“Eu nasci e me criei num lugar maravilhoso chamado Galiléia. Um povoado no município de Cajobi (SP), perto de Olímpia. Um lugar legal, aconchegante, todos eram amigos de todos. Tinha ali um amontoado de casas, uma venda (tipo de comércio da zona rural), próximo tinha um campo de futebol e quase todos os domingos tinha o tão esperado desafio, com quatro ou seis times. Naquele tempo, no sitio, as mulheres torciam por seus times e saíam algumas brigas, inclusive com sombrinhadas e tamancadas. Era realmente muito bom aquele pedaço de paraíso.
Ali, cerca de 10 a 12 Km passa o rio Turvo (aquele que passa pertinho de Guapiaçu) e margeando o rio, naquela região da Galiléia, existia algumas casas, inclusive algumas feitas de barro. Local que a gente chamava de Taperão. Numa dessas casas morava minha irmã mais velha, a Tata, casada com o Epaminondas, que nós carinhosamente chamávamos de Dondi, baiano bom, sujeito criado no mato, na beira do rio, onde andava no escuro e descalço, era um caboclo sertanejo.
Bem perto, conheci um senhor da raça negra, cujo nome não me lembro, mas nós o chamávamos de Mindoca. O Mindoca também foi nascido e criado na beira daquele rio e conhecia aquele mato mais que as palmas das mãos. Grande pescador e caçador, nosso companheiro nas Folias de Reis, andava durante o dia e à noite naqueles brejos, como se fosse na sala de sua casa, impressionante.
O rio Turvo, bem pertinho da casa do Dondi, fazia uma curva bem fechada, parecendo um cotovelo, que era chamada de ‘Curva da Onça’ (porque ali foi avistado várias vezes esse felino). Nós, o Dondi e eu, íamos sempre pescar nessa tal curva a gente ia de tardinha e nunca levamos nenhum tipo de iluminação (naquele tempo, década de 60, a gente só conhecia lamparina e lampião a querosene), mas nós não tínhamos medo.
Embrenhávamos no matagal, levávamos apenas uma vara de bambu cada um, uns pedaços de linha de nylon, alguns anzóis, duas ou três chumbadas e uma latinha com minhocas, e só saíamos depois das 22h com as fieiras cheias de belos bagres. Foi numa dessas pescarias que aconteceu o fato que narro a seguir:
Num belo sábado, peguei a espingarda e alguns cartuchos carregados do meu finado pai e parti para casa do Dondi e saímos para beira do rio. Escureceu rápido e a noite parecia breu. A gente não via nada, nem a ponta da vara. Coloquei a espingarda carregada atrás de mim, no barranco, porque para chegar no poço existia um declive manso, um barranco de mais ou menos uns 15 metros, todo cercado pelo mato, cipós e urtigas, era através daquela trilha que se chegava ao poço.
Pega um bagre, um mandi e de quando em quando eu ouvia o Dondi falar: ‘Tudo bem Piçoquinha?’ e eu respondia que sim (esse apelido eu nunca entendi, me parece que queria dizer minhoquinha). Lá pelas 10 da noite, escutamos um barulho de pisado nas folhas secas, que vinha subindo, margeando o rio, e o Dondi me falou: ‘Piçoquinha, prepara a espingarda que deve ser onça, você aponta para trilha e quando o barulho tiver na direção, você arrasta o dedo’. E assim eu fiz, peguei a espingarda e me coloquei em posição. Parece que por milagre o barulho cessou uns cinco metros antes da trilha e continuou uns cinco metros depois da trilha, seguindo adiante.
Bem, continuamos a pescaria e depois de uma meia hora resolvemos ir embora. Eu confesso que estava um pouco assustado, mas não apavorado. Chegamos na casa do Dondi e da Tata, limpamos os peixes, nos lavamos, tomamos uma cachaça, comemos e fomos dormir. No domingo, peguei o cavalo, arriei e voltei para Galiléia, onde à tarde teve aquele desafio de futebol. Estávamos todos ali assistindo o primeiro jogo quando alguém bateu no meu ombro e disse: ‘E aí pescador, pegou muito peixe ontem?’, quando me virei vi que era o Mindoca, sempre sorridente, que me contou o seguinte:
‘Ontem à noite eu fui ver uma armadilha de tatu e passei na curva da onça, percebi que você e seu cunhado estavam pescando, mas, com medo de levar um tiro, atravessei a trilha me arrastando, sem fazer barulho nenhum’. E ele tinha razão, porque mesmo que eu atirasse, os chumbos não o atingiriam devido à lombada que se formava no declive do barranco. Só mesmo o Mindoca para passar sozinho ali naquela hora da noite. Hoje, mais de 40 anos se passaram e eu tenho muita saudade de tudo aquilo. Saudades eternas do Dondi e do Mindoca, que já partiram e hoje moram com Deus.”
Ivo de Jesus Ribeiro, aposentado, pescador e contador de história (algumas verdadeiras) 4500 caracteres