Ao desavisado leitor, o título pode sugerir a repaginação do velho King Kong pelo genial Peter Jackson. Não se trata do filme, mas o que este artigo sugere, sem o talento do cineasta, é revisitar a bela e a fera, os ricos e os pobres, os desenvolvidos e os subjugados. Aos leitores desmemoriados, ele pode levar a Hong Kong, antigo belo enclave e colônia britânica, onde o “no trespassing” valia como ponto além do qual os nativos chineses não podiam adentrar, segregados pelos exóticos ingleses em seu próprio território. O que a faltosa memória pode lembrar por estas linhas é que as colônias não acabaram. O que o título na verdade encaminha é para a VI Rodada de Doha, Reunião Ministerial da Organização Mundial do Comércio, realizada até amanhã, em Hong Kong, China, corolário da reunião de Qatar, realizada em novembro de 2001 e com mandato até dezembro de 2006. Estão lá 150 países e seus ministros. É verdade que não estarão os ministros da Guerra e sim os de Economia, Finanças, Relações Exteriores, Desenvolvimento, Comércio Exterior. Mudaram os fardões, pois a guerra é outra.
Findos os blocos ideológicos, morta a Guerra-Fria, restou ao Capitalismo escrever o novo Tratado de Potsdam, dividindo o mundo não mais no Tordesilhas territorial, mas na partição de mercados. São próximos estes anos, cerca de três lustros, mas o fracasso da construção de um novo mapa-múndi geocomercial é flagrante. Os Estados Unidos da América, inseridos no seu neocolonianismo e ações guerreiras preventivas ao terrorismo, não recebem a espetacular guarida que lhes dava o mundo ocidental por seu combate ao comunismo. O antiamericanismo já é uma doutrina e suas ações violentas relembram o Vietnã. Suas fronteiras mercadológicas congelaram-se num Nafta, já velho como se prefixo fosse. Seu tamanho e potência ainda são incontestáveis, mas seu futuro já desperta dúvidas. Falaremos mandarim?
A União Européia de Maastricht transformou-se na segunda potência, mas revolve-se no seu euro supervalorizado e nos “riots” de Paris. Suas fronteiras saem do Atlântico e chegam ao Bósforo, mas admitem no seu interior a crescente onda de conservadorismo, fortes discriminações, violência racial e religiosa. Os árabes dos ontem atraentes petrodólares são hoje os homens-mochilas dos trens, ônibus, metrôs e lugares da moda. O Japão, estigmatizado pelo “cracking” financeiro, guarda nos colchões sua poupança, revisita a economia, recusa-se a crescer e perde para a nova China, portal do século 21.
Enquanto vigiu este proposto modelo, espraiou-se a distância entre os países mais ricos e os mais pobres, pagando estes com uma crescente miserabilização de suas gentes e exibindo a mais cruel corrente migratória entre povos e nações, mesmo se levando em conta os tempos de guerra. Dialeticamente, os muros que se erguem para deter os ilegais fazem deles os demolidores de fronteiras. E um novo mundo está surgindo. Em Hong Kong não estarão brilhando apenas as duas estrelas de UE e EUA. O escudo tem mais astros. Exibe, além do Japão, sempre forte, uma China exuberante. E o recém G-20, idealizado pelo Brasil e compartilhado por parceiros assemelhados, que juntos chegam a mais de um bilhão de pessoas, envolvendo a Índia, África do Sul, Argentina, Tanzânia, Egito e outros.
A briga é boa. O carro-chefe será a agricultura. Segurança alimentar. Fome, fantasma da humanidade. Meio Ambiente, preservação do planeta. Energia limpa e renovável. Os nossos etanol e biodiesel. A idade da pedra não acabou por falta de pedra. A era do carvão não acabou por falta dele. A era do petróleo não precisa esperar seu fim para acabar. Começa um novo mundo que a nossa geração exige recomeçar para não escrever seu obituário. E Hong Kong é um Brasil revisitado. Pode-se lá chegar a qualquer acordo ou a nenhum. Mas sem o Brasil nada acontecerá!
Não se trata de petulância esquerdista ou arrogância nacionalista. Nosso País hoje, me desculpem os profetas do caos, freqüenta a liga dos pesos pesados da economia mundial. Na liderança do G-20, na formatação da Comunidade Sul-Americana de Nações, na nossa presença africana e sediando a cúpula do mundo árabe, o Brasil firmou-se como parceiro global, “global player” se preferirem os mercados. Pode-se duvidar ou ser cético em relação à Doha, como pode-se duvidar do amor do gorila ou da capacidade dos nativos, mas a história já nos ensinou que o amor à liberdade é invencível. A VI Rodada da OMC pode não ser o fim da guerra mercadológica, mas já não é temido o urro dos opressores e já se vai longe o medo dos oprimidos. Um novo mundo é possível!
O autor, João Herrmann Neto, é deputado federal pelo PDT