Quando o Natal parece ser somente mais um dia em um tempo de necessidades, falta de esperança e até mesmo de alimento, algumas iniciativas ou simples ações podem trazer de volta um sorriso no rosto de uma criança ou a chance de passar a data ao menos sem o fantasma da fome. São gestos voluntários de pessoas que não buscam promoção, e sim oferecer um pouco de conforto, esperança e felicidade a quem mais carece. Em alguns locais, são iniciativas programadas para esta data, imbuídas do espírito natalino; em outros, a preparação já começou quando terminou o Natal passado.
É o caso da voluntária Madalena Branca, que promove uma grande entrega de brinquedos no Ferradura Mirim há mais de 15 anos. As crianças já conhecem a Mamãe Noel e formam fila no campinho de futebol do bairro para receber um presente - para muitos, o único do ano - e um minipanetone. Ontem, foram mais de 1.500 brinquedos distribuídos. “É minha maior alegria. Esse é o meu Natal”, diz Madalena, que arrecada os presentes com empresas e comerciantes que viajam com ela para fazer compras na Capital.
“A necessidade dessas famílias é muito grande, por isso agradeço às empresas e profissionais que sempre me ajudam, ao Expresso de Prata, Rodonave e Polícia Militar”, aponta a voluntária, que ontem ainda entregaria cestas básicas em outros bairros.
Na entrega dos brinquedos, a empregada doméstica Olivina Alves dos Santos mostrava a felicidade dos filhos, Rodrigo e Willian, com os presentes que ganharam. “É um gesto muito bom. A situação está difícil e sem essa ajuda meus filhos não ganhariam nada”, comenta. “É legal quando eles (os voluntários) vêm entregar os brinquedos, todo mundo ganha alguma coisa”, completa Rodrigo, 12 anos.
A dona-de-casa Edinéia Fonseca revela que gostaria de poder presentear a filha Núbia, 5 anos, e seus outros filhos especialmente com roupas. “Mas não tenho condições. Gosto quando essas pessoas vêm aqui e dão presentes para as crianças. A coisa fica meio tumultuada até porque todo mundo precisa e quer pegar alguma coisa”, diz. “Todos os meus filhos conseguiram ganhar algo. Mas eu desejaria mesmo muita paz, felicidade e uma vida sem violência para eles e para as crianças do bairro”, anseia Tânia de Fátima da Silva, mãe de 5 filhos entre 2 e 13 anos.
Ceia de esperança
Ao invés de presentes, uma bela macarronada. Foi a idéia da comerciante Celene da Silva, que entregou ontem cerca de 200 marmitex aos moradores pobres do Jardim Maria Célia. Ela relata que pediu doações aos clientes de seu bar, no núcleo Mary Dota, para concretizar a idéia de oferecer ao menos uma refeição a quem necessita. “Eles foram ajudando com dinheiro ou macarrão. O Ceasa me ajudou com os tomates. Mas eu gostaria de fazer todo mês e não só no Natal. Não podemos lembrar que existem pessoas carentes apenas nessa data”, diz.
A entrega foi organizada em conjunto com policiais militares da Base Comunitária de Segurança Leste. “A situação na favela é bem complicada. Ontem (anteontem), conseguimos cadastrar praticamente todas as famílias e distribuímos senha. Mas vamos levar algumas refeições a mais para não faltar”, ressalta o soldado Halex José Quirino.
Apesar da menor proporção, a iniciativa da dona-de-casa Maria Maldonado Custódio Pavanelli também visa oferecer um Natal mais pleno a uma família pobre. “Tive um ano abençoado, apesar dos problemas, e decidi preparar uma ceia para uma família que estivesse em dificuldades. Vou levar tudo, como se fosse para minha família, com as coisas que eu gosto e com o que eles disseram que gostariam de comer”, conta.
Além dos alimentos, ela promete levar frutas e brinquedos para as sete crianças da casa, na Vila Giunta. “Nesse Natal, quis me doar para ajudar. Eles serão a minha família. É um gesto simples e que pode ser feito por qualquer um”, garante.
São iniciativas que requerem preparação antecipada ou apenas alguns momentos de dedicação, porém, que possibilitam um final de ano muito mais completo a famílias que enfrentam dificuldades e crianças que, até então, não acreditavam mais em Papai Noel.