favorito dele é corresponder-se com o centenas de amigos que tem pelo mundo. Escrever cartas é a atividade que Carlos mais gosta de fazer. “Tenho amigos no Brasil inteiro e também fora, como Congo e Filipinas”, conta, mostrando a lista de endereços. Para alguns, ele revelou ser soropositivo.

“Vontade de viver é o que me motiva. E o meu sonho é poder fazer uma faculdade”, revela. Segundo ele, os planos para fazer faculdade de serviço social já estão sendo retomados. “Na minha situação, posso ser bem útil”, pondera. “Espero conseguir reestruturar a minha vida de uma forma que não seja dolorosa. E claro, conseguir ganhar meu dinheiro”, planeja.