08 de julho de 2026
Nacional

O mesmo Roberto

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Apesar de abandonar o velho tênis e a calça desbotada, Roberto Carlos ainda chama de querida a amada. É essa a tônica do disco que chega às lojas no final de semana, batizado - pela 34.ª vez em 40 anos de carreira - apenas com o nome do “Rei”. Em 61 discos lançados, já foi dito que Roberto Carlos andou se repetindo. Em “Roberto Carlos”, o cantor repete os outros. O disco traz oito releituras e apenas uma canção inédita. “Arrasta uma Cadeira”, gravada com Chitãozinho & Xororó depois de 14 anos de vaivéns, é a única novidade do cantor, que disse ter passado o ano inteiro sem compor nada.

Mesmo assim, Roberto registrou números astronômicos de venda em 2005. Segundo a gravadora Sony & BMG, já foram vendidos no país 80 mil exemplares dos quatro boxes com as músicas dos anos 1960 a 90. Isso significa um recorde absoluto de 820 mil discos.

Na apresentação de seu novo trabalho, realizada anteontem no hotel Copacabana Palace, Roberto Carlos defendeu a opção que domina no novo disco. “A música sertaneja ou country, que é a mesma coisa, é boa, de qualidade, interessante, espirituosa e chega ao público. Os cantores são bons, as letras são românticas, e as interpretações, de alta qualidade”, disse ele.

“A idéia era escolher músicas que nunca tinha gravado em um disco mais movimentado, mais dinâmico. Quando voltei a esse disco (depois de gravar três álbuns no período), comecei a escolher músicas já gravadas”, diz. Roberto, assumidamente portador de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), comenta que as regravações nada têm a ver com suas manias.

Entre as músicas que selecionou para o CD, o cantor colocou duas de 1966: “Promessa”, lançada por Wanderley Cardoso e que só agora ganhou uma versão de Roberto, e “A Volta”, sucesso dos Vips que entrou na trilha sonora da novela “América”, da Rede Globo. Outros trabalhos que se destacaram na TV e encontraram espaço no disco são a guarânia (gênero paraguaio) “Índia”, um dos temas de “Alma Gêmea”, e “Coração Sertanejo”, que, em 1996, estrelou em “O Rei do Gado”.

Ao comentar a presença de “Meu Pequeno Cachoeiro”, lançada no álbum de 1970, Roberto explicou: “Ela foi originalmente gravada em três canais, e tive vontade de fazê-la com os cerca de cem que existem hoje para lhe dar mais qualidade”. Encerram a lista “Amor É Mais”, de 2000, e “ Baile da Fazenda”, de 1998. Esta traz o acordeom de Dominguinhos.

A faixa nove de “Roberto Carlos 2005” é a surpresa do disco. Voltando ao rock, o cantor interpreta em inglês “Loving You”, de Elvis Presley. “Todo fã de Elvis quer fazer uma versão dele, só que o som das palavras em inglês está muito associado à melodia e aos refrões. O sentido da letra, também. Tudo isso torna o trabalho muito difícil”, explica. “Cheguei a pedir a outros cantores uma versão de ‘Loving You’, mas ninguém me apresentou nenhuma. Com a pressão de Guto Graça Mello (produtor), gravei em inglês e, depois de ver que a pronúncia não tinha ficado das piores, deixei lá”, conta.

Na capa do CD, que passou cinco anos engavetado, vê-se um Roberto sério e de camiseta azul, “afinal ninguém maromba (faz ginástica) para vestir um casacão”, brincou. Roberto confirmou que fará um show com o tenor italiano Luciano Pavarotti. Outro dueto deve sair com o também italiano Andrea Bocelli, que pediu a Roberto que colocasse sua voz (em italiano) na música “Sentado à Beira do Caminho”.

O Roberto que aos poucos muda o visual não deixa nunca de falar da mulher Maria Rita, morta em 1999. A relação com o amor perdido está nas nove gravações do novo disco - mesmo em faixas concebidas antes de o cantor encontrar a amada. “(Maria Rita) é a maior visão de amor que encontrei na minha vida”, diz o “Rei”, ao justificar as referências.

Regravar, confessa Roberto, nada tem a ver com o que ele já produziu em seus 45 anos de carreira. “Neste disco, saio pouco do meu estilo”, afirmou ao apresentar o novo álbum. Assim, parece que a mania de novas versões felizmente não vai durar.

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Crítica

O disco country-pop do Rei ficou só na intenção. No lugar dele, veio um álbum parecido com quase tudo o que Roberto Carlos gravou nas últimas duas décadas. Em vez de ritmo, sobram lamentações que mais uma vez remetem ao amor por Maria Rita.

Roberto Carlos usa a amada como subterfúgio nas letras das nove canções, mesmo naquelas gravadas antes que o músico pensasse em conhecer seu amor - como “Promessa” e “A Volta”, compostas por ele e Erasmo Carlos há quatro décadas. Ao abandonar esse legado, já nas faixas finais, Roberto volta a ser o grande cantor que é: em “Índia”, em que ele abusa da voz para arrancar arrepios; e em “Loving You”, quando o nosso Rei brinca de ser outro rei, Elvis Presley.