09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Tecnologia e democracia em discussão


| Tempo de leitura: 3 min

Existe algo de ruim na “ultra-tecnologia”. Algo que nos remete à deliciosa ou terrível realidade dos Jetsons, tipo viver boiando no espaço, sem contato com o chão, as pedras, os rios. Tipo entrar em casa e nem precisar andar até a poltrona, pois uma esteira rolante faz o papel das pernas. Ser servido por um robô, que aperta botões onde caem pastilhas com gosto e proteínas de sanduíches, alfaces e chocolates. Transformar-se, você também, pouco a pouco, num robô. Perder a capacidade de imaginar como seria ou estaria a pessoa com quem você fala ao telefone, pois a imagem dela aparece numa tela; perder a característica humana da metáfora; esquecer a poesia; padecer em engarrafamentos aéreos; torcer para nascer numa proveta alfa mais; acreditar na felicidade branca e radiante do admirável mundo novo; aceitar para sempre a propaganda enganosa dessa ultra-tecnologia: “o Omo é o bem e a sujeira é o mal”. É só acreditar que existe mesmo o sistema bleach de lavagem.

A história do século XX, como a de todos os outros séculos, foi a história do homem tentando vencer a si mesmo e a seus limites, mas principalmente no que diz respeito ao abismo natural e invisível de comunicação que existe entre um e outro ser humano. Para isso, a tecnologia foi aperfeiçoada de maneira incrível e rápida. O telefone e os celulares, o fax quase imediatamente ultrapassado pelo e-mail, a “recente” e corriqueira internet, guerras e mais guerras que foram e serão feitas em busca do domínio dessas tecnologias e mercados.

Logo teremos o teletransporte da Jornada nas Estrelas (!?)

Quanto mais avanço, menos capacidade de imaginação. Quanto mais simultâneas, menos tempo de analisar e questionar as informações. Uma criança que brinca de playmobill cria mundos fantásticos. Uma que só joga vídeo game apenas transfere um universo de cores e atitudes para dentro de si e de sua vida. As grandes gravadoras, principalmente nos últimos tempos, sempre se valeram dessa anestesia tecnológica para empurrar um lixo cultural que condissesse com a natureza ideológica das redes de t.v., dos interesses do Estado, da inércia criativa e da cinética do lucro delas mesmas.

Mas eis que a própria tecnologia surge fantasticamente, não mais como um instrumento apocalíptico do pensamento, e sim como uma via integrada de conforto e desenvolvimento verdadeiro. Eis que foram criados o MP3 e outros sistemas que transmitem música pela internet. Qualquer pessoa, aqui ou na China, de posse dessa nova tecnologia, pode colocar música na rede mundial. Não só a música produzida, lavada e enxaguada pelas grandes gravadoras; dá para colocar as próprias músicas do internauta, ou da banda alternativa do bairro, que até hoje só tocou ao vivo na festa de final de ano da escola.

Surge então uma verdadeira possibilidade de escolha e criação. Isso é democrático. Por que só o Paralamas pode e você não? E mais que isso. Surge um mundo de música e cultura verdadeiramente alternativo, onde o conteúdo não precisa passar pelo crivo das gravadoras, e o que é mais incrível, nem do público. Quem quiser que ouça. Não é mais preciso moldar o alternativo com padrões populares para que ele possa tocar na rádio de alcance nacional. Quem quiser que ouça. Não precisa nem pagar.!

Coitada das gravadoras? Coitados dos donos das rádios? Não, todos sobreviverão no mainstream! Coitados dos nossos ouvidos, que foram moldados durante anos e até décadas para pensarmos e aceitarmos o que interessava à uniformização da cultura. Com a popularização do MP3 e sua natureza imediata, só o que perderemos é aquela doce sensação adolescente de juntar um dinheirinho e ir a pé até o centro da cidade imaginando como será o novo disco do Jesus and Mary Chain, por exemplo. Incontestavelmente, essa expectativa gostosa será coisa do passado.

Luís Paulo C. Domingues - professor e jornalista - RG 17.115.76