10 de julho de 2026
Cultura

Rock de Barra Bonita para o Brasil

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

Quem pensa que as grandes oportunidades para músicos do bom e velho rock’n’roll estão restritas apenas aos grandes centros do País, engana-se muito. Prova disso é o sucesso do Rotor, grupo de Barra Bonita (56 quilômetros de Bauru) que após quatro anos na estrada, fechou contrato com a gravadora EMI e lançou, em setembro, o CD “Por que os Leões do Circo Não se Revoltam?”, com músicas totalmente autorais. Além disso, o grupo gravou o videoclipe “Num Dia Ele Acordou” há uma semana, com locações em Barra Bonita e em São Paulo. O vídeo entra na grade de programação da MTV em janeiro.

Mesmo com o acesso ao “mainstream” do mundo fonográfico, a banda tem como ideal a auto-produção. “Nós corremos atrás de tudo, porque só assim conseguimos um produto da forma como pensamos”, justifica o guitarrista e tecladista da banda, Bruno Brau, que é acompanhado por Gui Mucare no vocal e na guitarra, Flávio Horse no baixo e Eli Maciel na bateria.

Antes da gravação oficial, em dois dias, os quatro músicas escalaram amigos, reuniram equipamento e gravaram um demo do clipe em Barra Bonita, que pode ser conferido no site www. rotoronline.com.br. O resultado agradou tanto a gravadora que o piloto foi indicado ao diretor Afonso Poyart, da produtora Black Maria e ganhador do prêmio do Júri Popular no Festival de Cinema de Gramado 2005 pelo curta “Eu te Darei o Céu”, que aderiu ao projeto. “Nós adoramos a música e a filmagem dos rapazes. Nosso objetivo é roteirizar em cima das idéias da banda”, afirma o co-diretor Renzo Vasquez, que veio especialmente a Barra Bonita para a gravação.

A música “Num Dia Ele Acordou” narra a história de um homem que, atormentado pelos valores impostos pela sociedade, decide se matar. Momentos antes, o personagem vislumbra uma nova oportunidade de recomeçar e decide mudar sua vida por completo.

No vídeo, o personagem principal corre incessantemente, transmitindo o despertar da música. “Fizemos de uma maneira improvisada, com liberdade dos ângulos, para dar a sensação de mudança e transformação pela qual passa o protagonista”, explica Vasquez.

Dia D

As filmagens ocorreram em Barra Bonita há uma semana, acompanhadas pela equipe do JC Cultura, e prosseguiram em São Paulo. “Queríamos mostrar nossa cidade e a galera que sempre esteve ao nosso lado, mas também tivemos que fazer algumas locações em São Paulo para transmitir o ambiente cosmopolita que a música pede”, conta Brau. O clima durante as filmagens foi de total descontração. Nos bastidores e à frente das câmeras, parentes e amigos torciam e se divertiam com os rapazes.

O mau tempo não desanimou os envolvidos que, mesmo sob chuva, gravaram as cenas, que tiveram como cenário um escritório, a casa de um dos músicos e a ponte que corta o rio Tietê, além do porto de areia Rancho Alegre, que também foi locação para as fotos do encarte do CD e para as filmagens do piloto do vídeo. “Nós vamos para a MTV, mas não vamos sozinhos. A galera da Barra vai com a gente”, conta Brau.

O ator principal do clipe foi Wander B., parceiro do Rotor e vocalista da banda Gritos e Sussurros. “Quando o pessoal bolou o roteiro, eles acharam que eu tinha o perfil do suicida. E eu tenho mesmo”, brinca Wander. Para as gravações, o músico, que tem verdadeiro pânico de altura e água, encarou mergulhar em uma piscina e subir em uma ponte. “Agora só falta eu andar de bicicleta, que é uma coisa que eu também não sei”, diz o artista que, mesmo assim, não se lamenta. “Foi superlegal, ainda mais porque acredito no potencial artístico dos caras, assim como eles valorizam o meu”, enfatiza.

Para adultos

O nome da banda já diz a que vieram os músicos. Rotor vem de rotato, que em latim significa mutação. “Nós compomos o disco de acordo com o que estamos vivendo. Por isso, nos desprendemos de fórmulas radiofônicas porque nossa alma pede isso”, afirma Brau. Um exemplo dessa ideologia é a primeira música de trabalho, “Num Dia Ele Acordou”, que não repete os versos e é relativamente longa, cerca de cinco minutos de duração.

Com influências do rock britânico e nacional, a composição é um casamento harmonioso de letra e melodia. O som da banda difere-se de bobagens comuns no rock brasileiro atual e aproxima-se mais de bons artistas internacionais, como Strokes e Kings of Leon, no peso das guitarras, e Oasis, Maniac Street Preachers e U2, nas melodias.

A gravação do disco seguiu o mesmo processo do videoclipe. As 11 faixas foram gravadas inicialmente pelos próprios músicos em um estúdio da Barra e mandadas para a EMI, sem que a gravadora soubesse que a banda era do Interior. “Pensávamos que haveria um certo preconceito se disséssemos que somos do Interior”, relembra Brau.

Todas as músicas abordam de forma crítica os relacionamentos humanos, como a música “Por Que os Leões do Circo Não Se Revoltam?”, que dá nome ao CD e questiona a atual acomodação das pessoas em relação à política, à economia e aos valores atuais. “Todo mundo está acostumado a seguir regras sem pensar”, lamenta Brau. Com exceção dessa faixa, os títulos das outras dez músicas são sempre a primeira frase da letra, um recurso para fugir da tarefa de dar nomes, não apreciada por nenhum dos músicos.