No século 11, existia na Arábia um rei que comandava centenas de milhares de camponeses que eram tratados como escravos e condenados à morte quando não mais serviam. Apareceu por lá, sem saber-se ao certo de onde, um padre jesuíta que, aos poucos, foi conquistando aquela gente e a cada reunião esse rebanho aumentava de tal maneira que os súditos do rei alertaram-no quanto ao sucesso do padre.
- Mate-o, ordenou o rei.
Porém, um dos subordinados, o mais experiente deles, disse: - Eu acho que se o fizerdes assim, sem mais nem menos, poderá causar uma revolta sem precedentes entre os escravos porque o padre já é muito querido.
- Então vamos dar a ele um julgamento justo. Vamos reunir a corte e eu vou fazer três perguntas ao padre, se ele responder a todas, continuará e ainda terá o meu apoio. Se errar, será esquartejado em praça pública.
Um ordenança foi levar a ordem ao padre e este ficou apavorado, procurando entre seus amigos mais íntimos o ferreiro, para quem disse que certamente seria enforcado, pois, fora as escrituras sagradas, ele não sabia nada.
- O rei o conhece, padre?, argüiu o ferreiro.
- Não, com certeza.
- Então, escute-me, empreste-me sua batina e eu irei à reunião em seu lugar. Afinal, já estou velho e alquebrado e, se eu não responder, basta o amigo me encomendar a Deus. E assim foi feito.
No dia da corte, estava lá o ferreiro de batina. O rei abriu a sessão e fez a primeira pergunta.
- Senhor padre, qual a distância que temos que percorrer para atingirmos aquela estrela à nossa frente?
- Meu rei, teríamos que percorrer seis bilhões, quatrocentos e três milhões, cento e seis mil, trezentos e doze quilômetros. Pode conferir.
- Segunda pergunta: Padre, o senhor está vendo esse monte aí em frente? Quantas carroças de terra seriam necessárias para desmanchá-lo?
- Vinte milhões, três mil, cento e quinze, meu caro rei.
Pelo mesmo motivo da primeira, isto é, não tinha como conferir, o rei deu-se por vencido.
- Agora, a terceira pergunta de seu rei, se responderes estará livre.
- O que penso eu agora?
- O senhor, meu rei, pensa que está falando com o padre. Porém, engana-se, pois eu sou o ferreiro, conseqüentemente, o padre está livre.
Contada por Vitor Rodrigues Ruiz