07 de julho de 2026
Ser

Fazer devagar com máximo prazer

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Segunda-feira agitada, hora do almoço e restaurantes lotados de pessoas comendo depressa para voltar ao trabalho. Embora seja comum nas grandes e pequenas cidades, esse “roteiro” vem perdendo muitos adeptos que, na contramão dos fast-foods, estão aderindo ao slow food.

Criada no final dos anos 80, na Itália, essa corrente defende alimentos mais saudáveis, priorizando produtos naturais e, principalmente, realizando refeições de forma devagar.

Inspirando-se na gastronomia, a arte de parar e saborear está ganhando contornos comportamentais e unindo diversas pessoas ao slow movement, ou movimento do devagar.

A idéia principal é incentivar a qualidade de vida, valorizando e degustando de forma especial cada momento do cotidiano. De acordo com a psicanalista Fumiko Nakano, o estilo de vida slow pode ser comparado ao comportamento de uma criança.

“A criança não fala do futuro ou do passado, ela está de uma maneira intensa no presente. A idéia do slow movement não é nada mais do que isso. Se a pessoa não está correndo por meio de pensamentos, agindo como máquinas ou fazendo mil coisas ao mesmo tempo, está curtindo o presente”, diz Nakano.

Desacelerar, porém, não é uma atitude simples e fácil de ser adotada. A psicanalista explica que a síndrome da pressa é resultado da modernidade e da globalização. “O mundo tende a focar a trajetória de forma linear, incentivando a pessoa para seguir sempre em frente: subir na carreira, ter dinheiro e realização profissional. E para chegar onde? A questão é essa”, observa.

Essa busca alucinante, aponta ela, é evidenciada pelo avanço tecnológico e a praticidade que ele proporciona às pessoas. “Hoje tudo é facilitado: há celulares, portas automáticas e parece ser necessário se adequar ao ritmo. É preciso ignorar um pouco essas coisas; quanto mais ‘mecanizamos’, mais estamos correndo e perdendo o contato consigo mesmo”, aponta.

Novos hábitos

A dona de casa Joana Cardoso, 29 anos, tirou o pé do freio antes que ele pifasse e acabasse com suas energias. Morando em São Paulo, ela acordava cedo para trabalhar e só voltava à noite. No meio da agitação, almoçava em lanchonetes ou restaurantes fast-foods.

Seu marido, Gonçalo Barbosa, seguia a mesma rotina. Os filhos do casal, Jane e Joseph Cardoso Barbosa, reclamavam constantemente do barulho e da poluição. Para fugir da correria, a família decidiu mudar-se para Bauru, conta Cardoso.

“Agora vivemos em uma cidade mais calma e tranqüila. Em São Paulo, além do corre-corre do trabalho, eu tinha muita dor de cabeça e ficava sempre gripada. Meu marido também vivia reclamando de cansaço no corpo e desânimo”, diz a dona de casa.

Feliz com o novo lar, ela revela que os problemas de saúde melhoraram e a família adquiriu novos hábitos, como dormir mais cedo e fazer refeições naturais, na maioria das vezes, reunindo todos à mesa.

Além disso, o casal ganhou mais tempo para ficar com os filhos. “Antes não tínhamos muito tempo para o lazer, geralmente só restava sábado à noite, mas na Capital é difícil porque chove muito e às vezes íamos apenas em uma padaria ou panificadora próxima”, diz Cardoso.

Prioridades

Também adepta a “slow movement” bancária Tânia Christina Sotero, 41 anos, faz questão de organizar seu cotidiano para curtir a família. Embora trabalhe o dia todo, ela não abre da hora do almoço para brincar com o filho. “Já trabalhei muitos anos sem almoçar em casa, mas tenho um filho de 7 anos e aproveito a hora do almoço, mesmo que seja corrido, para compensar o tempo que fico sem estar com ele”, diz ela, que além de cuidar da casa, também estuda à noite.

A agenda cheia, porém, não é sinônimo de agitação, aponta Sotero. “A necessidade de se fazer muitas coisas ao mesmo tempo vem da necessidade do mundo em que vivemos hoje. A mulher, por exemplo, tem que ser uma boa profissional, atualizada no trabalho, saber o que está acontecendo no mundo, ser uma boa esposa, estar com o corpo em forma, cuidar da sua família e dos filhos, mas não dá tempo para fazer tudo isso”, observa.

“O importante é começar a peneirar e colocar tudo na balança, fazendo uma reflexão do que realmente vale a pena. No me caso, é ter tempo para as pessoas que estão à minha volta: família, amigos e para mim”, reforça Sotero.

“Tirar o pé do acelerador” e ter melhor qualidade de vida não exige, necessariamente, grandes mudanças. Para viver bem, aponta Nakano, basta ficar atento aos sentimentos e sensações, valorizando somente o momento presente. Para quem vive a mil por hora, uma das receitas mais eficazes é praticar meditação, explica a psicanalista.

“Meditar é estar quieto e bem acordado. Basta fechar os olhos para sentir o frio do ar e o barulho dos carros, por exemplo. Isso significa nada mais do que estar isolando do pensamento”, diz Nakano.

Fazer caminhadas e comer de forma ritualizada, procurando cozinhar em casa e ingerir alimentos naturais, também ajudam, sugere a psicanalista. Cuidar do corpo e da mente é ótimo, mas é preciso não adotar essas atitudes de forma automática. É fundamental pensar e refletir para que as mudanças sejam incorporadas de forma efetiva”, salienta.