A Alemanha ganhou o direito de organizar a próxima Copa do Mundo de futebol há seis anos, depois de uma votação polêmica, na qual participaram membros do comitê executivo da Fifa. Levou a melhor sobre a favorita África do Sul, que contava com a simpatia e o voto de desempate do presidente da Fifa, Joseph Blatter e por apenas um voto. Isso só aconteceu graças à desistência do neozelandês Charles Dempsey, delegado da Confederação de Futebol da Oceânia, que absteve-se de votar em circunstâncias que não foram esclarecidas até hoje. Ele declarou ter sofrido pressões insuportáveis antes de votar, mas nunca explicou direito a história. Na época, correram rumores de que delegados que participaram do processo de escolha do país-sede teriam recebido suborno, mas esta oferta não foi comprovada.
O fato é que desde que foram oficialmente escolhidos, os alemães não pouparam dinheiro para organizar um evento para fazer jus à fama que eles têm de perfeccionismo. Só com a construção e reforma dos 12 estádios que serão utilizados na competição, hoje entre os mais modernos do planeta, foram gastos 1,5 bilhões de euro. Entre eles está o Olímpico de Berlim, palco dos Jogos em 1936 e onde serão disputados seis partidas, entre as quais a final. Foi ali que o atleta americano Jesse Owens, negro, conquistou quatro medalhas de ouro diante de um perplexo Adolf Hitler, que defendia a supremacia da raça ariana. Para deixá-lo novo em folha foram consumidos 242 milhões de euro. Outro estádio olímpico, o de Munique, palco da final da Copa de 1974, entre a Alemanha de Beckenbauer e a Holanda de Cruyff foi simplesmente descartado da próxima copa. Desta vez a capital bávara terá seus jogos no moderníssimo Allianz-Arena, inaugurado no ano passado e que custou 280 milhões de euro.
Na safra de novos estádios, há também a Arena Auf Schalke, em Gelsenkirchen, com capacidade para 53.804 pessoas, na qual o teto é retrátil e o gramado pode ser retirado para o exterior, permitindo que se a realização até de rali de automóveis em suas dependências. Nuremberg, e Kaiserslautern, que não sediaram partidas há 32 anos desta vez terão jogos. Em compensação, Dusseldorf, cidade-sede em 1974 desta vez ficará de fora.
Uma outra montanha de dinheiro foi investida para deixar ainda mais eficiente estradas e ferrovias que já estavam entre as melhores do mundo. Leipzig, a cidade onde foi realizado o sorteio que definiu os adversários do Brasil, foi drasticamente reformada e chegará à Copa do Mundo com contornos bem diferentes dos que tinha nos tempos da Alemanha Oriental. Berlim, a própria capital do país e uma das cidades européias que mais se transformaram nos últmos 15 anos, teve de conviver durante meses com com imensos guindastes, tratores e tapumes fazendo parte da paisagem de cartões postais como o Portão de Brandenburgo.
Tudo isso gerou empregos, trará turistas às cidades, mas os próprios organizadores acham difícil que as contas saiam do vermelho. “Estaremos muito contentes se conseguirmos perder pouco dinheiro na hora de prestar contas”, diz um membro do Comitê Organizador, que é chefiado por Franz Beckenbauer. Uma parte dos recursos veio da Fifa, que repassou 170 milhões de euros ao comitê organizador, mas também um caderno de encargos para lá de rígido.
Para começar, os patrocinadores oficiais da Copa deveriam ser os de escolha dela. Assim, em uma terra que conta com marcas de automóveis dos sonhos, como Mercedes-Benz, BMW e Audi, quem terá direito de fazer propaganda com o evento será a coreana Hyundai. O mesmo vale para a companhia aérea oficial, que será a árabe Emirates e não a Lufthansa. Isso criou situações constrangedoras. Na terra de uma das melhores cervejas do planeta, será a norte-americana Budweiser quem fará propaganda durante os jogos, E em vez da salsicha bratwurst, os estádios servirão lanches McDonald’s.
“Há regras que soam como uma piada de mal gosto”, disse um membro de um comitê organizador de uma das 12 cidades. Ele conta que, em Nurenberg, a gigante Philips implicou com o painel publicitário da fabricante de televisores alemã Grundig a poucos metros do Franken-Stadion, o estádio local.
“Apesar de fazer parte da paisagem da cidade, o painel foi salvo porque estava a míseros metros do limite de intervenção da Fifa, senão teria de ser retirado”, conta ele. No entanto, a medida atringiu em cheio a AOL-Arena, em Hamburgo. patrocinada pelo provedor de acesspo e conteúdo da internet, ela terá de mudar de nome durante os eventos oficiais da Copa, apoiada por um concorrente, o Yahoo.
*De Leipzig, especial para o JC