O apocalipse, ou fim do mundo, é um assunto que permeia o pensamento e os debates humanos desde a pré-história. Diante de catástrofes naturais - como os tsunamis -, guerras - como a do Iraque - e epidemias - como a febre maculosa -, o homem sempre se questiona sobre a possibilidade do final dos tempos. Para analisar um assunto tão antigo e ao mesmo tempo tão atual, o JC entrevistou o antropólogo e professor doutor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Cláudio Bertolli Filho.
Jornal da Cidade - Por que existem tantas especulações sobre o fim do mundo, como o bug do milênio na virada do ano 1999 para o ano 2000?
Cláudio Bertolli - Nós pensamos o tempo, não só das nossas vidas, mas da história da humanidade através de ciclos. Estes ciclos sempre trazem o começo, o desenvolvimento e o fim. Então, desde os primeiros registros humanos o homem fala sobre a existência de um momento inicial, que seria o momento de ouro, um tempo onde o homem era perfeitamente feliz, é o paraíso. A partir das próprias contradições humanas, da cultura e dos vícios - como a inveja e a cobiça - o homem vai tornando a sua vida cada vez mais difícil. Então, a partir da idade do ouro, há uma decadência. Em certo sentido, se pensa que a história humana é a história da infelicidade, do acúmulo de infelicidade, e há uma tendência nesta idéia cíclica, tem ciclos menores - séculos -, ou maiores - milênios. A nossa perspectiva de história é milenarista, ou seja, é pensar que no final de um milênio vai acontecer alguma coisa. Na nossa consciência é sempre algo negativo: o bug do milênio, ou no ano 1999 para a virada do ano 2000, o apocalipse.
JC - Mas por que isso acontece?
Bertolli - Porque a nossa consciência, a nossa tradição hebraico-cristã fala que um dia vai existir o apocalipse. Lá no livro de São João você tem a descrição do apocalipse, da besta do apocalipse. Mesmo que não sejamos católicos apostólicos romanos, há em nós uma tradição cultural na qual haverá alguma situação que levará ao final do mundo. Essa situação é cíclica, pode ser lá no final do século 19, final do século 20, ou milenar, mas também pode ocorrer devido a eventos diferenciados.
JC - Por exemplo?
Bertolli - A epidemia que ocorreu em 1918. Naquele ano, houve a 1.ª Guerra Mundial, houve no Brasil uma geada muito grande - a avenida Paulista ficou coberta de neve - e teve a lagarta rosada, que destruiu as plantações de café. A partir desse conjunto de situações traumáticas que se conjugaram e ocorreram praticamente no mesmo período, desenvolveu-se, inclusive entre os intelectuais brasileiros, a idéia de que o momento do apocalipse estava chegando.
JC - Em que outros momentos históricos houve especulações acerca do apocalipse?
Bertolli - Há uma atualização periódica nos elementos que levariam ao apocalipse. Quando da guerra fria, da corrida nuclear, do surgimento da bomba atômica, em todos estes momentos houve um discurso de que o mundo acabaria.
JC - Então o pensamento apocalíptico sempre existiu?
Bertolli - Freud fala que o pensamento apocalíptico faz parte da psicologia iminente ao ser humano. De onde eu venho, para onde eu vou, e quando eu vou? Pensamos sempre que estamos acumulando ou pecados, ou vícios, ou certas formas de comodismo que vão inevitavelmente nos levar para um fim trágico. E esse fim trágico pode ser visto em qualquer situação: bomba atômica, por exemplo, ou o discurso ecológico. Porque para o discurso ecológico, nós estamos desrespeitando o planeta Terra e vamos torná-lo inabitável. A morte da Terra seria a morte do homem.
JC - De que forma o senhor analisa o discurso ambientalista sobre o apocalipse?
Bertolli - Nós temos dois discursos. Um deles é romântico e sentimental: abraçar a lagoa Rodrigo de Freitas, conversar com as árvores. Mas existe uma outra perspectiva, que eu acho mais produtiva, que é um discurso que nem é mais ecológico, é ambientalista, que busca pensar como viver em espaços urbanos ou como explorar o meio-ambiente de uma forma racional. Isto é, criando condições para que o que é possível seja recuperado e preservado. Na ótica dos ambientalistas, o mundo pode acabar caso os recursos naturais continuem sendo utilizados da maneira como tem sido feito.
JC - E com relação às catástrofes naturais e epidemias?
Bertolli - Veja o tsunami. Ele é benigno, ou não? As doenças são benignas? Muitas das doenças são naturais, elas não são produzidas por outras situações. Por exemplo, o vírus causador da gripe é um elemento natural. Ele possui naturalmente um dispositivo chamado antigenismo, que faz com que, geralmente, de 80 em 80 anos, ele sofra uma variação genética tal, que se torne extremamente nocivo ao ser humano. Então, a gente tem as grandes epidemias gripais. Está sendo programada uma agora, até 2010, havendo a possibilidade de acometer dois terços do planeta. Isto é, quatro bilhões de pessoas contraírem e, destes quatro bilhões, pelo menos 100 milhões morrerem.
JC - Mas não existem vacinas potentes contra o vírus da gripe?
Bertolli - A gripe é causada por um vírus que sofre mutações. Tem uma vacina chamada de ‘amplo espectro’, que tenta pegar todas as variantes virais existentes no período e se cria uma vacina, mas quando há uma nova variação do vírus, esta vacina não consegue conter. Então, mesmo quem toma vacina anti-gripal corre o risco de pegar o vírus.
JC - Há pontos de vistas diferentes sobre o apocalipse dependendo da cultura?
Betolli - Sim. Os muçulmanos, por exemplo, acreditam que o mundo vai terminar quando a cultura ocidental se disseminar no Oriente. Os indígenas têm mitos até hoje que falam que o fim do mundo se dará quando o homem branco dominar a consciência do último índio. Então, dentro de cada cultura, vai se desenvolvendo um pensamento apocalíptico.
JC - E o fim do mundo a partir do bug do milênio?
Bertolli - Isto está relacionado à questão pós-moderna. Porque nós dependemos da tecnologia. E se essa tecnologia falhar? Quando houve o bug do milênio, surgiram muitas explicações e possíveis problemas: os aviões cairiam, pessoas atreladas a máquinas nos hospitais morreriam, e nós viveríamos o caos. Porque o primeiro ato do apocalipse é o caos. Essas estruturas dominantes - igreja, política, militares -, elas seriam fragilizadas ou anuladas. E tudo depende hoje de tecnologia. Dependência que, se vamos ao médico e ele não faz um exame com uma máquina, ficamos frustrados. Imagine se tudo isso desaparecer? Seria o fim do mundo, seria o caos. Nossa noção é: se é impossível viver, então é o fim do mundo.
JC - Que reflexões o fato de atrelar o fim da tecnologia ao apocalipse pode trazer?
Bertolli - Isso é bem significativo de como nós estamos criando essa dependência. Tudo isso está me levando aonde? Será que a apologia da tecnologia não estaria levando a um esvaziamento do humano? E esse esvaziamento do humano não seria a morte do próprio homem, portanto, um apocalipse, meio simbólico, mas presente na nossa consciência? Será que há muita diferença entre nós, homens de 2005, e aqueles homens do ano 1000, que falavam “porque nós estamos pecando demais, há um acúmulo de pecados, o mundo vai queimar no ano 1000”, e isso foi transferido para o ano 2000, para vários outros momentos ou períodos mais específicos. Eu nunca me esqueço um jornal que li em 1962 ou 63, no caso dos mísseis russos lançados na Baía dos Porcos, em Cuba. O jornal falava o seguinte: “O mundo vai terminar amanhã”, era manchete de primeira página.
JC - Houve uma preocupação apocalíptica na virada do ano 999 para o ano 1000?
Bertolli - Com certeza. Nesta época houve uma interpretação pós-moderna do tempo, do ciclo. Um ciclo se fecha - o milênio - o outro se abre, e ele se abre sempre sob duas perspectivas: positiva, o final de um ciclo é a morte e abertura de um outro renascimento. Então, surge um novo ano, agora vamos refletir, vamos ser melhores; e também há uma outra dimensão, que o fechamento de um ciclo pauta essa desgraça, essa incoerência, esse acúmulo de pecados do homem, e o próximo momento não vai ser de regeneração, mas de aprofundamento do caos. A visão do fim do mundo sempre é mostrada como negativa. Nosso pensamento vai automaticamente por esse caminho, da decadência. Quando uma pessoa mais velha diz a outra mais nova: “Ah, no meu tempo...”. Ela quer dizer, ‘nós éramos melhores quando tínhamos a sua idade do que você é hoje’. Isso significa que a história do mundo está decaindo. Se eu era melhor e o mundo era melhor quando eu tinha a sua idade, é sinal de que houve uma trajetória de decadência, e esse discurso está presente em todas as gerações.
JC - Como a mídia trata questões referentes ao apocalipse?
Bertolli - Principalmente nos órgãos sensacionalistas, ou religiosos, tem sempre uma noção presente, explorada do apocalipse. Tanto que a Record vai ter um quadro num programa de domingo sobre o fim dos tempos. Certamente vai chamar atenção, porque vai explorar uma pilastra mestra da consciência humana. Porque durante toda a vida nós estamos pensando, efetivamente, no apocalipse. Veja os jornais, qualquer que seja ele, noticiam mais a tragédia do que as coisas boas. O jornal é o repertório da tragédia. Se você for pesquisar jornais antigos verá principalmente a tragédia da existência humana.
JC - As teorias sobre o apocalipse vendem?
Bertolli - Vendem muito. Com todo o respeito aos cristãos, para a antropologia, o que é a Bíblia? É um conjunto de mitos... São figuras mentais, arcaicas, que são modernizadas, quer dizer, moderniza o conteúdo, mas a fórmula continua a mesma, ‘o mundo vai acabar’. Até as teorias científicas: o sol esfriando, daqui uns trilhões de anos, quando não emitir mais raios luminosos, a energia gasta, o que vai acontecer com a Terra? De mil maneiras diferentes nós estamos vivendo toda essa questão cíclica de fim e de recomeço.
JC - Com a chegada do fim do ano, as pessoas pensam mais no apocalipse?
Bertolli - É justamente a mentalidade cristã que traz isto. Uma avaliação, a gente refletir para ser melhor no ano que vem, o que isso significa? Que eu fiz muita besteira este ano, porque eu sou pecador, irracional, desequilibrado... Então, acredito que nós alimentamos a cada instante essa noção de apocalipse, porque são estruturas mentais. A psicologia fala em andaimes do cotidiano. Eu reajo a situações porque eu tenho um conjunto de pilastras que, vamos dizer, sustentam meu pensamento, e instigam minha ação, e uma das pilastras certamente é a estrutura apocalíptica.
JC - Mas esse medo do apocalipse, do fim do mundo, ajuda a progredir ou a regredir?
Bertolli - Sempre tem uma função complicada. Todas as estruturas mentais têm uma função polimórfica, então, em última instância é preciso proteger você para que eu exista. Eu preciso proteger o pobre, porque faço parte da humanidade. Da mesma maneira, eu também demonizo o outro. O impuro é sempre o vizinho, impuro é o outro, impuro é o árabe, é a mulher, é o negro, é o africano, são as elites... Então, instiga a preservação do outro para a minha própria preservação, mas também instiga a ausência de solidariedade. É muito interessante como nós ao mesmo tempo vemos a relação dialética, eu preciso do outro mas eu odeio o outro. Eu respeito o outro porque preciso dele.
JC - Este ‘usar o outro’ se aprofundou com a modernidade e o uso de novas tecnologias?
Bertolli - Essa é uma questão que envolve inclusive a Internet. Eu detesto tanto o outro, então eu escrevo, eu estou me relacionando com a máquina. Ela é a minha mediadora em relação ao outro ou eu estou falando com ela? Todo o outro nada mais é do que algo tão insosso quanto o computador?
JC - O apocalipse preocupa por que tem como conseqüência o fim do homem?
Bertolli - Nós nos preparamos a vida toda para a nossa morte individual - o último fato constante na Bíblia é a morte, como o primeiro é o nascimento. Então, você se prepara a vida inteira para a morte, essa morte individual, mas também a morte coletiva. Com muita gente eu converso sobre a morte, e a maioria das pessoas, desde jovens até velhos, diz que gostariam de morrer coletivamente. Isto é, já que eu vou morrer, que morra o mundo. E tem também um discurso muito proletário: o fim do mundo é a minha morte, quando eu morro é o apocalipse. É o narcisismo.
JC - Se eu morri, o mundo morreu...
Bertolli - Ou, senão, tem de morrer. É uma injustiça eu morrer e o mundo continuar. É complicado. Você, eu, a gente se acha obviamente importante. O narcisismo faz parte de uma psicologia. O que é a tentativa de suicídio, o suicídio? É quando o mecanismo narcisista falha. Eu tenho que achar que sou um cara legal para continuar vivendo. Então, eu expando isso com uma visão universal. É dolorido pensar que se eu morrer amanhã, ou daqui a cinco minutos, o mundo continua igual. Uma outra pessoa vai se lembrar de mim, até que essa pessoa morra, e essa minha memória desaparecerá. Ninguém aceita o fato de ser esquecido.