09 de julho de 2026
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A pauta de Doha


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O jogo que mais chama a atenção hoje no comércio global são os interesses em discussão na Rodada de Doha da OMC, cuja 6ª Conferência Ministerial, realizada em Hong Kong, encerrou-se no último dia 18 de dezembro sem avanços significativos. A OMC é o grande árbitro do comércio mundial. Basicamente, seu principal papel seria promover a convergência de interesses comerciais visando eliminar o protecionismo e promover o livre comércio. As tarifas alfandegárias, subsídios, cotas de produtos e as barreiras fitossanitárias são práticas que criam profundas distorções no comércio global.

A pauta de Doha é a seguinte: os Estados Unidos e a Europa querem que os países emergentes abram seus mercados para produtos industriais, mas fazem poucas concessões na área agrícola. O G-20 (grupo de países em desenvolvimento da Ásia, África e América), liderado pelo Brasil, quer o fim dos subsídios que os países ricos dão a seus produtores rurais e o corte de tarifas agrícolas. Os países mais pobres temem perder privilégios, sob a forma de cotas, que têm para vender seus produtos para os países ricos. Economias ricas e superprotecionistas, como Japão, Suíça, Noruega e Coréia do Sul, que subsidiam pesadamente a agricultura e impõem altas tarifas, relutam em abrir seus mercados, mas querem que os países em desenvolvimento abram seus mercados para bens industriais. Com tanto interesse em jogo, não se poderia esperar avanços significativos em termos de maior abertura do comércio global em Hong Kong. O Brasil é um dos países mais interessados nas discussões, uma vez que a redução do protecionismo agropecuário das nações ricas abriria um grande mercado para seus produtos. Um estudo do Banco Mundial prevê que o Brasil poderia ganhar US$ 10 bilhões por ano até 2015 se houvesse um acordo para eliminar subsídios e outras barreiras comerciais nessa área. O valor da produção agrícola brasileira aumentaria 34% e sua renda na agricultura cresceria 46%. As exportações teriam um crescimento real de 28,5% até 2015. A questão do protecionismo agrícola é um dos temas mais difíceis de se encontrar algum consenso em função dos fortes lobbies de produtores rurais nos países ricos. O poder dos agricultores europeus, por exemplo, é tão forte que eles abocanham 40% do orçamento da comunidade sob a forma de subsídios, algo próximo a 40 bilhões de euros. Isso para um setor que responde por apenas 3% do PIB europeu e por 2% da força de trabalho. Dada a complexidade das questões em jogo na OMC, não podemos nos iludir que vamos conseguir muita coisa em termos de redução de protecionismo agrícola endurecendo em acordos multilaterais como a Rodada de Doha. A saída seria uma política comercial agressiva voltada para a celebração de acordos regionais com países que pudessem nos fazer parar de patinar em torno de mísero 1% de participação no comércio global.

O autor, Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, é doutor em Economia pela Universidade Harvard, professor titular e vice-presidente da FGV