09 de julho de 2026
Geral

Interesse por redes cresce em Bauru

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 4 min

“A rede colabora na movimentação dos sonhos”, poetiza o folclorista nordestino Luís da Câmara Cascudo em seu livro “Rede de Dormir”. Como o pesquisador da cultura brasileira, morto em 1986, observou no passado cada vez mais a rede, antes usada principalmente pelas comunidades indígenas e povos nordestinos, vem sendo incorporada à cultura paulista, seja para decorar ou para seu uso tradicional, o descanso.

Em Bauru não é diferente. O cenário urbano vem sendo colorido pelas redes de dormir, armadas em quintais, sacadas de apartamentos e também na área nobre da casa, a sala de visitas. Os vendedores de rede vindos do Nordeste são os principais responsáveis pela disseminação dessa cultura. Segundo informações do redeiro José Moraes de Souza Filho, 23 anos, cerca de 7 mil unidades são comercializadas em Bauru por ano, quando passam perto de 250 vendedores.

Preços

As empresas chegam a trazer até 25 redeiros, que se espalham pela cidade durante três ou quatro dias. A variedade de modelos, cores e tamanhos define os preços. Uma rede de solteiro pode sair por R$ 15,00 e outras mais trabalhadas, por R$ 35,00 a R$ 50,00 ou R$ 70,00 a R$ 90,00 se o modelo for de casal.

Eles vêm principalmente da Paraíba, alguns, como Souza Filho, da cidade São Bento, com quase 40 mil habitantes, a maioria sobrevivendo da fabricação e comercialização de redes. Viajar tanto tempo oferece benefícios. O Estado de São Paulo é considerado muito bom pelos vendedores ambulantes. “O paulista valoriza o trabalho artesanal”, diz.

Francisco Elton Queiroz Lima, 23 anos, também é redeiro e diz, orgulhoso: “A Paraíba é a capital mundial da rede!” Ele chega a caminhar diariamente até sete quilômetros pela cidade. Alguns preferem encontrar um ponto estratégico e permanecer por mais tempo. De acordo com as vendas e o tamanho da cidade, os redeiros permanecem até 15 dias no mesmo local.

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Aconchego

A relação com a infância também é fator de interesse pela peça. “A rede faz você ficar fora do chão, o que é muitas vezes necessário. É como se eu estivesse em um lugar intermediário e a embalada é muito lúdica”, diz a cirurgiã infantil Marilyse Bragança Lopes Fernandes, 29 anos. Recordando os momentos de infância, Marilyse comenta ser o balanço seu brinquedo preferido. “Ao mesmo tempo que eu queria ir cada vez mais alto, tinha o medo do balanço dar uma volta completa, 360 graus.”

Moradora em apartamento, a rede nunca fez parte de seus planos, porém, ao encontrar na feira UBÁ um suporte produzido com troncos de madeira pelo artesão João Gomes, decidiu incluí-la como peça decorativa para quebrar “aquela coisa quadrada” de apartamento. Aos poucos, o objeto decorativo ganhou espaço e tornou-se um local para reflexão. “É o meu lugar preferido, onde me coloco para refletir, buscar soluções, descansar. Minha rede é o meu divã”, comenta a médica.

Para ela, a rede é um objeto capaz de convidar para o lazer e para a reflexão. “Tenho uma relação de lembranças de coisas prazerosas, como sítio, férias, vida no campo. Sinto paz na rede.” Ela também ressalta o interesse que o objeto desperta nos amigos que se dirigem diretamente para a rede. A opinião é compartilhada pelo geógrafo Alexandre de Castro Campos, 31 anos. “É impressionante. As pessoas chegam em casa e já esticam a rede, aconchegam as crianças.”

Conhecedor de vários estados, inclusive no Norte e Nordeste, Campos chegou a dormir muito em rede, quando participou do Alfabetização Solidária pela Universidade do Sagrado Coração (USC). “Um dos transportes fundamentais no Norte é o barco. Viajávamos em grandes embarcações e eu sempre gostei de ficar junto com as pessoas e dormir em rede. Eu passava mais de 17 horas no barco para contornar a Ilha de Marajó e visitar as salas de aula”, recorda.

Ele possui vários tipos de rede, usadas para ocasiões diferentes. “Tenho uma individual de nylon para dormir em viagens; outra, de casal, usada em acampamentos de lazer, com minha esposa.” Outras duas, Campos trouxe de Fortaleza e da Costa Rica, onde viveu por cinco meses pesquisando vulcões.

Campos sempre observou o hábito dos nortistas e nordestinos de dormir em rede e acabou aprendendo a usá-la com eles. “Você tem que saber deitar na rede, caso contrário acorda com dores no corpo, aí é pior. Você deve ficar ‘meio’ de lado, na transversal”, sugere.