Natal é tempo de decorar a casa, iluminar as ruas, preparar sabores, reunir a família, presentear... Tudo conspira a favor do encantamento, que não contagia apenas a cidade, mas tem o poder mágico de trazer à tona emoções, lembranças e reflexões.
Motivadas por esses sentimentos, muitas pessoas mudam de comportamento nesta época do ano e mergulham no espírito universal de amor e solidariedade.
A psicóloga e professora acadêmica Regina Furigo explica que na época do Natal o ser humano tem maior facilidade em demonstrar sentimentos.
“Nessa época há uma ‘permissão’ para sermos mais emotivos. Uma pessoa muito afetiva e expansiva é entendida socialmente como frágil, característica dificilmente aceita no mundo capitalista. No Natal, porém, é esperado que ela se emocione e isso não será visto como fragilidade. O momento funciona como catarse coletiva”, diz Furigo.
“Até por coincidir com a época de férias, aumenta a vontade de estar junto, conviver em família, demonstrar carinho e afeto”, completa a psicóloga clínica e psicoterapeuta Rose da Silva Ramos Eiras.
A mídia e o comércio exercem grande influência nesse cenário, aponta Eiras. “São produzidos estímulos externos e isso acaba atraindo as pessoas”, observa. Furigo concorda. “O ser humano quer encontrar o espírito natalino e tudo mobiliza para isso: as luzes, os enfeites, a árvore de Natal. A cidade se mostra diferente do dia-a-dia. O homem se encanta muito com o belo”, diz.
Funcionando como estímulos visuais, os símbolos característicos da data acionam lembranças e emoções. Entre eles, se destaca o Papai Noel, figura presente no imaginário de crianças e adultos, explica Furigo.
De acordo com ela, o “Bom Velhinho” representa um pai, que passa o ano inteiro fabricando presentes e se preocupando com cada uma das pessoas. “Imaginar que há alguém escutando e prestando atenção no que precisamos e que na noite de Natal entregará o que é mais desejado, é muito acalentador”, diz Furigo.
Para Eiras, a simbologia do Natal é um elemento intermediário na expressão dos sentimentos. “Dentro de um contexto social, o Papai Noel é tido como um intermediário, aquele que causa boa ação. Algumas pessoas querem ganhar, por exemplo, paz e um País menos corrupto de presente”, diz.
Paz e esperança
Além do clima contagiante, o ritual que comemora o nascimento de Jesus é marca histórica da sociedade, o que ajuda a manter vivo o espírito natalino. “Por baixo de todas as comemorações, existe o arquétipo, a vivência universal do eterno retorno, da possibilidade de recomeço, e isso faz com que as pessoas renovem suas esperanças”, aponta Furigo.
É o caso da assistente de recursos humanos Juliana Dorigo dos Santos, 21 anos. Ela revela que aproveita o período para fazer um mergulho interior e, se for preciso, mudar hábitos. “Com toda a influência que o Natal tem na nossa vida, utilizo esse momento para fazer uma pausa, refletir sobre o que aconteceu durante o ano e sobre o que posso fazer melhor no ano que vem. Nesse momento estou mais sensível e perceptível para as coisas que preciso mudar”, diz.
A costureira Luzia de Lourdes Messias, 64 anos, conta que renova sua fé no período do Natal. “Lembro do nascimento do Menino Jesus e isso faz com que eu fique muito alegre”, diz.
Sem dúvida, a época é extremamente favorável para reavaliar atitudes e promover mudanças de comportamento. O importante, porém, é não restringir essas intenções apenas ao período natalino, apontam as psicólogas.
“No Natal, há uma tolerância e convívio maior entre as pessoas, mas muitas vezes, passada a data, todos esses votos são deixados de lado. O espírito natalino deve ser uma busca de individuação do ser humano, uma meta para que o ser humano se torne melhor e tenha isso como projeto de vida”, diz Furigo.
Eiras compara a mudança de comportamento típico do Natal com os próprios símbolos característicos da data. “Passada a época das festas, a árvore é desmanchada, as luzes são retiradas das cidades e das lojas. O que sobra é o afeto, amor e caridade dentro de cada pessoa”, diz.
A família do engenheiro civil Marco Antônio Patah Batista, 52 anos, faz questão de cultivar o espírito natalino diariamente. “O que importa é que o Natal aconteça todos os dias para dar carinho, paz e muito amor para o próximo. Esse é o presente mais interessante que nós podemos receber e ofertar”, diz.
Sua esposa, a funcionária pública Gislaine Alves Moreira, 40 anos, tem a mesma opinião. “O clima de Natal nos deixa emotivos para pensarmos nos outros”. “Nessa época, as pessoas começam a se conhecer um pouco melhor e quando se conhece o ‘eu’, se transmite melhor os sentimentos”, completa Batista.