O trabalho de um artista que tenha canções significativas? Um álbum variado, com faixas para todos os momentos? Uma coletânea com diversos grupos que retratem um bom período da sua vida? A pergunta é de difícil solução para qualquer pessoa que tenha certo amor pela música e por seus CDs e bolachões: qual disco você levaria para uma ilha deserta? Em tempos modernos de MP3 e iPod, foi o que propôs o jornalista Alexandre Petillo a algumas dezenas de entrevistados. Suas respostas - e boas dicas musicais - foram reunidas no livro “Noite Passada um Disco Salvou Minha Vida - 70 Álbuns para a Ilha Deserta”, lançado pela Geração Editorial.
A idéia da publicação, segundo Petillo, surgiu com o apresentador americano David Letterman, quando ele lamentava a morte do cantor Warren Zevon, em uma edição de seu programa, em 2003. “Ele falou sobre a morte e disse que seria um disco de Zevon que ele levaria para uma ilha deserta, se tivesse de escolher somente um. Achei interessante, pois ele é um humorista e escolheria um disco de um artista que faz um som mais introspectivo”, relata o autor. “Comecei a imaginar como todo mundo tem sua trilha sonora e como seria legal se as pessoas contassem quais discos fizeram a diferença para elas”, completa.
Petillo demorou cerca de seis meses para receber e reunir os depoimentos de músicos (Léo Jaime, Lulu Santos, Roger Moreira, Pitty, Samuel Rosa, André Abujamra), jornalistas (Jotabê Medeiros, Pedro Alexandre Sanches, Rodrigo Salem, Sérgio Dávila, Juca Kfouri) e personalidades como Washington Olivetto, Clarah Averbuck, Fernando Rosa, André Fiori e Alain de Botton. “Todo mundo que recebeu o convite curtiu a idéia, mas todo mundo reclamou de ser um disco só. Se fossem mais, perderia a graça. Se a pessoa fosse falar de todos, ela daria mais importância a sua coleção do que a um disco que foi fundamental”, explica.
Dicas e emoções
Na opinião do autor, alguns dos convidados surpreenderam pelas escolhas. É o caso de Bruno Prieto, baixista da banda Maskavo, que escolheu “A Love Supreme”, de John Coltrane. “Ele faz parte de uma banda de reggae e escolheu um disco de jazz, eu nunca ia imaginar. O mesmo com o Lulu Santos, que fala do Gabriel (o músico escolhe o primeiro CD d’o Pensador), foi um disco que norteou a retomada da carreira dele”, relembra Petillo
Ele destaca ainda os depoimentos dos jornalistas Jotabê Medeiros, de “O Estado de S. Paulo” (em um dos relatos mais pessoais), e Alex Antunes, um dos criadores das revistas “Set” e “Bizz”. “O Jotabê fala de Bob Dylan e dos problemas que passou em Curitiba, e o Alex é bem legal ao falar de um disco do Clash, que ele realmente ouvia na cena de São Paulo. Não teve forçação de barra. Os jornalistas posam mais de intelectuais, de ter discos mais diferentes, mas eles tiveram de se abrir e foram sinceros”, analisa.
Outra personalidade que abriu sua vida em duas páginas e um disco foi o músico Léo Jaime. Ao escolher “Wings Over America”, do Wings, ele revive suas experiências com drogas, em um período de falta de dinheiro e de trabalho. “Neste período ouvi um disco seguidamente. E ele, posso afirmar sem fazer melodrama, salvou minha vida”, escreve o músico, e continua: “Comprei o disco depois, mas não o tenho em CD. Também não posso dizer que não tenha aproveitado ao máximo aquela obra. Mudou minha vida. Um mês depois eu assinaria o meu primeiro contrato com uma gravadora. Um mês depois de sair do casulo”.
Diversos convidados revivem sua adolescência e os momentos nos quais tomaram contato com a música - de qualidade, pois marcaria o resto de suas vidas. Outros ocupam os relatos com descrições detalhadas dos próprios discos, às vezes intercaladas pelas lembranças que cada faixa revela.
“Tenho a nítida sensação, até hoje, do quanto o LP ‘Água Viva’ da Gal Costa me fez ter a certeza absoluta de que eu só poderia mesmo ser cantora nessa vida”, indica a cantora Vânia Bastos em seu relato. Já Dinho Ouro-Preto, vocalista do Capital Inicial, vai à adolescência para lembrar do dia em que escutou “Reggatta de Blanc”, do Police, pela primeira vez: “A música em questão era ‘Message in a Bottle’, do Police. A partir daquele momento, minha vida mudou. De verdade. Ela acabou tomando um rumo completamente inesperado”, afirma, no livro.
Quebrando o protocolo, o jornalista Juca Kfouri fecha o livro com uma coletânea, seu “Juca’s Golden Hits”. “Há discos e músicas, através dos tempos. A única saída que acho é meio marota, nada romântica (...) Bill Halley e seus Cometas me acompanhariam com ‘Rock Around the Clock’, Elvis Presley, the best, the pelvis, com ‘Trouble’, Little Richards com ‘Kansas City’ e Boby Darin com ‘Multiplication’, todas para que eu pudesse manter a forma sem engordar demais com as deliciosas ostras, lagostas e camarões do lugar”, brinca.
E a escolha do autor? “20 Greatest Hits”, Beatles. “Se não escrevesse sobre um disco dos Beatles, não seria justo comigo. Eu realmente fiquei fanático por música por conta desse disco, por causa dos Beatles comecei a comprar mais discos, me informar mais. Talvez eu ainda mude de idéia quanto ao disco, mas teria de ser deles”, pondera Petillo, que atualmente é editor do suplemento “DM Revista”, do “Diário da Manhã”, de Goiânia. Seus próximos projetos são um livro que analisa as atitudes de John Lennon, “mais olhando o lado homem do que do mito”, e a biografia oficial do Ira!, que comemora 25 anos em 2006.
“Eu sou amigo do Nasi, da época em que morava em São Paulo, jogávamos bola juntos. Ouvindo as histórias deles, as coisas absurdas, vi que era preciso fazer um livro. O ano que vem completa 25 anos da banda, vamos colocar um livro na lista dos lançamentos”, revela.