08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

FOB - Células-tronco - Nossos parabéns!


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Numa iniciativa importantíssima, a FOB-Bauru, através de seu Departamento de Genética, trouxe no último dia 10 de novembro um casal de pesquisadores dedicados aos estudos e experimentos na mais nova, fascinante, promissora e ainda incipiente busca das possibilidades e limites oferecidos pelas células-tronco como arma para curar ou até antecipar e prevenir doenças, tanto na espécie humana como em outras. Ante às novas possibilidades antevistas pelo novo caminho que a ciência apenas começa a trilhar, levantam-se vozes desavisadas, religiosas, éticas, morais e outras, tentando criar polêmicas fundamentadas em interesses mais particulares que humanitários.

O materialismo, egoísmo, fanatismo ou interpretações distorcidas de princípios morais e, principalmente, dogmáticos, que já ultrapassaram todos os limites de distorção para que a cada dia se “fundasse” mais uma ramificação de uma seita religiosa (se é que assim se pode chamá-las), uma vez que em muitos casos são meros subterfúgios para se explorar o despreparo e ingenuidade dos que buscam em Deus, forças para suportar a iniqüidade e torpeza dos políticos que pretextando lutar pelo povo, alçam-se a cargos para depois se locupletarem e, não só esquecerem as promessas feitas como para muitas vezes ainda tripudiar sobre os eleitores que amargam as agruras e decepções decorrentes da equivocada escolha.

O programa de transplante de órgãos é outro horizonte que ainda se faz exíguo, dada a falta de uma política séria por parte do Ministério da Saúde e ao “medo” de verem um familiar ter seus monitores desligados antes da “morte cerebral” para se transformar em um doador de órgãos, atendendo a interesses de equipes ou de receptores específicos.

Se as pessoas fossem mais solidárias, mais humanas, confiassem mais no Deus que dizem acreditar, não usariam de alegações tão estéreis para recusar-se a, em perdendo temporariamente um ente querido, deixar que parte dele continue a viver em alguém que, em tendo ainda possibilidades de sobreviver, pudesse com a doação de um dos órgãos viáveis, encher-se de júbilo e gratidão eterna aos familiares e, em especial, àquele que, de alguma forma, podemos dizer que comungou no momento mais dramático de sua existência, a exortação do Cristo, dando a sua vida pelo outro.

Se as pessoas pudessem aquilatar a grandiosidade do gesto de doar-se, não se prenderiam ao egoísmo disfarçado na afirmação de que os médicos desligam os aparelhos antes de esgotarem-se todas as possibilidades dos pacientes. Se pudessem presenciar a felicidade a inundar o coração dos familiares de um receptor (que com certeza é maior que a deste, uma vez que o mesmo já estava muito mais preparado para o desenlace). Se conseguissem posicionar-se como pessoas necessitadas do desprendimento de alguém que salvasse a vida de um seu familiar ou amigo, entenderiam melhor e predispor-se-iam mais facilmente a ser doadores e estimuladores para conseguir engajar sempre mais pessoas no programa (há mais de 15 anos carrego em minha carteira um cartão verde, de uma iniciativa de então, onde está escrito e por mim assinado que dôo todos os meus órgãos, se for um dia surpreendido por uma decisão divina sem aviso prévio).

Da mesma forma devemos raciocinar em relação às células-tronco. Fala-se muito em ética, que os óvulos fecundados já são um ser humano em miniatura. Aí eu pergunto: onde está a ética daqueles que, a pretexto de resolver o “problema” dos casais que, não tendo possibilidades naturais de conceberem filhos, induzem as pacientes a múltiplas ovulações, fazem múltiplas fecundações em laboratórios, implantam vários zigotos e, se todos conseguirem a nidação uterina, vêem-se obrigados a abortar vários para que a gestação possa chegar ao termo. Cabe ainda lembrar que uma parte dos óvulos fecundados são congelados para uso futuro em caso de malogro da primeira tentativa de implante dos mesmos. Abortam-se alguns seres humanos em miniatura e congelam-se outros tantos por tempo indefinido. Seria talvez a hora dos “puritanos” se perguntarem: Por que não abandonar a fertilização “in vitro” e partir para a adoção? (Decide-se sempre pelo que melhor preencha as próprias expectativas.)

Se essas pessoas que, por pouco conhecimento ou pouca reflexão madura sobre o tema, tivessem um filho com fenda palatina, lábio leporino, a conjugação de ambos ou outras deformidades, com certeza teriam visão bem mais benevolente ou até enriqueceriam o rol das argumentações favoráveis ao aprimoramento dos estudos e a utilização natural da evolução científica contida na terapia com células-tronco. Se conseguissem avaliar os sacrifícios, o sofrimento dos pacientes e familiares, os estóicos esforços dos profissionais que envidam esforços para oferecer o melhor resultado possível. Se pudessem sentir a felicidade dos familiares quando têm a certeza do sucesso do tratamento recebido, saberiam que tudo o que se fizer com amor, seriedade profissional e intenção de minorar o sofrimento alheio, certamente será aprovado pela Divindade.

Os homens, freqüentemente se enredam na imprevidência ao defenderem idéias que não dominam, que não lhes interessam no momento e ficam sustentando polêmicas a pretexto de uma pseudo sede de justiça, esquecendo-se que não apenas se deve pensar no justo, senão também no lícito.

Oxalá os doutores Mônica e Silvio Duallibi consigam todo o apoio necessário para o maior êxito possível. Se os nossos governantes puderem aquilatar a magnitude da diminuição dos custos do tratamento que é desprezível frente ao tempo de tratamento e ainda mais quando confrontado com a diminuição do sofrimento dos pacientes e da ansiedade das famílias. O tempo responderá. Parabéns aos brilhantes profissionais e os augúrios de que, como dois loucos (como disse a doutora Mônica), a “loucura” seja o diferencial para superlativar-lhes a ânsia de nunca desanimar, nunca cansar de ousar, de se doar em prol da ciência e, conseqüentemente dos possíveis beneficiários de suas conquistas.

Áureo Antonio Érnica - CRMSP 33.576