A austeridade, seriedade de doutor Gastão muitas vezes não deixava transparecer a grande figura humana que era. Tive o prazer, o orgulho de ser seu aluno e, posteriormente, de com ele trabalhar. Preocupava-se em fazer justiça, em jamais ser injusto e tinha soluções para todo o tipo de impasse. O atual prefeito deve ter vivo na memória a eficiência e a capacidade jurídica do velho mestre à frente da Secretaria Municipal dos Negócios Jurídicos. Com ele, as crises não demoravam a ser debeladas, graças ao seu notável conhecimento e, principalmente, ao seu poder de convencimento. Partiu deste mundo com a mesma discrição com que viveu e a família, respeitando sua vontade, não realizou o velório do corpo. Pode parecer esquisito e, no entanto, concordo plenamente com o velho mestre.
Quando em vida, combalido fisicamente, muitos deixavam para o amanhã uma visita e esse nunca chegava com a desculpa rota e esfarrapada da correria do dia-a-dia. Se não visitamos o amigo em vida, para passarmos alguns instantes ao seu lado, conversando, trocando idéias, ajudando para que o tempo fluísse com um pouco mais de rapidez, qual o motivo que alegaríamos para estarmos velando o seu corpo?
Eu mesmo, por diversas vezes comentei com o seu filho Gastãozinho o desejo de fazer uma visita ao velho mestre e nunca o fiz. Programei para ir cumprimentá-lo no seu aniversário, no início deste mês, e terminei não indo ao seu encontro. Justamente no dia de seu aniversário, surgiu um compromisso inadiável. Viram como é fácil arrumar uma desculpa para justificar a não visita a um amigo enfermo?
Doutor Gastão partiu deixando como principal legado a seus descendentes a moral, a ética, a coerência e principalmente a retidão de seu caráter. E se de fato existir um outro plano espiritual, espero que em breve o velho e competente mestre esteja buscando iluminar o caminho de nossos governantes para que cometam menor número de erros e voltem a trilhar o caminho da justiça social. Até breve, doutor Gastão!
Antonio Pedroso Júnior