09 de julho de 2026
Nacional

PIB cai 1,2% no terceiro trimestre

Por Janaina Lage | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

Rio de Janeiro - A economia brasileira teve retração de 1,2% no terceiro trimestre na comparação com os três meses anteriores, segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Trata-se da maior queda em dois anos e meio - no primeiro trimestre de 2003, caiu 1,3% (veja quadro).

O comportamento da economia ficou bem abaixo das expectativas dos analistas ouvidos pela reportagem, que previam cenários de uma leve alta de 0,1% até uma queda de 0,5%. Em relação ao terceiro trimestre do ano passado, houve expansão de 1% no Produto Interno Bruto (PIB), soma dos bens e serviços produzidos no País.

No acumulados dos nove primeiros meses de 2005, a alta é de 2,6%. O resultado mais fraco do ano já era previsto desde o primeiro semestre. Juros em alta, taxa de câmbio desfavorável aos exportadores e concentração dos efeitos da crise política do governo Lula foram alguns dos fatores citados por economistas para justificar a expectativa por um resultado inferior ao dos demais trimestres do ano.

“Tivemos uma surpresa no terceiro trimestre com a forte queda da confiança do consumidor intensificada pela crise política, o que levou a uma estabilidade das vendas no comércio e a uma redução da produção industrial”, afirmou Guilherme Maia, da consultoria Tendências.

A expectativa por um desempenho mais fraco ganhou fôlego após a divulgação dos resultados da indústria, que foi o motor do crescimento da economia no segundo trimestre, quando houve expansão de 1,1%. A percepção de que a economia não deverá atingir o patamar de crescimento de 3,4% no ano - essa é a previsão do Banco Central (BC) - levou analistas a revisarem para baixo suas projeções. Segundo o boletim Focus, organizado pelo Banco Central, a previsão média de crescimento de mais de cem instituições financeiras alcança 3%.

Indústria

A produção industrial apresentou o pior desempenho do ano no terceiro trimestre. Segundo dados do IBGE, houve queda de 2,1% em julho, alta de 0,9% em agosto e queda de 2% em setembro. Embora existam diferenças entre a medição do comportamento da indústria na produção industrial e no PIB, os resultados já indicavam que a expansão do segundo trimestre não se repetiria.

De acordo com os dados do PIB, a indústria brasileira teve queda de 1,2% no terceiro trimestre, após registrar expansão de 1,4% no segundo trimestre. A análise sob a ótica da produção mostra ainda que a agropecuária registrou queda de 3,4% e os serviços tiveram resultado estável.

Depois de um ensaio de recuperação no segundo trimestre, os investimentos voltaram a cair no período julho-setembro, com uma retração de 0,9%, contra alta de 4,7% no segundo trimestre. Na avaliação da LCA Consultores, o recuo foi puxado pelo desempenho da construção civil, que responde por cerca de 60% dos investimentos. Segundo analistas, as incertezas no cenário político em Brasília também afetaram a disposição do empresariado para realizar novos investimentos. “Parte das decisões de investimento deixou de ser tomada durante a crise política”, afirma Jason Vieira, economista da GRC Visão.

Para a economista do BES, Sandra Utsumi, as pesquisas qualitativas de confiança do empresariado no terceiro trimestre já sinalizavam uma expectativa menos otimista quanto ao futuro, o que contribuiu para desacelerar o nível de produção e o consumo de bens de capital (máquinas e equipamentos). “Esse conjunto de fatores afetou o nível de investimento e trouxe como conseqüência um menor ritmo de produtividade”, disse.

A percepção de que a crise política afetou o investimento não é unânime. Segundo Estevão Kopschitz, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão ligado ao Ministério do Planejamento, a coincidência entre o fraco desempenho e o período de crise cria a “tentação” de associar os dois eventos. “Se de um lado existe uma coincidência temporal, de outro, crises políticas tendem a afetar primeiro os mercados financeiros e somente depois, a produção, mas dólar e Bolsa não foram afetados”, disse.

Consumo das famílias

A análise do PIB sob a ótica da demanda mostra que o consumo das famílias se manteve em alta no terceiro trimestre, com uma taxa de 0,8%. Analistas destacam a expansão do crédito como um dos aspectos positivos do período julho-setembro. O setor externo continuou a representar um papel importante no desempenho da economia, apesar da taxa de câmbio ser considerada desfavorável para quem vende seus produtos no Exterior. As exportações cresceram 1,8% e as importações, 1,4%. O consumo do governo teve queda de 0,4% no terceiro trimestre, após uma alta de 0,9% no segundo trimestre.

Apesar do cenário desfavorável para a economia brasileira no terceiro trimestre, há uma expectativa generalizada de recuperação da economia no quarto trimestre. Esse movimento, no entanto, deve ficar restrito aos meses de novembro e dezembro. Dados antecedentes da indústria em outubro como a produção de automóveis, o consumo de energia, entre outros indicadores, já sinalizam um resultado fraco.

Segundo Kopschitz, o desempenho pode ser auxiliado pela expansão do crédito, pela pequena melhora nos salários reais e pela Selic em queda, mas destaca que o desempenho da indústria terá um papel fundamental na retomada do crescimento. “Se de um lado há uma análise difundida de que o quarto trimestre será melhor, reforçada pelos dados de crédito, de outro os dados já disponíveis para a indústria são negativos”, disse. “Renda, crédito, retomada da confiança, vendas no comércio e juros em queda vão sustentar a recuperação no quarto trimestre”, afirmou Maia. Apesar da perspectiva de recuperação, a Tendências aposta em crescimento de 2,8% no ano, abaixo do patamar previsto pelo BC, de 3,4%.