09 de julho de 2026
Cultura

Talento de Bauru brilha no Exterior

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

Para qualquer pianista, tocar o Concerto para Piano e Orquestra de Tchaikovsky é algo complexo e que exige anos de preparação. Mas, para o jovem bauruense Rogério Lourenço dos Santos, 26 anos, foi preciso apenas duas semanas para que estudasse a peça e a apresentasse em Dakota, nos EUA, há dois anos.

Contudo, atingir este patamar, exigiu sacrifícios. Desde 2002, Rogério, mais conhecido como Tutty, reside fora do Brasil, distante de amigos, familiares e namorada, e passa a maior parte do seu dia, quando não o dia todo, com os dedos sobre o piano. “Quase todo o meu tempo é dedicado ao piano mas, para mim, isso é prazeroso. Eu sou grato porque estou vivendo tudo o que planejei e isso me dá forças para continuar o que estou fazendo”, conta o pianista, que veio a Bauru para passar as festas de fim de ano.

Recentemente, o músico, que tem sido comparado a grandes pianistas do cenário internacional, apresentou-se na Steiner Hall em Boston, nos EUA. Sua performance rendeu o seguinte comentário do professor Benedito Guedes de Azevedo, de Bauru. “Ele consegue colorir e incendiar as notas como se fosse pinceladas de mestre na tela ou descargas elétricas numa tempestade tropical”. Durante sua carreira, Rogério teve a oportunidade de conhecer e trocar experiências com Arnaldo Cohen, Luis de Moura Castro e Russel Sherman.

Requisitado para apresentar-se em diversos concertos, o pianista tem planos de voltar a Bauru em julho do ano que vem para tocar em um evento em comemoração ao aniversário da cidade, celebrado no dia 1 de agosto. Além disso, Rogério tem se dedicado para o Primeiro Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos, que será realizado de 13 a 20 de agosto de 2006 em São Paulo. “Acredito que este evento impulsione o piano no Brasil. Villa-Lobos está no mesmo patamar de outros músicos do gênero, mas muitos brasileiros não conhecem seu trabalho”, lamenta.

Foi a falta de reconhecimento que fez com que o músico abandonasse o País e alcançasse o seu sonho no Exterior. “O mais triste é ver que no Brasil muitas pessoas não reconhecem a carreira de músico como profissão. Aqui existem ótimos pianistas, mas quase não há incentivos para que eles se aprimorem profissionalmente”, afirma Rogério, que, após ter concluído o mestrado em piano e performance na University of North Dakota, dará início ao doutorado na University of Hartford, em Connecticut nos Estados Unidos, em 2006.

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Pianista ao acaso

Ao contrário de muitos pianistas que se debruçam no instrumento desde seus primeiros anos de vida, Rogério não teve pretensões artísticas até conhecer a música clássica aos 15 anos. “Comecei a tocar teclado por diversão com 11 anos. Meu contato com os clássicos se deu no Conservatório Musical Pio XII da USC. Desde então, nunca mais saí deste mundo”, conta o jovem pianista.

Rogério ainda recorda que, no início de sua carreira, mal conhecia os compositores que se tornaram, em pouco tempo, motivos de inspiração para sua vida. “Na época em que tive contato com a música clássica, lembro de ter me referido a Mozart e a Beethoven como uns caras cujas composições gostaria de aprender”. Mas, a habilidade com o piano foi logo percebida pelo professor do conservatório João Fernando Paluan, a quem Rogério credita grande parte de suas conquistas. “Ele (Paluan) foi louco. Depois de dois ou três tocando os clássicos, ele me inscreveu num concurso internacional em Cuba. Disse que eu só precisava sentar e estudar que iria aprender. Não fui classificado, mas minha ida foi uma vitória”.

Passados três anos, a história mudou. Em 99, Rogério participou do mesmo concurso e foi vencedor como melhor intérprete da Música Latino-Americana em “Amadeo Roldan” em Havana, Cuba. O prêmio lhe rendeu uma bolsa de estudos na cidade. O músico ficou seis meses no país dedicando-se ao piano. Voltou ao Brasil, concluiu os estudos na universidade e, depois, recebeu uma outra bolsa, desta vez, para um mestrado em Dakota, nos Estados Unidos. E, pelo que tudo indica, isso é apenas o começo de um músico que dará muito orgulho a Bauru.