Em um ano de poucos espetáculos teatrais com elenco “global” ou de artistas conhecidos nacionalmente, se destacaram em Bauru as iniciativas locais e a presença de companhias com tradição, que trouxeram aos palcos da cidade novas produções ou coletâneas de seu trabalho dos últimos anos. O JC Cultura analisa hoje o cenário teatral da cidade e aponta o que de melhor e maior destaque aconteceu em 2005.
É natural começar falando das peças em que os nomes do elenco brilham mais do que o próprio texto, afinal são estas as que mais chamam atenção da cidade e servem até mesmo como formadoras de público, em uma das artes que mais tem dificuldade para a viabilização dos espetáculos. Um caso positivo é “Sergio 80”, escrita por Domingos de Oliveira para que o ator, diretor e produtor Sergio Britto comemorasse seus 80 anos, encenada em março no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves.
O espetáculo traça a vida de Britto e destaca, como ele mesmo aponta, seus assuntos prediletos: “Sexo, teatro e viagens, necessariamente nessa ordem”. Foi uma oportunidade tocante de ver uma estrela eterna dos palcos brasileiros, quando seu nome realmente merece estar em destaque nos cartazes. “Achadas e Perdidas”, com Maitê Proença e Clarisse Derzié Luz, é outro exemplo de texto que tem a protagonista maior do que o próprio espetáculo. A peça é formada por uma série de esquetes, baseados em crônicas escritas por Maitê para sua coluna em uma revista semanal. Apesar de alguns momentos menos inspirados, ela e Clarisse dividiram o palco com graça e conseguiram emocionar o público nos segmentos mais tocantes e pessoais.
A cidade também recebeu “Pólvora e Poesia”, com Cláudio Fontana e Leopoldo Pachecho representando os poetas Rimbaud e Verlaine; a comédia juvenil “Liberdade para as Borboletas”, com Débora Duarte, Taís Araújo, Caio Blat e Pablo Falcão; “O Bebê de Reginaldo”, com o comediante Luiz Carlos Tourinho; e “Três Homens Baixos”, com Francisco Cuoco, Gracindo Júnior e Chico Tenreiro. A última, especialmente, revela como a comédia teatral comercial necessita apenas de alguns palavrões e chavões (o corno, o impotente e o gay) para fazer rir e lotar platéias, sem qualquer base ou amplitude dramática.
“Camila Baker - A Saga Continua”, encenada no mês passado, poderia se enquadrar também nessa crítica se não fosse, abertamente, despretensiosa. Daniel Boaventura, Marcos Mion, Danton Mello, Otavio Muller e Leonardo Bricio usam do que fazem melhor para escrachar qualquer tentativa de mostrar um texto no qual o menos importante é a profundidade. A única meta é fazer rir, na platéia e no palco.
Oportunidades
Deixando de lado o teatro comercial, os palcos de Bauru abriram espaço para bons textos do Grupo Tapa, a italiana Compagnia Laboratorio di Pontedera e a Companhia de Teatro Pé de Vento, além da Companhia do Latão, que mostrou quatro de suas últimas produções em um festival realizado no Serviço Social do Comércio (Sesc) e no Teatro Municipal.
Do Tapa, o destaque, sem dúvida, foi “A Mandrágora”, de Nicolau Maquiavel, que o grupo já havia adaptado em 1988. Considerado um marco no teatro ocidental, o texto oferece uma história de sedução e paixão como base para uma análise crítica e irônica de estratégias políticas, mentiras, manipulações e corrupção. O Tapa também apresentou a interessante comédia de humor cáustico “Executivos”, tradução de “Les Directeurs”, texto francês contemporâneo de Daniel Besse, e “Contos de Sedução”, que reuniu seis contos de Guy de Maupassant.
Com ingressos a preços populares e uma variedade de temas e encenações, a Mostra Teatral Companhia do Latão ofereceu uma coletânea de textos montados nos últimos anos pelo grupo, com atuações consagradas e elogiadas e um trabalho digno de ser apreciado. Com “Auto dos Bons Tratos”, “Equívocos Colecionados”, Visões Siamesas” e “Mercado do Gozo”, o público pode perceber um trabalho em constante evolução e as características de uma companhia teatral que preza pela interpretação, pela dramaturgia e pela qualidade crítica de suas peças.
Outras produções com merecidos elogios foram “Agreste”, com Paulo Marcello e João Carlos Andreazza, apresentada na Sesc em fevereiro; “As Favoritas do Rádio”, “Arte Amor e Ilusão”, dos bauruenses Luciano Grotto e Graziele Ruiz; e “De Malas Prontas”, da companhia Pé de Vento, que realizou um trabalho irreverente e bem humorado em um espetáculo sem falas.
Dos “filhos da terra”, merecem destaque o infantil “Vem Vento”, da companhia Sylvia Que Te Ama Tanto, que foi o principal vencedor em sua categoria no 29.º Festival Nacional de Teatro de Pindamonhangaba (Feste), com os prêmios de melhor espetáculo infantil, melhor pesquisa de linguagem, melhor figurino, melhor cenografia e melhor iluminação; e também o texto “A Casa da Sogra”, escrito e encenado por reeducandos do Instituto Penal Agrícola (IPA) do grupo Enquanto Ela Não Vem, um dos finalistas da fase regional do Mapa Cultural Paulista.
Já tradicional, a Mostra de Teatro Paulo Neves, com atores ainda amadores do curso do diretor bauruense, teve duas edições em 2005 e também ampliou o leque de opções culturais em Bauru. As peças, especialmente as com textos juvenis e adultos, mostram como a experiência dos diretores e o elenco entrosado, mesmo que inexperiente, podem dar bons resultados sob as luzes do teatro.
Das peças de grupos locais ou textos infantis aos espetáculos com grandes produções, a certeza é de que não falta público, seja da cidade ou da região. Em alguns casos, o preço dos ingressos talvez afugente parte dos interessados, mas deve ser valorizado o trabalho das produtoras que optam por bons textos e bons atores no momento de oferecer teatro a Bauru.
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O que vem por aí
A produtora EL Teatro, que trouxe “Camila Baker” e “Achadas e Perdidas”, entre outras, já tem reserva de data de alguns espetáculos que planeja mostrar a Bauru ao longo de 2006. Alguns dos destaques são “Amo-Te - Você Nunca Amou Alguém Tanto Assim”, com Daniele Winits e Daniel Dantas, com texto de Marcelo Rubens Paiva, e “Marido de Mulher Feia Tem Raiva de Feriado”, comédia com Ari Fontoura, Luciana Coutinho e Amélia Bittencourt.
“Nossa expectativa é de continuar produzindo. Esperamos grandes espetáculos em 2006, no que depender do nosso trabalho. Contamos também com as parcerias e apoios, mas nossa idéia é não parar”, comenta Érika Dios, uma das sócias da El Teatro.
Renato Chiquito, da Chiquito Produções, também tem datas em alguns espetáculos que já passaram pelos teatros das capitais, como “Adivinhe Quem Vem para Rezar”, com Paulo Autran e Cláudio Fontana, que deve ser apresentado em maio. Antes, em março, a produtora quer trazer “Rastro de Luz”, com Júlia Lemmertz, e “Amigas - Associação das Mulheres Interessadas em Gargalhadas, Amor e Sexo”, com Bianca Castanho, Fernando Caruso, Jéssica Sandré, Lívia Rossi e Cacau Mello.
Para o mês seguinte, está programada “Arte”, que teve direção do dramatugo bauruense Mauro Rasi em sua primeira montagem e deve vir a Bauru com Tato Gabus Mendes, Marcos Breda e Mário Schoemberg, sob direção de Alexandre Reinecke.