08 de julho de 2026
Cultura

Moda em roupa velha

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

Uma roupa não é apenas um pano costurado. Carregada de significado, uma peça do vestuário simboliza ideologias, sentimentos e representações na sociedade. Pensando nisso, quatro estudantes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) decidiram realizar intervenções artísticas em roupas reutilizadas, como uma forma de expressão. O resultado são peças conceituais e únicas e, o melhor, a preços acessíveis.

Cansados de assistir à massificação da moda e à padronização dos comportamentos, os alunos viram no brechó uma oportunidade de resgatar algumas roupas e estampá-las. “A moda está inserida na lógica capitalista de consumo, em que o novo é sempre igual. Por isso trabalhamos com o que foi descartado pela sociedade nos brechós e, a partir disso, propomos um novo olhar tanto estético, quanto afetivo”, explica a estudante de biologia Juliana Tolosa Miranda.

Para a seleção das roupas, é feita uma triagem que tem como critério a qualidade do tecido, de preferência algodão para que a estampa não se danifique, a durabilidade da roupa, os cortes diferentes, as cores e o caimento. “Trabalhar com peças que já foram usadas é resgatar sentimentos e viajar pelo tempo e pelo espaço”, define a estudante de desenho industrial Ana Carolina Damiati, que aprecia a liberdade desse tipo de trabalho.

Os alunos se reúnem casualmente e juntos discutem textos e assuntos referentes à moda e à estamparia. A produção é livre e cada um tem noção de todo o processo. “O trabalho é importante porque é uma maneira de exercitar uma nova relação de trabalho sem subordinação e respaldado em valores como amizade e amor”, afirma Miranda, que almeja um dia poder se sustentar com a venda das roupas. “O ser humano é múltiplo e o fato de cursar biologia não significa que tenha que fazer apenas isso durante toda minha vida. Se pudesse viver dessa intervenção, eu viveria”, anseia.

Os primeiros passos para isso os alunos já deram. Neste ano, foram expostas algumas peças em um bazar na faculdade, além da participação de um evento no parque Vitória Régia. Nas duas ocasiões, as vendas corresponderam ao esperado e os estudantes foram convidados para ministrar uma oficina em Santo André. Atualmente, o dinheiro recebido pelo grupo é reinvestido na própria confecção das roupas, tornando o negócio auto-sustentável.

Made in Brazil

A produção dos alunos caiu nas graças do Tio Sam. Solange Rizzo de Andrade, residente nos Estados Unidos e uma das que iniciaram o projeto do brechó (leia mais abaixo), propôs vender algumas peças customizadas pelos universitários em uma loja do país. Os alunos então iniciaram discussões e montaram uma mini coleção com 15 peças, enviada para o exterior em agosto.

No conjunto, foram feitas estampas que exploram brasilidades, como a mulata e o samba, além de malhas que criticam a atuação do país em relação à poluição do meio ambiente e à ocupação do Haiti. “Como eles adoram bombas, fizemos um terrorismo estético”, brinca Miranda.

Para a ocasião, o grupo desenvolveu etiquetas especiais que contavam um pouco da história de cada roupa e do brechó de origem. Em cada peça, os estudantes estamparam uma flor de lis, imagem que se tornou uma identidade do trabalho do grupo. “Nós nunca discutimos sobre o uso da flor, ela simplesmente apareceu para nós em um dia que fizemos uma festa em casa e, assim, foi ficando”, conta Damiati. A coleção foi um sucesso de vendas.

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Mão na massa

O processo de estamparia é complexo e demanda tempo e criatividade. O primeiro passo consiste em selecionar imagens ou fotos e sampleá-las, ou seja, fazer uma apropriação dessa figura para reprodução. A partir disso, as imagens são trabalhadas em computador e reproduzidas. O resultado é impresso em folha sulfite e recortado, e o papel vazado é colocado sobre o tecido. Pode ser usada uma máscara ou várias, dependendo da quantidade de cores da estampa. O último passo é secar a peça com um secador.

Todo essa técnica é denominada de stencil, a forma mais rudimentar de fazer um molde, que tem como únicas exigências imagens bidimensionais e com cores sólidas.

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Como tudo começou

A possibilidade de estampar as peças exigiu um longo trabalho começado por outros estudantes da Unesp. Vários alunos da universidade desenvolveram um projeto de extensão, denominado Cipó, em 2002. O objetivo era levar cultura a bairros carentes da cidade.

Para isso, o grupo chegou a alugar uma casa no Jardim Redentor para que o local se tornasse um centro de cultura, foi montada uma mini biblioteca e um brechó, com roupas e livros doados. O projeto não vingou por falta de recursos e o destino do material acabou sendo a república Casarão, local onde uma das alunas, Solange Rizzo de Andrade, morava.

Com a conclusão do curso da estudante e com a vinda dos novos moradores, o projeto foi passado adiante, mas com uma novidade. Ao invés de apenas comercializarem as peças, os universitários começaram a realizar intervenções artísticas. Atualmente, residem na república cinco pessoas, sendo que duas delas (Pedro Yoshio Moryiama Júnior e Ana Carolina Damiati) desenvolvem o projeto de estamparia, em conjunto com as “agregadas” Juliana Tolosa Miranda e Rafaela Tasca. Mais informações sobre o trabalho do grupo podem ser obtidas no telefone: (14) 3223-4542.