09 de julho de 2026
Articulistas

Caminhos da sucessão


| Tempo de leitura: 3 min

Chega ao fim 2005. Vai deixar marcas indeléveis em nossa história. Mas a agonia vai se prolongar até as eleições de 2006. As eleições porão fim ao ciclo sofrido da política nacional. O debate nacional desloca-se para as eleições. As atenções se concentram nos acertos dos candidatos com seus partidos para negociarem as alianças nacionais e regionais.

O PSDB dá rédeas soltas à candidatura de Geraldo Alckmin. O PFL, aliado tácito do PSDB, olha com olho gordo os governos do Estado e da Prefeitura de São Paulo, onde estão comodamente sentados os vices do PFL Nos últimos dias, marotamente, valoriza o passe falando em candidatura própria. O PMDB continua dividido. O grupo mais fisiológico abandona o governo Lula. Grupos regionais defendem candidatura própria. Ao lado de Garotinho, surgem as candidaturas mais conseqüentes de Germano Rigotto e Roberto Requião. A cabeça de alguns aventureiros incensa até a candidatura de Nélson Jobim.

Mas ninguém de bom senso pode pensar em sensibilizar milhões de eleitores da mãe pátria sem propostas consistentes para gerenciar o país. Gato escaldado tem medo de água fria. Falar com os eleitores não vai ser tarefa fácil. Discursos bem calibrados só brotarão a partir de uma visão clara de como enfrentar os problemas nacionais. Os artifícios da marquetagem e da empulhação - Lula/Zé Dirceu/Duda Mendonça - deixaram o eleitorado bem escolado...

Lula não é capaz de pleitear a reeleição. A tábua de salvação da política econômica, para sensibilizar as elites, dá com os burros n’água. As comissões de investigação não vão dar folga. Começam a desvendar os núcleos estratégicos das falcatruas. O pânico do governo assume proporções alarmantes. Jânio de Freitas acerta na mosca: “Os fatores negativos fecham o círculo. Lula não demonstra ter resposta para nenhum deles, muito menos para o todo. Mantém-se nos seus discursos de autolouvações e promessas que os fatos, nos três anos de governo, tornaram ineficazes. Há sinais de que está irrequieto, irritado, inseguro das suas e das perspectivas do governo. Perceba ou não, é nesta hora crucial que Lula está.” No mato sem cachorro...

Propostas para o país vão ser essenciais nas eleições de 2006. Dora Kramer é rigorosa quando exige discurso consistente da oposição: “Para sorte de Lula, porém, não há sinal de vida eleitoralmente inteligente na oposição.

Ocupados em surfar na onda da crise, os oposicionistas freqüentam as pesquisas de opinião com nomes de destaque, mas ainda não apresentaram um argumento forte nem uma linha de raciocínio impactante o suficiente para justificar sua pretensão de voltar ao poder a partir de janeiro de 2007”. Todo mundo sabe que não basta a “descontrução” da imagem de Lula, as vitórias de Fernando Henrique estavam ancoradas na estabilidade econômica.

Tasso Jereissati deu dicas quando assumiu a presidência do PSDB. “Enfrentamos o maior desafio que foi a inflação. Mas esses projetos se esgotaram e os desafios são novos. Na economia é o crescimento, como enfrentar a questão do ajuste fiscal com crescimento e maior distribuição de renda. Não temos a fórmula, mas temos propostas. No passado fomos à universidade e apareceram André Lara Resende, Përsio Arida, Gustavo Franco, Edmar Bacha, Elena Landau, que fizeram o Plano Real. Queremos repetir isso com idéias novas.” Desarmar a grande armadilha econômica vai ser a responsabilidade do novo governo: “A relação entre taxa de câmbio, dívida interna elevada, taxas de juros altas e controle da inflação, que nos condena a taxas de crescimento medíocres e desemprego estabilizado em nível elevado”. A mesma turminha do Plano Real vem meditando sobre o futuro: “A questão crítica para o desenvolvimento é como criar o mercado de crédito em longo prazo em reais e dentro do país”.

Ninguém vai deixar de surfar na onda dos desacertos petistas. Faz parte do jogo político. Mas vai ser preciso pegar as boas ondas das reformas necessárias e urgentes e traduzir tudo isso para milhões de eleitores? (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)