Quando meu filho me revela que vai pedir um brinquedo para o Papai Noel é que percebo a magia que se manifesta nesta época. Porque me parece que o mais importante não é o brinquedo em si, mas o fato de existir um sujeito barbudo que, como um anjo, habita a cabecinha privilegiada de quem acredita neste mistério que se esvai conforme tal privilégio também arrefece.
O fundo falso das realizações só tem valor quando se encontra o algo mais que elas encerram, tirando-nos da limitação entediante que nos é oferecida pela prática do simplismo, sem que nossas capacidades de raciocínio sejam acionadas e assim, neste exercício de abstração, podendo encontrar a chave que nos abra a porta da poesia em nossas vidas.
Me explico melhor. Quando recebemos um elogio por uma atitude ou por uma característica física ou mesmo por uma pequena emoção que incitamos em outra pessoa, o legal seria entender que um elogio significa muito mais do que ele quer dizer. Significa que uma pessoa nos tem em boa conta, que releva nossas ações e que, em suma, gosta da gente. Não tem nada melhor que alguém gostar da gente e se sentir capaz de uma manifestação de carinho, por meio de uma reles lembrança que seja, verbal ou escrita, material ou espiritual. Isto é encontrar o Papai Noel nas coisas. É ou não é verdade que se, de outro modo, somos criticados ou se nos dirigem uma palavra mais ácida, ficamos procurando à exaustão os motivos pelos quais isto aconteceu. Seria o exemplo ao contrário da procura virtual pelo bom velhinho nas benevolências, porque na hora do contra, procuramos os chifres que o cavalo nem sempre tem.
Gosto de esporte demais. Quando faço uma boa jogada, tão banal numa partida de tênis ou de futebol, não posso me ater àquele simples momento como se fosse mesmo banal. Banal coisa nenhuma, porque a jogada que resultou num ponto ou num gol me mostra, já que adoro esporte, que esta prática sempre me dá muita alegria, porque me empenho nos treinos me mantendo em níveis “sanguíneos” e técnicos de poder me fazer feliz com o esporte que amo, sem precisar recorrer, como sempre fazemos, às jogadas de ronaldos, cacás e gugas. Nossa televisão e o prazer que ela traz é o nosso campinho ou a nossa quadra: é mágico e muito melhor.
Acho que em todo o canto o Papai Noel está escondido e existindo. Quando você se delicia com uma comida gostosa, que faz a gente se sentir vivo e querendo mais, deve-se procurar o entendimento do que isso representa. Não se trata de fazer comparações ridículas com as pessoas que nada têm para comer enquanto você tem, ou pior ainda, pensar naqueles que nascem sem boca para se sentir superior. Não. Por exemplo, achar que se você está sentindo prazer em degustar um prato que te apetece, você está num estágio onde a vida lhe sorri, e que você retribui tal sorriso com mais vontades e percepções do bom e do belo.
Quando o ser humano vir no mundo a possibilidade viva de um Papai Noel existir dentro de cada ação, o resultado será um mundo superior, de evoluções, que fará um país e uma cidade se transformarem a partir de uma faísca positiva e consciente, independente das mobilizações demagógicas que pretendem mudanças a fórceps, na marra e em massa. A equação da superação apresenta as incógnitas e as respostas dentro de cada um.
Se o Natal se repetir com sua força renovadora, brilhante e cristã durante o ano todo, nossa casa e as pessoas que amamos serão os reflexos vivos de uma nova maneira de agir, livre de preconceitos e de repetições rançosas, promotoras de uma vida nova, que é aquilo que um Ano-Novo tem que representar em nossos corações.
Marcondes Serotini Filho - ortodontista, cronista e autor dos livros “Os Caçadores de Tirisco” e “O Sonho: Crônicas Escolhidas”