A proposta de ampliação do ensino fundamental de oito para nove anos, com a obrigatoriedade da matrícula aos 6 anos – a lei atual estabelece como idade obrigatória 7 anos - está gerando polêmica entre pais, alunos, professores e representantes da sociedade. Se por um lado a medida visa uniformizar o sistema de educação básica no Brasil, por outro é motivo de alerta para especialistas na área, preocupados com a qualidade de ensino e em como a antecipação da alfabetização será realizada.
A psicopedagoga especializada em leitura e educação Maria da Glória Lopes defende que é fundamental estabelecer uma estrutura adequada para que o aluno de 6 anos seja alfabetizado no ensino fundamental.
“Os primeiros anos são os mais importantes da vida escolar de uma pessoa. Se ficarem lacunas na alfabetização, elas serão arrastadas para o resto da escolaridade”, explica ela. “O período é extremamente importante, requer muito cuidado e atenção”, reforça.
De acordo com Lopes, a alfabetização é resultado de uma boa formação no ensino infantil. “Se a criança tiver uma pré-escola adequada, não precisa de nove anos de ensino fundamental”, diz. “A lei não pode agir de forma isolada porque não é a quantidade de anos que vai mudar alguma coisa. Em outros países existe escolaridade obrigatória no ensino fundamental aos 6 anos, só que juntamente com qualidade”, defende ela.
A psicopedagoga explica que a alfabetização não ocorre de um ano para outro e está atrelada ao processo individual de cada aluno. “Dependendo do que a criança vivenciou, isso pode ser benéfico ou não. Eu insisto na qualidade. Essa lei deve estar articulada com outras ações, principalmente levando-se em consideração a qualidade de ensino e o que vai ser oferecido a essa criança”, reforça.
A dona de casa Carmem Cardoso concorda com a psicopedagoga. Mãe de Isabel Cristina Cardoso Antoniansa, 10 anos, e Alex Fernandes Antoniansa, 8 anos, ela conta que apesar de receberem a mesma educação, seus dois filhos têm comportamentos diferentes em sala de aula.
Enquanto o menino é mais agitado, revela Carmem, a garota é mais estudiosa. “Em casa, com 6 anos, a Isabel já sabia ler e escrever. Não é o caso do Alex, que não estava preparado com essa idade”, diz.
“Ao invés do governo criar mais um ano no ensino fundamental, deve investir em qualidade de ensino. Há escolas muito boas em Bauru e outras que não investem em seus alunos”, cobra a dona de casa.
Investimento
A cirurgiã dentista Maria Fernanda Pires, mãe de duas filhas de 15 e 21 anos, é a favor da ampliação do ensino fundamental, mas somente se houver maior investimento público na educação. “Não acho cedo a idade de 6 anos se o Estado e o governo melhorarem a infra-estrutura e o método de estudo. Nesse caso, a proposta é ótima”, ressalta.
A faxineira Marcia Martins dos Santos, discorda de Pires. “A criança já tem que fazer a pré-escola. Às vezes o adulto quer que o filho termine os estudos logo, mas a criança se cansa rápido”, diz. “Entrar na primeira série com 6 anos é forçar demais, as crianças estão muito novas. Elas não estão preparadas e freqüentar o parquinho já é puxado. Acho que o correto é fazer a pré-escola e só depois ir para o ensino fundamental”, aponta.
Brincadeiras
De acordo com Lopes, uma das principais ações para garantir qualidade no ensino fundamental é apostar em programas para capacitação de professores e oferecer condições básicas de aprendizagem.
Outra alternativa eficaz é aliar aprendizagem e brincadeiras, aponta a psicopedagoga. “A passagem do ensino infantil para o fundamental precisa ser gradativa. A criança precisa brincar e o brinquedo para ela é coisa séria. Não adianta deixar a criança de 6 anos sentada o tempo todo na carteira; brincando, o aluno está aprendendo”, diz.
O arte educador ambiental Guilherme dos Reis Pereira, o tio Gui, segue a mesma linha de pensamento de Lopes. “Hoje há crianças com 4 ou 5 anos alfabetizadas. Falta brincadeira. A escola quer torná-las mais adultas o mais rápido possível, o que pode ser muito prejudicial. Aos 6 e 7 anos, a crianças vivenciam a idade de descoberta e brincadeira”, aponta.
Tio Gui ressalta que o brinquedo faz “digerir a informação” e é peça fundamental no processo de aprendizagem. “O que adianta colocar mais uma série e manter a mesma estrutura de ensino? Acho valioso se o que for abordado nesse ano a mais for ligado a desenvolvimento pessoal e de habilidades”, diz.
“Por exemplo, todos os anos as crianças teriam uma matéria só para fazer brinquedos, aí sim é preciso aumentar uma série para colocar uma carga disponível para a criança”, detalha o arte educador.
A idéia de Tio Gui agrada grande parte do público infantil, caso de Isabel Antoniansa. “Acho cedo entrar com 6 anos na primeira série. Eu gosto de aprender e também gosto de brincar”, diz.
Raissa Rodrigues de Almeida, 11 anos, concorda. “É cedo entrar na escola com 6 anos. Acho que a criança tem que brincar. Eu gosto de brincar”, diz.