08 de julho de 2026
Ser

Na casa da árvore

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

Não é preciso mais do que dez minutos de conversa com o publicitário bauruense André Luiz Petraglia, 38 anos, para perceber sua veia criativa em constante circulação. Isso porque essa característica norteia sua carreira, iniciada ainda na adolescência.

Fã da arte do ilusionismo desde criança, ele tornou-se mágico aos 12 anos, realizando shows e eventos em diversas cidades do País e também do Exterior.

Em 1989 formou-se em comunicação visual pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), fez mestrado em arquitetura e entrou na área acadêmica como professor e coordenador do curso de publicidade e propaganda. Apesar disso, Petraglia não fechou completamente sua “malinha mágica”, e fez questão de carregar e incluir traços da magia e encantamento em todos os seus trabalhos.

Essa característica é evidenciada na palestra motivacional “Atitude Criativa”. Criada em 2000, ela visa resgatar a criatividade existente nas pessoas, incentivando-as a alcançar seus objetivos com determinação e perspicácia – meta, aliás, seguida à risca por Petraglia.

Jornal da Cidade - O senhor é publicitário, professor universitário, ilustrador, comunicador, mágico... Qual é o segredo para desempenhar todas essas profissões em sua trajetória?

Petraglia - A criatividade liga todos esses elementos. Ela é trabalhada na publicidade, no design e na mágica, que é uma coisa que eu trago desde criança e sempre ajudou muito no meu lado criativo. Tudo está alinhavado e hoje isso se confirma, porque continuo sendo eclético. Sou professor da área de propaganda na Universidade do Sagrado Coração (USC) e coordenador do curso; fora isso, tenho meu escritório onde desenvolvo trabalhos na área de publicidade.

JC - Quando descobriu seu interesse pela mágica? Isso ajudou a despertar seu interesse pela publicidade e comunicação?

Petraglia – Desde pequeno eu já desenhava. Minha mãe conta que com 3 anos de idade, quando ia à mercearia junto com ela, ao invés de procurar os doces, ia direto no balcão onde tinha papel, lápis, canetinha. Acho que muita criança faz isso e, ao contrário de algumas, meus pais sempre me incentivaram a desenhar, eles achavam bonito o que eu fazia. Nunca parei de desenhar e criar. Aos 12 anos entrei numa loja de mágica em São Paulo e fiz com que meu pai comprasse algumas coisinhas para mim. Foi aí que eu começei. Depois de um ano praticando bastante e conhecendo outras pessoas que gostavam de mágica, começei a distribuir na escola meu cartãozinho como mágico. A partir daí, os próprios colegas da escola começaram a me levar para fazer mágica nas festas, passei a fazer show e aos poucos fui sendo convidado para fazer outros trabalhos. Trabalhei dos 12 aos 32 anos de idade e fiz centenas de shows de mágica. Só parei mesmo porque entrei na área acadêmica. Foi quando percebi que continuar com os shows era uma coisa incompatível. Eu tinha que fazer uma opção: ou eu fugia com o circo ou entrava na universidade (risos).

JC – Atualmente, como a mágica influencia seu trabalho?

Petraglia – A mágica ajudou muito a me comunicar em público. Juntei isso à experiência com o desenho e acabei me tornando um profissional de comunicação. A mágica está em tudo: na maneira como eu procuro lidar com meus clientes e com as pessoas. Não é só fazer um trabalho ou anúncio publicitário ou projeto de designer gráfico bem feito. Meu trabalho é encantar o cliente e o cliente do meu cliente. E isso é conseqüência da mágica: é preciso ter um certo truque para saber como encantar. Quando entrei para a área acadêmica fechei minha malinha, decidi não fazer mais shows e trabalhar com eventos diretamente ligados à mágica. Mas cerca de um ou dois anos depois percebi que isso fazia falta e começei a agregar a mágica com a área acadêmica. E foi muito simples.

JC - Por quê?

Petraglia - Percebi que a mágica era um grande diferencial para mim e que eu poderia trabalhar com palestras e eventos acadêmicos. Felizmente, a partir do ano de 2000 começei a apresentar uma palestra utilizando efeitos de mágica para alguns conceitos. Estava buscando um título e um tema para essa palestra - que não fosse destinado apenas para a área de comunicação, na qual atuo academicamente e profissionalmente - mas que pudesse abranger mais pessoas. Descobri que o elemento que amarrava tudo era a criatividade. Ela nos diferencia dos outros animais. Nós raciocinamos, podemos criar. Apesar de ser um jargão, a criatividade não é algo que se aprende, mas algo que foi tirado de nós aos poucos. E precisamos retomar, reaprender, fazer um exercício de volta à infância. Meu escritório, por exemplo, é cheio de brinquedos, carrinhos e coisas lúdicas. Costumo dizer, brincando, que esse espaço é a minha “casa da árvore”, porque é uma casa localizada em um lugar alto e toda criança sempre quis ter uma.

JC - Como surgiu a palestra “Atitude Criativa”?

Petraglia – Montei a palestra sobre criatividade porque senti que o que faltava para as pessoas é iniciativa. A partir da atitude, as pessoas podem se transformar; não ficar apenas no mundo das idéias, mas tomar atitudes. Na palestra eu mostro fatos do dia-a-dia. Observo como as pessoas agem e vejo que todos nós temos hábitos e acabamos transformando-os em defeitos, os quais não são percebidos. Por exemplo, há pessoas que lutam a vida inteira para ter um diploma universitário e quando estão na faculdade não dão valor para a aula que estão tendo, vão para o boteco ou fazem outras coisas, ou seja, esses alunos não definiram que queriam ir para a faculdade? E o que eles estão fazendo com essa atitude? Então, nós mesmos nos enganamos no dia-a-dia. Esse é um lado muito comum porque às vezes não damos valor para os detalhes. E é por meio deles que muitas vezes descobrimos a essência das coisas.

JC - O senhor é detalhista?

Petraglia - Eu sou. Sou virginiano e todo virginiano geralmente é detalhista. Sou muito ligado em detalhes. O designer precisa estar atento para sentir qual é a essência da empresa para produzir sua marca. Se o profissional vai preparar uma campanha, precisa saber qual é a essência do público-alvo e o que realmente precisa ser dito para que a mensagem seja entendida no meio de tantas outras mensagens. O detalhe é o cerne da questão. É através dele que nós conseguimos abrir um pouco os horizontes das pessoas. Costumo dizer para as pessoas que se elas quiserem resolver um problema com criatividade e transformar suas vidas, precisam fazer algo diferente: ao invés de ver como são as coisas de maneira genérica, é necessário ver como é a coisa realmente.

JC - De que forma?

Petraglia - Nós temos uma visão paradigmática e vemos tudo com os paradigmas que são colocados, ou seja, os modelos prontos. Se existe uma crítica muito grande ao governo, pela mídia e pela sociedade em geral, então somos mais um a criticar. Não paramos para pensar, ver como é realmente esse fato e não os fatos de uma maneira geral. Todos os políticos são ruins? Não, nós sabemos que existem pessoas bem intencionadas e que representam suas classes. Todo aluno na minha sala de aula é problema? Não, existem casos e casos, e mesmo aquele aluno tido como problema tem seu lado bom. É aí que eu vejo a importância do detalhe e de um outro ponto fundamental: o tempo, que está sendo muito roubado de nós.

JC - Por quê? Vivemos em função do relógio?

Petraglia - Existe uma promessa de que a informática iria trabalhar por nós e hoje vejo amigos, empresários, inclusive eu mesmo, que ao invés de trabalhar oito horas por dia, trabalham muito mais. Eu trabalho doze ou treze e quando vou relaxar, abro meus e-mails e os respondo, o que é uma questão de negócios. Antigamente os empresários tinham uma secretária, eles ditavam meia dúzia de cartas para ela diariamente e as colocavam no. Hoje recebemos 20 ou 30 e-mails por dia e precisamos responder dez ou 15. Quando me formei no final dos anos 80 tinha uma semana para entregar um trabalho e isso realmente levava uma semana. Hoje eu faço o mesmo trabalho em duas horas, só que preciso entregar 30 trabalhos em uma semana. Então o tempo diminuiu mas aumentou a demanda.

JC – O processo criativo requer tempo. Como driblar a falta dele no dia-a-dia?

Petraglia - Usando esse tempo da melhor maneira possível. Eu, por exemplo, sou casado, tenho filhos, tenho minha profissão e várias atividades. Preciso saber dividir esse tempo entre minha família, trabalho e lazer. A palestra talvez retrate um balanço da minha própria vida porque eu tento mostrar, juntar as experiências e o conhecimentos que adquiri nas áreas de arte e comunicação e consequentemente da criatividade. Tento compartilhar isso com as pessoas para que elas possam perceber que existem mais coisas na vida e não só objetivos profissionais e realização material, mas é fundamental um convívio melhor entre as pessoas e o meio em que vivem.

JC - Na palestra o senhor aborda a importância de apostar no diferencial. Por quê?

Petraglia – É preciso apostar no diferencial para que as pessoas possam ser mais felizes e transformar as outras pessoas, porque há casos em que se sai da presença de alguém “pesado” ou triste porque ela só sabe cobrar ou reclamar da vida. Se a pessoa é mais feliz, vai transformar as pessoas. E não se deve fazer tudo o que os outros querem porque aí a pessoa vai agradar todo mundo, mas ela não ficará bem. É fundamental a pessoa perceber o que a faz bem porque estando feliz ela vai fazer os outros felizes; é o que se vê no filme “Corrente do Bem”.

JC – A apresentação tem forte apelo motivacional?

Petraglia - Sim, justamente porque tentamos mostrar “fórmulas mágicas”, embora não devemos acreditar muito nisso porque cada pessoa é um indivíduo diferente e eu tento mostrar isso. Apesar de estar falando no atacado, eu sei que cada um recebe no varejo, recebe a informação de acordo com sua bagagem cultural e incentivo as pessoas a adaptarem isso para a vida delas. Na palestra eu faço um testemunho da minha própria vida porque eu não nasci pronto, ninguém nasceu pronto. Aprendi a fazer todas as coisas e se eu aprendi, qualquer pessoa pode aprender.

JC – É uma forma de auto-ajuda?

Petraglia - É auto-ajuda no sentido de se auto-descobrir. É preciso que cada um descubra seu próprio potencial, saber o que ele tem por dentro para colocar para fora porque senão vai estar eternamente buscando a solução no livro dos outros. E quando a pessoa vai escrever seu próprio livro? Quando ela vai colocar o seu pensamento para transformar as pessoas? E acreditar nele, porque a maioria das pessoas é criativa mas não acreditam ser porque elas não acreditam nas próprias idéias. Elas ficam procurando fórmulas na felicidade dos outros. Eu acho que nesse ponto minha personalidade é assim: eu olho para mim e vejo que posso fazer de melhor para mim e para os outros. E se existe um segredo para a felicidade é este, porque eu me sinto bem assim.