Viemos aqui de público manifestar o nosso repúdio e indignação à grave afronta sofrida pelo nosso povo em matéria veiculada pela Tribuna do Leitor, no dia 21 de novembro deste ano, na epígrafe “Questão indígena”, referindo-se à matéria do JC do dia 17/11/05 “Índios ocupam a Funai de Bauru”. Queremos dizer a esse senhor, que falou em nome dos negros e quilombolas fazendo essa infeliz comparação, que somos sabedores de que a sua opinião não representa o pensamento do povo negro e dos quilombolas.
Portanto, não haverá guerra racial, pois já basta o que vemos na França. Conhecemos o pensamento negro, quilombolas e afro-descendentes, pois já estivemos reunidos em Brasília por diversas vezes, quando das preparatórias para a conferência de Durbin na África do Sul e lá pudemos nos solidarizar com as lutas desses povos, que, assim como os índios, foram sacrificados para que esse País tivesse um lugar ao sol. Das tristezas do passado, podemos contemplar que valeu a pena, pois, hoje, vivemos num País de várias etnias e multirracial, com uma diversidade cultural rica e única no mundo, vivendo em paz e harmonia. Cumpre-nos dizer que você está na contramão e desatualizado. Pode-se perceber, por suas próprias palavras, que tem uma mente vazia e um coração maldoso e cheio de rancor. Se vamos à Funai, vamos protestar por uma questão de direito, concedido a todos os brasileiros pela nossa magna Constituição Federal: a “livre expressão e manifestação de forma pacífica”. Assim como os sem-terra fazem as suas manifestações ou as esposas de oficiais se manifestam em frente ao Palácio do Planalto. Este é o País onde a democracia foi construída com sacrifício e sangue de negros, índios, holandeses e portugueses
Quanto a sermos pessoas comuns, trajando roupas de melhor estilo, cumpre-nos dizer que, ao contrário do que o senhor pensa, não nos ofende. É motivo de orgulho sermos assim reconhecidos, pois demonstra que superamos o tempo em que as mentes poluídas taxavam-nos de bêbados, preguiçosos e aculturados. Quanto a reivindicar tratamento especial, não era essa a pauta em discussão naquele momento, pois, como é óbvio que o senhor não sabe, isso já ocorreu em 1912 pelo saudoso marechal Cândido Rondon. Ele, ao ver que dos 10 milhões de indígenas que povoavam os sertões brasileiros restavam apenas 250 mil algo precisaria ser feito. Foi, então, criado o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), que perdurou até 1973, quando foi extinto e substituído pela Funai e aprovada então a lei 6001/73, cujo tema oficial era tutelar e, gradativamente, integrar a comunhão nacional. Porém, como se pode ver, as tentativas de nos tornar um cidadão integrado à comunhão nacional, como previra a lei, fracassou. Ela volta novamente à baila: “eu posso ser o que você é sem deixar de ser o que sou”, índio guarani, terena, kaingang, krenak, fazendo vestibular, cursando faculdade, mas com um diferencial, esse sim faz a diferença e é isso que precisa ser dito.
A língua que eu falo, o cocar que uso, a pintura corporal, essa me faz ser diferente e o sou. Não por opção, porque nasci assim, assim vivo e assim morrerei. A lei não conseguiu nos tirar isso. Muitas vezes, fomos maltratados e humilhados em nossas aldeias pelos professores enviados na época da ditadura militar, quando as reservas indígenas eram administradas por oficiais do Éxército. Se uma criança falava o seu idioma, era passado sabão na sua boca como castigo. No entanto, resistimos e, em pleno século 21, no Estado mais desenvolvido da Nação, exibimos como troféu a nossa cultura, cânticos e danças mais vivos do que nunca, sobreviventes dos mais horrendos genocídios culturais praticados contra um povo. Quanto a ficar no Estado mais rico da Nação, quero dizer-lhe que não somos emigrantes. Não estamos aqui porque escolhemos este entre os demais Estados. Antes que se chamasse Estado e tivesse o nome de São Paulo, nós já estávamos aqui. Acolhemos os desbravadores, os ensinamos a sobreviverem às adversidades da selva e, quando os encontramos feridos ou doentes, os nossos pajés os trataram e curaram. Daí o reconhecimento de muitas cidades levarem o nome indígena, porque cedemos-lhes o espaço físico necessário para a construção de vilas e povoados que hoje são prósperas cidades. Graças à bravura e à coragem desses colonizadores chegamos a ser hoje o Estado mais rico da Nação. E por que, agora, deveríamos abandonar o nosso solo pátrio? Ora, os incomodados que se retirem.
Cassiano Iun - cacique Aldeia Kopenoty; Benedito Maria - assessor especial para assuntos indígenas da Prefeitura de Avaí; Paulo Roberto Sebastião - índio terena e vereador do município de Avaí