“Alertem todos alarmas que o homem que eu era voltou.” O verso da canção “O que Foi Feito Deverá”, de Milton Nascimento, que acompanha os créditos finais de “Eu Me Lembro”, parecia um prenúncio: o diretor baiano Edgard Navarro voltou, foi visto e venceu. O filme, estréia do cineasta na direção de um longa, foi o último a ser exibido na mostra competitiva e terminou favorito, ganhando um total de sete prêmios no Festival de Brasília, anteontem.
Emocionado, Navarro chegou a cair do palco depois de receber os troféus de melhor roteiro e direção. Depois do susto, e de novo em pé, mal teve tempo de voltar à platéia e retornou ao palco para pegar o Candango de melhor filme, sob efusivos aplausos do público. “Vocês querem me matar? Eu estou em estado de graça, transbordando de alegria”, disse o diretor, acompanhado de parte do elenco e equipe de “Eu Me Lembro”, que também foi eleito o melhor filme pela crítica e ganhou os Candangos de melhor atriz (Arly Arnaud), ator e atriz coadjuvantes (Fernando Neves e Valderez Freitas Teixeira).
Premiado em Brasília em 1985 e 1986 com os curtas “Porta de Fogo” e “Lyn e Katazan”, e em 1989 em Gramado, com o média “SuperOutro”, considerado um cult, Navarro amargou um longo hiato em sua carreira. Em “Eu Me Lembro”, o diretor criou um diálogo entre sua vida e os anos de ditadura e de desbunde no Brasil, numa clave memorialista com algo de “Amarcord’’, de Fellini. No debate na manhã seguinte à exibição, Navarro salientou a “afetividade” de seu filme, criando um contraponto com o “racionalismo” de “O Veneno da Madrugada”, de Ruy Guerra. Grande expectativa do festival, o matemático exercício de narrativa ganhou apenas os Candangos de melhor direção de arte para Marcos Flaksman e fotografia para Walter Carvalho.
“À Margem do Concreto”, contundente documentário sobre os movimentos de ocupação dos sem-teto no centro de São Paulo, consagrou-se como favorito do público - teve a sessão mais ovacionada de todo o festival - com o prêmio do júri popular e ainda o prêmio especial do júri oficial e Candango de melhor som. No agradecimento, o diretor Evaldo Mocarzel louvou a poesia de Gustavo Acioli em “Incuráveis” (que levou Candango de melhor ator para Fernando Eiras), a emoção sincera de Roberto Bomtempo em “Depois Daquele Baile”, a radicalidade de Belmonte em “A Concepção”, e a maestria de Ruy Guerra.