09 de julho de 2026
Geral

Mamona dá origem a peças de arte

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 5 min

Uma bela peça de arte, mobiliário para a casa toda, geração de renda para a população carente e fonte alternativa de madeira. Todas essas possibilidades foram encontradas pelo designer Flávio Cavaleiro em seu trabalho de conclusão de curso, no qual pesquisou uma planta que nunca tinha sido experimentada como fonte de madeira: a mamona.

Apenas da semente dessa planta é possível serem elaborados mais de 700 produtos diferentes. Apesar da sua versatilidade, a única solução encontrada para o caule da mamona era alimentar fogões a lenha, ou acelerar a sua decomposição para fazer adubo. Mas o designer não se importou com essa imposição e, incentivado pelo professor doutor José Carlos Plácido da Silva, seu orientador no curso de desenho industrial, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), investiu na pesquisa para se obter madeira da planta.

Apesar da descoberta já ter sido revolucionária, ele não parou aí. Após conseguir um painel com o material, ainda desenvolveu uma belíssima cadeira com a madeira de mamona. Tanto o desenvolvimento do processo quanto o design da cadeira lhe renderam a nota dez com distinção e louvor de uma banca composta por professores perplexos com o novo universo descoberto por Cavaleiro.

Aquele mesmo arbusto que se espalha rapidamente pelos terrenos nas cidades e durante o verão faz a alegria da criançada nas guerrinhas de mamona, pode virar uma árvore grande, com um caule espesso o suficiente para dele se extrair as lâminas, garante Cavaleiro.

A idéia de pesquisar a mamona como fonte de madeira surgiu no começo do ano, quando precisava de um tema para o trabalho de conclusão de seu curso. O seu objetivo era investir na pesquisa de uma fonte alternativa de madeira. “Caminhando pelo meu quintal, me deparei com um pé de mamona e pensei: por que não?”, lembra. A idéia foi apresentada ao seu orientador que ficou entusiasmado. “Nem o Flávio estava muito seguro da escolha”, revela Plácido.

O aluno, então, deu continuidade ao trabalho. “Já no corte eu percebi que o material é resistente”, aponta Cavaleiro. O ciclo de vida da mamona é muito curto, em seis meses ela já dá frutos e em três anos ela morre. O processo de degradação começa rapidamente também. “Mesmo durante a decomposição, é difícil cortar a sua madeira”, conta. Ele retirou as cascas da madeira e colocou os pedaços da tora para secar em um galpão.

O segundo processamento da madeira aconteceu no mês passado. Cavaleiro cortou as toras em ripas e as colou paralelamente. O resultado foi um painel medindo 1,10 metro de tamanho, por 60 centímetros de largura e 3 centímetros de espessura. “Com o painel pronto, parti para o estudo do design”, recorda.

Peça inovadora

Cavaleiro, orientado por Plácido, fez o esboço de uma cadeira que exibisse toda a potencialidade que a madeira permitisse. As diretrizes traçadas pelo aluno eram para que o móvel apresentasse curvas, fosse fácil de fazer, respeitasse as normas de ergonomia e fosse bonito de se ver. “O resultado foi uma peça belíssima”, orgulha-se Plácido. O professor ressalta que só o ambiente universitário permite que descobertas como essa aconteçam.

Usando a experiência de quem trabalha há anos com móveis, Cavaleiro conta que o trabalho para a construção da cadeira não levou três dias. “Com os estudos aprovados, rapidamente cortei as peças e montei o móvel”, Para fazer toda a peça, Cavaleiro disse que não precisou mais que uma furadeira e uma serra tico-tico. Depois de montada, a cadeira recebeu aplicação de pigmento e verniz. O resultado foi uma cadeira em estilo oriental, da cor da madeira do jacarandá, muito leve e resistente.

“É uma cadeira diferenciada sob todos os aspectos. O material de que é feita é ecologicamente correto. É barata e simples de construir”, aponta Plácido.

Os colegas de Cavaleiro não acreditavam que a cadeira havia sido feita com madeira de mamona. “Todos queriam ver, tocar, sentar”, lembra. O orientador ressalta que das mais de 60 bancas deste final de ano, apenas três receberam a mesma nota alcançada pelo aluno. “Tinha tudo para não dar certo”, lembra Plácido. “Mas com persistência, olhar clínico, ele desenvolveu um processo. Foi buscar uma fonte que não existe”, aponta o orientador.

Só o fato de ter desenvolvido um processo inovador, garante o professor, é excelente. “Mas ele foi além disso. “É uma peça que pode participar de congressos e até concursos internacionais”, afirma Plácido. “A faculdade me deu esse espaço, sem esse incentivo, eu não teria chegado a esse resultado”, observa Cavaleiro.

A nova descoberta será registrada e Cavaleiro já pensa no futuro. “Gostaria de continuar pesquisando. Tem ainda muita coisa para ser estudada nesse caso. Preciso ver até onde vai”, se entusiasma. Cavaleiro imagina as inúmeras possibilidades da sua descoberta. “Propriedades de agricultura familiar podem montar pequenas marcenarias, onde as pessoas possam fazer a mobília das suas casas. Pode virar mais uma fonte de renda para essas famílias”, acredita.

Outra possibilidade é a substituição da balsa, tipo de madeira usada em aeromodelismo, pela madeira de mamona. “A balsa é importada e muito cara. A madeira que encontramos é tão resistente e leve quanto ela”, observa.

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A planta

A mamona não é uma planta exigente, cresce em qualquer lugar. Também é excelente para recuperar o solo. Suas raízes são superficiais, quebrando os torrões do chão, afofando a terra. As folhas, quando caem, formam uma cobertura orgânica, auxiliando a regeneração do local. “Além disso, quando morrem, as raízes adubam a terra. O solo revive”, conta o designer Flávio Cavaleiro.

Segundo o estudo realizado pelo graduando, existem muitas variedades de mamonas. A maioria é arbustiva, ramificada, mas algumas se parecem com árvores altas, com poucos ramos. A produção de sementes inicia-se aos seis meses e só termina com a morte da planta.

O óleo de mamona tem mais de 700 aplicações – pode ser usado como insumo ou base na fabricação de tintas, isolantes, lubrificantes, cosméticos e perfumarias, fármacos, corantes, anilinas, desinfetantes, germicidas, colas e aderentes, polímeros, fungicidas e inseticidas.

Depois de extraído o óleo, a sobra (chamada de torta ou farelo) ainda pode ser usada como composto orgânico de excelente qualidade, na recuperação de solos degradados, e como ração animal. A mamona produz de 15 a 20 toneladas de madeira por hectare, que segundo pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), pode ser processada e transformada em composto orgânico.